Agencia Dinheiro Vivo
Mudança nas estratégias de investimento
A regulamentação que limita a participação dos grupos operadores no mercado nacional de energia elétrica, aliada à escassez de recursos externos para financiamentos, está alterando os planos estratégicos de investidores locais e estrangeiros no processo de privatização do setor elétrico brasileiro. A consequência mais direta é a cautela nas novas aquisições. Analistas citam o fracasso no leilão da Eletropaulo e os sucessivos adiamentos no leilão da Celpa, do Pará, como exemplos. O primeiro porque as duas distribuidoras resultantes da cisão da estatal (Metropolitana e Bandeirante), representam grandes parcelas do mercado nacional, além dos altos valores envolvidos. O segundo porque os investidores estão querendo saber mais sobre as privatizáveis, não somente com medo de adquirir empresas problemáticas, mas agora também pela dificuldade de obtenção de recursos e pela limitação da participação, que vale tanto para o mercado nacional como um todo, como isoladamente, para os sistemas interligados Norte/Nordeste e Sul/Sudeste/Centro-Oeste, denominados mercados regionais.
Maior o grupo, maior o peso da limitação
Grandes operadores, como Light, VBC Energia e Enersis, são os que mais sentem as alterações na regulamentação da participação, por já possuírem grandes parcelas no segmento de distribuição nacional, onde o limite é de 20% para cada empresa. O consórcio controlador da Light, por exemplo, formado pelos grupos EDF, Houston Industries e CSN, superou esse limite com a compra da Metropolitana, que responde por 13,2% do mercado nacional e 16,5% do regional, totalizando assim uma participação de 21,5% no mercado nacional e 16,5% no mercado regional, onde o limite estabelecido pela Aneel é de 25%. Isso quer dizer que Light não pode mais participar de privatizações na distribuição, e teve que estabelecer um acordo com a Aneel para se ajustar ao limite de 20% e 25% (nacional e regional) nos próximos dois anos. Não quer dizer, no entanto, que EDF, Houston e CSN não possam concorrer separadas em novas privatizações de distribuidoras. O presidente da VBC, José Guimarães Monforte, admite que a desistência para a Metropolitana, onde era favorita, levou em conta esse ingrediente de limitação. “Há outros mercados que podem ser mais interessantes, menos engessados e com maior possibilidade de alavancagem”, diz. “Se comprássemos a Metropolitana não poderíamos concorrer em mais nenhuma venda da distribuição”.
Concorrência mais democrática nos leilões
Os analistas acreditam que a cautela dos grandes investidores tenha como principal efeito uma concorrência mais democrática nos leilões das elétricas, principalmente nas pequenas distribuidoras do Norte e Nordeste, onde estarão também participando operadores com menor poder de fogo, sem a “sombra” dos grandes. “Essa limitação (tanto de recursos quanto de participação) promove a entrada de novos ‘players’ nas privatizações das elétricas, nomes que já sondavam o mercado nacional, mas sem participar efetivamente das compras, exemplo a Bechtel, a Tractebel”, afirma Sérvulo Lima, analista do Bozano Simonsen. Outro efeito seria a diminuição dos ágios elevados verificados em privatizações anteriores, particularmente no ano passado, como consequência direta desse menor poder de fogo dos novos investidores. Estima-se que até os preços mínimos das privatizáveis sejam modelados diferentemente, de forma a torná-las economicamente mais viáveis a estes novos agentes.
Elementos inéditos na privatização do setor
Neste ano, dois elementos inéditos surgem na privatização do setor elétrico brasileiro. O primeiro é o início da venda do segmento de geração, cuja característica mais marcante é a entrada de novos operadores no mercado nacional, como a Powergen, National Power, Hong Kong Eletric, Endesa espanhola, Southern Eletric (que detém parte da Cemig), entre outras. Serão grandes valores envolvidos e as divisões dos grandes blocos geradores pertencentes ao sistema Eletrobrás antecipam a limitação e revelam a preocupação do governo em obter sucesso nos leilões, dada a escassez de recursos em âmbito mundial. Essa escassez traz como resultado o segundo elemento inédito na privatização das elétricas, que é o da disputa por “funding” para as vendas dos setores de eletricidade (principalmente geração) e telecomunicações, que também acontece neste ano.
“Pequena fábula ilustrativa”
“O Brasil ficará neste ano como uma senhora que tem muitas maçãs para vender aos irmãos famintos de uma casa. Apesar da fome, os irmãos têm os pais como única fonte de dinheiro. Ou a senhora vende mais barato, ou não conseguirá vender todas as frutas. Isso porque, além do dinheiro, se comessem todas as maçãs os garotos teriam uma séria indigestão. O ideal seria que ela passasse na casa em intervalos regulares, quando os garotos estariam com o dinheiro de cada mesada com a fome renovada. O problema é que ela precisa do dinheiro das frutas, sem se dar conta de que elas podem estragar se não forem vendidas”, ilustra Maurício Fontes, analista do setor elétrico, sobre a pressa da privatização nos diversos setores de infra-estrutura nacional e o chamado efeito “indigestão” dos investidores internacionais.