Lobão nega risco de racionamento de energia

 



Comentário; Quando a cúpula do governo numa entrevista coletiva mostra que confunde risco de um evento com o próprio evento (*), fica difícil acreditar que temos alguma inteligência capaz de estabelecer um diálogo esclarecedor com a sociedade.

 

Se alguém afirmasse que, ao jogar um dado várias vezes, “não há o risco” de sair o número 1, qualquer um gargalharia. Se alguém acha que a comparação é exagerada, é só imaginar a mesma situação com um dado de mais lados. A gargalhada ainda procede!

 

Abaixo, o “dado da natureza” ordenado de forma crescente. A coluna amarela é a média e a roxa o ano de 2012. Se as afluências desse ano, que está no entorno de 85% da média, já causou todo esse rebuliço, imaginem a ocorrência das situações das colunas vermelhas. E atenção! Essa curva registra o histórico. Ali há o dado da década de 30 do século passado. Com a situação de desleixo das nossas matas e a preocupante questão climática, quem garante que a situação não piore?

 

Portanto, o ILUMINA reafirma o que disse ao repórter do jornal. Não se trata de ser alarmista e sim de informar corretamente a natureza do problema.

1 – Risco de racionamento não é igual a racionamento.

2 – O sistema não conta com térmicas suficientes para suprir a demanda caso ocorram as situações de energia afluente em vermelho do gráfico.

3 – A tarifa que se cobra é para garantir que o risco se mantenha baixo e, na maioria do tempo, as térmicas não precisem ser usadas tal como agora.

 

Mas o pior dessa entrevista não é essa evidente má compreensão de processos estocásticos! O pior é que se afirma que “o modelo está defasado” como se fosse uma coisa trivial. As “garantias físicas” das usinas foram calculadas com esse modelo defasado. E ai? Fica por isso mesmo?

 

(*) Aparentemente, apenas uma exceção.



 

Cúpula do setor elétrico alega que modelo do ONS está defasado e não leva em conta o uso das térmicas.

 

 Danilo Fariello  Ramona Ordoñez – O GLOBO – 09/04

 

BRASÍLIA e RIO – A cúpula do setor elétrico no governo federal convocou a imprensa para negar a possibilidade de racionamento de energia durante a Copa das Confederações, neste ano, e a Copa do Mundo, no ano que vem. Reportagem publicada nesta segunda-feira no GLOBO, com base em dados do Plano Mensal de Operação (PMO) do Operador Nacional do Setor Elétrico (ONS) repassados aos agentes do mercado, informa que o risco de um racionamento de energia no próximo ano subiu para 9%, acima da média histórica de 5%. E que obras de geração e transmissão de energia previstas para o 2014 estão atrasadas.

 

O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, garantiu que não faltará energia em nenhuma hipótese nos estádios e cidades onde esses eventos ocorrerão e chegou a dizer que “nunca mais” haverá racionamento no Brasil. O ministro estava acompanhado dos principais nomes de Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e ONS.

 

— Quero dizer, definitivamente, que atrasos em nossas obras não comprometem a segurança do abastecimento nacional. Lamento profundamente o tom alarmista com que esse assunto vem sendo tratado. Não quero crer que haja nisso qualquer motivação política. Mas desassossega-se o país e gera-se incertezas econômicas — disse Lobão.

 

Na entrevista, Lobão comparou os órgãos de imprensa e especialistas que apontam os riscos de fornecimento ao velho do Restelo, personagem de “Os Lusíadas”, de Camões, que apresentava um pessimismo exagerado em relação à epopeia do povo português no mar.

 

— Temos de ter segurança de que não faltará oferta de energia, desabastecimento. Se a matriz é hidrotérmica, temos que lançar mão dela. As térmicas não existem para enfeitar o sistema — disse Lobão.

 

O diretor-geral do ONS, Hermes Chipp, disse que o risco de desabastecimento de 9% apontado pelo GLOBO, na realidade, é menor, porque o cálculo não levaria em conta o uso das termelétricas — que estão ligadas atualmente para fazer frente ao baixo nível dos reservatórios.

 

— Se fala em risco sem considerar o despacho de térmicas. Esse despacho é exatamente para garantir a segurança e o abastecimento no ano seguinte. Sem essas térmicas complementares, não se pode fazer esse cálculo de risco. O importante é que o sistema considera as térmicas para que o risco fique próximo a zero. Ninguém quer passar o que passamos em 2001 — disse Chipp.

 

O risco de déficit de 9% consta do Plano Mensal de Operação do ONS deste mês. O indicador de confiabilidade de suprimento calculado pelo ONS é indicado pelo termo “risco de qualquer déficit”. A cada mês, o ONS se reúne com os agentes do mercado, como geradoras e transmissoras de energia, para preparar os dados do PMO, indicando como deve funcionar o sistema no mês.

 

Cada agente tem acesso a uma cópia dos dados do PMO e pode rodar o programa “Newave” com esses informações para traçar cenários próprios. No PMO de abril de 2013, o indicador “risco de qualquer déficit” para a região Sudeste, em 2014, é de 9,35%, o que corresponde ao risco de 9% mencionado na reportagem.

 

Segundo Maurício Tolmasquim, presidente da EPE, o modelo “Newave” está defasado, porque não leva em conta o uso das usinas térmicas ligadas por motivos de segurança. Só daqui a alguns meses o programa será atualizado para levar em conta os novos critérios em vigor desde 2008, para se considerar o risco real do sistema.

 

— No momento em que se está operando quantidade grande de térmicas, não tem sentido olhar para esse número. Hoje, o risco é praticamente zero por uma razão determinística, porque você vai chegar a novembro com um nível que permite enfrentar a pior hidrologia dos últimos 40 anos. Só teria problema se não tivéssemos térmicas suficientes — disse Tolmasquim.

 

‘Atrasos não comeram folga do setor’

 

O presidente da EPE afirmou que o cálculo do equilíbrio estrutural do sistema elétrico, que leva em conta as perspectivas de oferta e demanda projetadas, considera um nível de risco de 2% de falta de oferta, o que hoje é confortável por conta de um excedente de geração de 1.773 Megawatts médios em relação à demanda prevista.

 

— Contrata-se mais do que o necessário, e os atrasos não comeram a gordura, a folga que temos no setor — disse Tolmasquim, alegando que a lista de obras da Aneel apontada na reportagem não se refere àquelas consideradas para assegurar as necessidades de oferta do mercado.

 

Tolmasquim e Chipp destacaram que, apesar do baixo nível dos reservatórios hoje, termelétricas estão sendo usadas para que as represas cheguem ao fim do período de chuvas com um nível de água que assegure a oferta de energia elétrica necessária para os próximos anos.

 

— Estamos aqui para, com todas as razões e todas as forças, dizer que não há risco nenhum de desabastecimento, de racionamento de energia A margem de risco é mínima, mas estamos a todo momento valorizando o risco, e não a segurança, que é de mais de 98%. O Brasil aprendeu com aquela dificuldade (de 2001) e nunca mais haverá racionamento no país — disse Lobão.

 

 

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