A Energia Nuclear e as Novas Guerras Mundiais

Olga Simbalista (*)

A situação da energia nuclear no mundo, em particular no que se refere à geração de eletricidade, está passando por uma retomada, desde o início das duas recentes guerras: Rússia versus Ucrânia e EUA/Israel versus Irã.

A primeira delas teve como principais consequências econômicas e energéticas, por pressão americana, o bloqueio de ativos russos em bancos sob seu controle, a proibição de compras de gás natural e petróleo daquele país, por países europeus, bem como de outras comodities, excluído, entretanto, a de urânio enriquecido importado pelos EUA para suas 95 usinas nucleares em operação, já que este país, desde a abertura dos mercados mundiais para a compra deste insumo, deixou de fabricá-lo domesticamente, já que o mercado russo e do Cazaquistão  passaram a oferecê-lo muito mais barato e tendo como consequência o abandono de fontes domésticas e de operar qualquer das etapas do ciclo do combustível.

Os países europeus, grandes importadores de gás natural da Rússia, em particular a Alemanha com mais de 50%, desde o abandono de suas plantas nucleares, a partir de 2011, sofreram um forte impacto, com consequências em seus crescimentos econômicos, alta de preços e inflações.

A segunda guerra, deflagrada em fevereiro de 2026, poderia ter sido evitada, já que seus objetivos iniciais era de destruir a capacidade iraniana de enriquecer urânio, bem como de seus mísseis balísticos, objetivos que atendiam e ainda atendem às necessidades prementes de sobrevivência de Israel.

Instalações nucleares do Irã, antes do ataque de 2025

Assim, em setembro de 2025, a força aérea americana desferiu um ataque fulminante contra o Irã, utilizando caças capazes de destruir instalações a mais de dez metros de profundidade e, logo em seguida, declararam ter alcançado seus objetivos.

Caça americano utilizado no ataque ao Irã em 2025

Porém, uma semana após, Irã liberou fotos à mídia internacional, mostrando que suas instalações estavam inabaladas e a AIEA informou não haver detectado qualquer irradiação externa no Irã, eventualmente proveniente de suas instalações de enriquecimento.

Fotos dos depósitos de misseis iranianos após o ataque americano em 2025

Resposta do Irã aos ataques americanos: “Os EUA estão sentados em uma sala de vidro e não devem atirar pedras nos outros “. Também revelaram a existência de uma ala contendo cem metros, subterrânea, contendo mísseis e informando que existiriam várias outras. A AIEA não detectou qualquer vazamento de radiação, eventualmente proveniente das plantas de enriquecimento. O reator Busher 2, adquirido antes da Revolução Islâmica, pelo Xá Reza Pahlevi, na época  de  Angra 2 e Angra 3 e, em construção pelos russos,  foi paralisado, com a retirada dos construtores. .A Planta Busher 1 já se encontra em operação, com tecnologia russa.

Assim, a tentativa americana  não obteve efeito e foi retomada, em fevereiro de 2026, com os mesmos objetivos anteriores, mas contando então com a força militar de Israel. Esta segunda guerra trouxe consequências econômicas e energéticas ainda mais graves que os dois choques do petróleo dos anos de 1970, pois não se restringiu a preços, mas à oferta, devida ao fechamento, pelo Irã, do estreito de Ormuz, responsável pelo trânsito de 20% do petróleo mundial, com consequências para praticamente todos os países do mundo dependentes deste insumo.

Países com fontes próprias de energia, sentiram menos os impactos, porém descobriram, estrategicamente, que não deviam confiar demasiadamente em fontes externas. Uma resposta a esta percepção, foi a retomada de plantas nucleares, em diversos países, com os seguintes sinais promissores:

  • Nos EUA, sua frota de usinas em operação passou a ter suas vidas úteis estendidas para 80 anos. A Microsoft adquiriu a planta de Three Miles Island, desligada desde 1979, devido a um acidente, para reativá-la, devido à sua demanda proveniente da IA;
  • O Japão retoma seu programa nuclear, voltando suas plantas paralisadas desde FuKushima e iniciando a construção de novas;
  • A Comunidade Europeia anunciou o fornecimento de subsídios para impulsionar o segmento na região, conforme anúncio de sua presidente Úrdula Van der Leyem, que classificou como um grande equívoco estratégico a decisão do Bloco de colocar a energia nuclear em segundo plano;
  • As adesões de Brasil, China, Itália e Bélgica ao compromisso, agora de 38 nações, de triplicar a capacidade de geração nuclear até 2050.

 

Atualmente, existem 438 usinas em operação, com 401 GW de potência instalada, 80 em construção com 81,5 GW. Os EUA ainda são os maiores produtores, seguidos de França, China, Japão, Rússia, Corea do Sul Canadá, Índia e Espanha.

De acordo com o Grupo de Estudos de Cenários da AIEA, do qual fiz parte durante 11 anos, a capacidade de potência nuclear instalada até 2050 deve dobrar. No cenário de alta, seriam 992 GW e no de baixa 561 GW, no primeiro, com importante participação dos pequenos reatores modulares de até 300 MW, bem como renovações de licenças de operação, desligamentos e aumentos de potência.

No Brasil, o PNE 2055 elevou a participação de 8 GW para 14 GW, além de programas nas áreas de irradiação de alimentos, medicina nuclear, que necessita crescer seis vezes para atender à demanda reprimida do SUS. Foi editado Projeto de Lei do Renuclear e a Medida Provisória de retomada do setor. A Petrobras iniciou uma pesquisa sobre o uso da energia nuclear e a JBS adquiriu 36% das ações da Eletronuclear de propriedade da AXIA. As plantas atualmente em operação são Angra 1 de 640 MW e Angra 2 de 1350 MW, operadas pela Eletronuclear, cujos combustíveis são fornecidos pelas Indústrias Nucleares do Brasil – INB, que domina grande parte do ciclo do combustível nuclear, inclusive o enriquecimento isotópico por ultracentrifugação, desenvolvido autonomamente pela Marinha do Brasil.

Angra1, Angra2, em operação e construção de Angra 3

O terceiro reator, Angra 3 de 1405 MW, encontra-se em construção com cerca de 60% de obras concluídos, porém paralisado por aspectos financeiros e administrativos. Sua retomada depende de decisão do Conselho Nacional de Política Energética – CNPE, que a vem postergando sistematicamente, sem levar em consideração os seguintes aspectos:

  • Sua segurança para o sistema Elétrico Nacional, devido ao seu alto grau de confiabilidade, sendo que, sua irmã Angra 2 operou, em 2025, durante 365 dias sem qualquer desligamento;
  • A geração de energia para 4,5 milhões de habitantes;
  • Fortalecimento da matriz elétrica para fornecer fôlego às intermitências das eólicas e solares e reduzindo custos de transmissão e de operação no longo prazo;
  • Geração de uma energia limpa sem qualquer emissão de CO2;
  • Proximidade dos grandes centros de consumo, evitando congestionamentos em interligações do sistema de transmissão;
  • Estruturar econômica e financeiramente a cadeia produtiva do ciclo do combustível nuclear;
  • Geração de milhares de empregos, sendo 7.000 diretos de alta qualificação, e números muito maiores de indiretos, na macro região de Angra dos Reis, com enormes reflexos em sua economia;
  • Incorrer em custos muito elevados no caso de seu abandono, próximos aos de sua conclusão, devidos à desmobilização, ao vencimento de contratos, em particular os de financiamento;
  • Existência de estudo do BNDES indicando a competitividade da planta:
  • Possibilidade do fechamento das portas para novas plantas nucleares, sem levar em consideração os aspectos estratégicos para o país; e
  • A não utilização da infra estrutura da fábrica de componentes pesados, uma das maiores do mundo, NUCLEP.

 

O país continua investindo em tecnologia para outros objetivos, por meio da Comissão Nuclear de Energia Nuclear – CNEN e a Marinha do Brasil, por meio da Amazul, com cinco centros de pesquisas, com reatores de pesquisas, a construção de um Reator de Multipropósitos – RMP, em Aramar, por meio de uma cooperação com a Argentina, tendo o reator OPAL da Austrália, como referência.

Maquete do RMB em Aramar

O Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo – CTMSP, em Aramar, está concluindo a construção de um protótipo de reator do submarino nuclear Álvaro Alberto, com seu vaso de pressão já construído pela Nuclep, podendo tal reator vir a ser adaptado para plantas nucleares de pequenos portes a serem implantadas no Nordeste.

Protótipo do Submarino Nuclear Álvaro Alberto

Este centro domina, de forma autônoma, todas as etapas do ciclo do combustível, exceto a produção do concentrado de urânio que é feito em Caetité na Bahia, na mina de Santa Quitéria, pela INB.

Em março de 2025, a CNEN iniciou um projeto de três anos para demonstrar a viabilidade de um micro reator de 3 a 5 MW, para operar em regiões remotas ou municípios de pequenos consumos, operando por 10 anos sem troca de combustível, com a participação de empresas, institutos de pesquisas e a Amazul.

Atualmente o Brasil faz uso da energia nuclear e da radioatividade nos seguintes setores:

  • Tratamento de câncer com radioterapia;
  • Esterilização de materiais hospitalares;
  • Conservação de alimentos, mantendo-os frescos e seguros e eliminando desperdícios;
  • Análises de falhas em componentes metálicos;
  • Segurança na agricultura para deter aumento de pestes;
  • Uso de radioisótopos para identificar lençóis freáticos;
  • Análises por ativação de nêutrons para determinar evidências criminais; e
  • Uso de aceleradores de partículas para deteção de C14 e identificar datas de objetos históricos.

 

Mesmo o Brasil tendo um pequeno parque de geração nuclear, ele faz parte de um seleto grupo de três países, junto com EUA e Rússia, que dispõem de vastas reservas de urânio, tecnologia de enriquecimento de urânio e plantas para a produção de energia.

(*) Engenheira Eletricista e Nuclear, Membro da Academia Nacional de Engenharia, Vice Presidente do Clube de Engenharia do Brasil e Diretora do Instituto Ilumina

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