Comentário: Abaixo, uma resposta do diretor do ONS relacionadas á análise da PSR sobre a atual situação do setor.
Como o ILUMINA também acha que o risco de racionamento não é desprezível, mesmo sem sermos chamados, vamos “meter a colher” nessa celeuma, mas sob outro ponto de vista. O que nos parece claro é que estamos num momento do sistema onde se percebe que os critérios podem, devem e estão sendo questionados. A transparência e o abandono das certezas absolutas ajudariam bastante.
1. A interpretação do ILUMINA não depende de que o sistema esteja numa situação onde haja dúvidas sobre a segurança. Nossa opinião é de que há outros sinais de divergências entre o planejamento e a operação que podem ser detectados em outros momentos.
2. A partir de diversos dados, é possível perceber alguns indícios dessas dissidências.
3. Por exemplo, examinando-se dados de geração média mensal de 20 usinas hidráulicas importantes do sistema (cerca de 40% do total), algumas relações numéricas inquietantes ficam evidentes.
4. As “garantias físicas” dessas usinas são o seu limite de contratação. É um cálculo que depende de metodologia e de diversos parâmetros subjetivos, tais como o “custo do deficit e a taxa de desconto do futuro”.
5. Essas “garantias”, quando comparadas a sua geração média real parecem muito altas, pois, na realidade, a geração hidráulica real é composta também da “energia secundária” que é a usada para substituir a oferta das térmicas. Afinal, parte dessa capacidade de geração, funciona como seguro.
6. Portanto, estruturalmente, as garantias físicas das hidráulicas deveriam ser necessariamente menores do que a sua geração média, caso contrário essa “garantias” podem estar super estimadas.
7. Os números, resultantes de análises de diversos períodos, mostram garantias físicas e gerações muito próximas, sendo que, em alguns casos, a garantia está acima da geração média, em princípio, uma estranha situação.
8. Esse indício é confirmado pela alta percentagem da participação das hidráulicas na geração total (geralmente acima de 90%), sempre feita em nome da modicidade tarifária, mas podendo ter efeitos indesejados como os de agora. Afinal, 74% de capacidade instalada não podem gerar > 90% da energia se não houver energia secundária em percentuais significativos.
9. Esse é a nossa contribuição para o debate.
10. O estudo da PSR, deveria ser considerado, pois aponta outros problemas não analisados pelo Dr. Hermes, como as gerações de pequenas usinas, que, até confirmação, estão bem abaixo dos valores dos planos. Tal efeito não é desprezível e deveria ser alvo de exame aprofundado.
Apesar da crise, negada por uns e apontada por outros, O ILUMINA consideraria esse momento como muito rico. Isso se o governo admitisse a possibilidade de diálogo aberto. Infelizmente, esse não parece ser o caso.
Por Hermes Chipp – Valor – 15/01
Mais uma vez, nesta época do ano, a PSR consultoria apresenta, como em 2007/08, estimativas de risco de racionamento de energia no Sistema Interligado Nacional (SIN), com base na utilização de modelos probabilísticos. Para o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o uso dessa metodologia na época de transição de regime hidrológico é equivocado, pois os resultados são influenciados pelos baixos níveis de armazenamento dos reservatórios e pelo histórico recente de afluências desfavoráveis. Consequentemente, os riscos de déficit serão exagerados.
Por isso, o ONS só realiza seus estudos de avaliação de risco de racionamento e indicadores de segurança energética ao final de cada estação chuvosa, com horizonte de cinco anos à frente, evitando distorções causadas pelas incertezas inerentes ao comportamento das vazões ao longo do período úmido.
Na atual situação, as expectativas do ONS em relação ao atendimento energético para os próximos meses baseiam-se na perspectiva futura de chuvas. Para isso, o ONS considera previsões climáticas no horizonte de três meses, oriundas de diferentes institutos nacionais (CPTEC/INPE, CEMADEN e INMET) e internacionais (NCEP e IRI). Além disso, o ONS considera previsões de anomalias de chuva, já utilizadas com sucesso, no período crítico vivido pelo setor elétrico entre 2007 e 2008.
Nenhuma das previsões utilizadas pelo ONS indica que o restante do período úmido de 2012/2013 apresentará déficit de chuva nas bacias da região SE/CO. Além disso, a previsão intrassazonal de curto prazo (oscilação de Madden – Julian) indica um quadro de chuva próximo da média nas próximas semanas nessas regiões.
Considerando que o parque gerador térmico e hidráulico crescerá cerca de 10.000 MW ao longo de 2013, dos quais 3.000 MW serão de expansão térmica, nossas análises conduzem a riscos de racionamento praticamente nulos. Na entrevista ao Valor , o presidente da PSR fez diversos comentários que demonstram pouca familiaridade com a operação do SIN:
1. Não é verdade que 2012 começou com o maior nível de armazenamento dos últimos 12 anos. As regiões SE/CO e NE, que juntas representam 88% da capacidade de estocagem do sistema, apresentavam em abril de 2012 armazenamentos de 76,1% e 78,9%, respectivamente, correspondendo ao terceiro pior e ao quinto pior dos valores registrados no histórico dos últimos doze anos. Além disso, as condições hidrológicas desfavoráveis no período seco (maio a novembro) nas regiões Sul e Nordeste do país, fizeram com que ambas fossem supridas pela região SE/CO, fato que conduziu a um deplecionamento adicional de cerca de 18% do EARmáx, nesta região.
2. A afirmativa de que houve chuva da ordem de 87% da média nos reservatórios está equivocada, pois a análise das principais bacias da região SE/CO indica valores da ordem de 73% no Paranaíba, 79% no rio Grande, 71% no rio São Francisco e 78% no rio Tocantins. Além disso, chuva é condição necessária, mas não suficiente, para garantir vazões adequadas nos rios, pois seu valor acumulado não significa que sua distribuição espacial tenha sido regular ao longo do tempo, de modo a permitir a plena recuperação dos armazenamentos.
3. A afirmação de que a operação do sistema de transmissão de 765 kV, que escoa a geração do setor de 60 Hz da UHE Itaipu, segundo o critério de segurança N-2, prejudica o aproveitamento da disponibilidade de geração desta usina é improcedente. A flexibilização da distribuição de geração entre as 20 unidades geradoras dos setores de 60 Hz e 50 Hz é feita sem prejudicar a produção da usina. Prova é que, em 2012, Itaipu bateu seu próprio recorde de produção com 94,6 milhões de MWh, em 18/12.
4. A afirmação de que haveria excesso de zelo em o ONS determinar a redução de geração em Itaipu nas condições de tempo severo após a instalação de equipamentos de segurança é incorreta. A proteção adicional contra descargas atmosféricas e chuva intensa instalada nas subestações do tronco de 765 kV, denominada “chapéu chinês”, não é efetiva quando ocorrem rajadas de vento, bastante frequentes nesta região. Assim, com base nas informações de tempo severo emitidas pelo SIMEPAR-Sistema Meteorológico do Paraná, o ONS somente altera o carregamento nas linhas de transmissão de Itaipu quando há previsão de ocorrência deste tipo de fenômeno.
5. A ineficiência energética apontada pelo consultor é mais um equívoco, pois a cada semana as diretrizes para a operação são estabelecidas com base na situação verificada do sistema, nas restrições previstas e na atualização das previsões de carga e afluências. Não há a menor possibilidade de que a produção estimada para cada semana operativa esteja superdimensionada, face ao constante monitoramento e atualização feitos pelo ONS e agentes, em relação aos valores efetivamente observados em tempo real. Além disso, o ONS, com o apoio do Cepel, elabora sistematicamente estudos de aferição do modelo de operação de curto prazo, simulando sua resposta às condições efetivamente verificadas.
Por fim, é importante diferenciar a atual situação do sistema elétrico, de desequilíbrio conjuntural momentâneo, do desequilíbrio estrutural do período 2000/2001, quando houve o racionamento. Com a reforma do setor elétrico em 2004, voltou-se a planejar e implementar projetos de expansão de capacidade de geração em hidrelétricas, fontes alternativas, termelétricas e de transmissão, compatíveis com crescimento do consumo.
O sistema atual apresenta equilíbrio estrutural, sendo disponibilizados para o ONS cerca de 14.000 MW de geração termoelétrica, contra os 4.300 MW existentes em 2000/2001. Isto equivale a um aumento de cerca de 60% na capacidade de armazenamento de energia dos reservatórios das hidrelétricas do SIN. Os investimentos em transmissão eliminaram os gargalos da época, quando, no racionamento, os reservatórios do Sul estavam vertendo e não se podia transferir energia para o Sudeste por falta de capacidade.
Hermes Chipp é diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico
