Comentário: A jornalista Miriam Leitão tem dedicado várias colunas à crise do setor. A do dia 21/09 provocou uma resposta do ONS. O ILUMINA comenta algumas das respostas do operador abaixo em cor marrom. A coluna da jornalista está logo após a resposta comentada.
ONS tenta explicar suas decisões
Abaixo, a carta enviada pelo diretor geral da Operador Nacional do Sistema (ONS), Hermes Chipp, no dia 22 de setembro. Nela, o dirigente tenta explicar as decisões da instituição:
Com relação às informações publicadas na coluna Míriam Leitão, de 21/09/2014, identificamos inconsistências no que diz respeito ao ONS, as quais esclarecemos aos seus leitores:
Sobre a adoção de campanhas de redução de consumo de energia elétrica
— A geração térmica, mesmo com a redução do consumo, seria mantida nos mesmos valores, visando à recuperação dos níveis de armazenamento dos reservatórios das usinas hidrelétricas, buscando maior garantia no atendimento a 2015.
Comentário do ILUMINA: Uma campanha de redução de consumo pode não reduzir o uso de térmicas, mas reduz os gastos dos consumidores, que, perante a atual confusão do setor nem sabem que cada MWh que poderia ser economizado está custando R$822. Isso é o mínimo que autoridades do setor deveriam informar.
— A redução do consumo causa para a sociedade o chamado “custo de déficit”, anualmente publicado pela Aneel e levado em conta nos modelos de despacho pelo ONS. Ressaltamos que o custo de geração térmica é inferior ao de déficit. Logo, seria um contrassenso reduzir o consumo de energia, que tem valor mais elevado, para promover a redução de geração térmica, que tem menor custo.
O custo do déficit é um parâmetro teórico que nada tem a ver com o mundo real. É um número que foi necessário para precificar a reserva, dado que adotamos um modelo onde a energia é uma mercadoria. Seu cálculo é muito subjetivo e o valor é incerto. Isso mostra o grau de virtualidade do atual modelo, onde um valor distinto do atual poderia provocar outro critério de operação com enormes impactos no mundo comercial.
Além disso, apesar desse custo não ter sido atingido, no mundo real, empresas produtivas estão preferindo negociar seu direito de consumo no mercado livre. Portanto, em sentido estrito, o racionamento já está ocorrendo.
— A atual configuração da matriz energética brasileira, com maior predominância de novas usinas hidráulicas a fio d’água, requer maior participação de geração termelétrica, face ao natural deplecionamento dos reservatórios no período seco de cada ano. Este ano, o fato foi agravado pelo comportamento desfavorável das chuvas e vazões dos rios.
O ONS precisa explicar a descontinuidade de uso de térmicas logo após o anúncio da MP 579. Em 2012, desde fevereiro, os dados mostravam um ano seco. Entretanto, só depois de setembro é que as térmicas passaram a gerar aproximadamente 20% da carga. Antes, apenas 9% da carga era atendida por térmicas. Estamos com os reservatórios vazios também em função desse uso exagerado dos reservatórios antes de setembro de 2012.
Sobre o suposto comando do ONS para que as usinas hidrelétricas gerassem além do pico de sua capacidade
— O ONS instrui o despacho das usinas hidrelétricas a intervalos de 30 minutos, por meio da programação diária da operação. Os valores programados são relativos à disponibilidade das usinas, conforme informação dos Agentes, em função das condições operativas e não em relação ao pico da sua capacidade. Com isso, há garantia de que toda a geração programada pelo ONS possa ser efetivamente produzida em tempo real.
O ILUMINA volta a chamar atenção para as garantias físicas das usinas que estão TODAS exageradas. Na realidade o sistema está desequilibrado, pois não oferece a garantia que está assumida. O critério de operação mudou, vai mudar ainda mais e esses certificados, que dependem do critério, não foram reduzidos.
A crise e a carta
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) não gosta do que eu escrevo aqui sobre a crise do setor. Entendo. Desta vez, o diretor-geral, Hermes Chipp, enviou uma longa carta cheia de detalhes técnicos. Nenhuma palavra sobre a questão central que tenho escrito: estamos vivendo uma grave crise elétrica que está abalando a saúde financeira das empresas e ameaça cair sobre o consumidor.
Hermes Chipp disse que há “inconsistências” no que escrevi domingo. Contesta a necessidade de ter sido feita uma campanha para reduzir o consumo quando se constatou que a chuva foi pouca e o nível dos reservatórios estava caindo. Ele disse que, se houvesse a redução, o custo da energia seria o mesmo, já que teria que continuar sendo usada a geração térmica. “Visando à recuperação das usinas hidrelétricas buscando maior garantia no atendimento de 2015.”
Ora, se temos um problema que pode se estender até o ano que vem, qualquer economia levaria ao aumento da segurança do sistema. Em época de stress hídrico é hora, sim, de economizar.
Ele escreveu em outro parágrafo de sua longa carta, em resposta a uma coluna que citou o ONS lateralmente, o seguinte: “a redução do consumo causa para a sociedade o chamado ‘custo do déficit’, anualmente publicado pela Aneel e levado em conta nos modelos de despacho pelo ONS. Ressalvamos que o custo de geração térmica é inferior ao do déficit. Logo, seria um contrassenso reduzir o consumo de energia, que tem valor elevado, para promover a redução de geração térmica, que tem menor custo.”
Estranho argumento, ou seja, dado que existe esse “custo do déficit” não devemos fazer o que é sensato: reduzir o consumo em tempos de escassez. Quanto ao preço da geração térmica, seu alto custo é uma das razões das inegáveis dificuldades financeiras do setor que serão pagas pelos consumidores.
Na carta, Hermes Chipp diz que: “A atual configuração da matriz energética brasileira, com maior predominância de novas usinas hidrelétricas a fio d’água, requer maior participação das térmicas…” As hidrelétricas a fio d’água são opção recente; não podem ser culpadas pela crise atual. É assim: antes se construíam grandes reservatórios. A maioria das usinas do país tem grandes lagos. Agora, para as novas hidrelétricas da Amazônia, como as do Rio Madeira, foi feita a opção de pequenos reservatórios. Elas não são a maioria do sistema e não podem ser a causa dos problemas atuais. Há boas e más usinas de barragem. A de Itaipu afogou as Sete Quedas num lago de 1.350 km², mas tem alta geração, de 14 mil megawatts. A de Balbina é um crime ambiental porque alagou 2.360 km² de Floresta Amazônica para gerar míseros 250 megawatts, equivalente a um terço de apenas uma das 20 turbinas de Itaipu. Existem barragens que fazem sentido, outras não.
O grande problema sobre o qual já falei aqui, reproduzindo alerta do especialista Mário Veiga, é que os reservatórios estão assoreando de tal forma que o Brasil pode estar com a capacidade de geração hidráulica menor do que registra em suas estatísticas elétricas. Veiga usa a imagem do comprador de um carro que faz 25 km/l e anos depois o veículo já gasto está fazendo apenas 15 km/l. Se o dono continuar teimando que é 25 km/l poderá ficar na estrada. Temos portanto que rever com análise mais acurada a nossa capacidade e recuperar os reservatórios existentes.
Não é a primeira vez que Hermes Chipp reclama por pequenas citações na coluna. Leia a íntegra da carta no blog. Lamento, mas escrevo o que apuro. Nessa última carta ele rebateu o que chamou de “suposto comando do ONS para que as usinas hidrelétricas gerassem além do pico de sua necessidade”. Aqui se falou da ordem de gerar no máximo da capacidade, e não “além do pico”. E são as hidrelétricas que estão reclamando que não podem gerar tudo o que normalmente gerariam por falta de água e por isso precisam comprar das térmicas a um preço maior do que vão entregar. Isso está arruinando financeiramente as empresas.
Todos os órgãos do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico deveriam deixar de lado os melindres e se juntar para apontar soluções para a mais grave crise que já surgiu desde o apagão. Isso é o que tem que mobilizar os esforços do setor.