Roberto Pereira D’Araujo

- Quando uma sociedade perde a noção do coletivo, do público e do seu papel no seu futuro, ela vira uma presa fácil à interesses individuais.
- Isso nada tem a ver com “esquerda e direita”, esse dualismo atrasado que ainda toma conta do Brasil.
- O sintoma se agrava quando o país praticamente se declara incapaz de incluir o estado no interesse público. Uma pura contradição de termos.
- Tudo se passa como se o estado fosse um ser incontrolável. A única coisa a fazer é reduzir sua influência, mesmo que isso signifique vender empresas cujos ativos foram construídos pelo próprio esforço coletivo. Parece que ninguém percebe que a venda do que já existe acrescenta zero de expansão.
- Essa sociedade anestesiada não entende que as decisões contra o interesse público não foram tomadas pelo corpo técnico de empresas estatais. Vieram do seu controlador, o estado.
- Como as formas de controle, que existem e são aplicadas em outros países, nunca são sequer aventadas aqui, o estado contra o interesse público continua leve e solto fazendo o que as pressões exigem.
- Assim, perdemos o direito a ter transporte público bem administrado pelo estado como na França, Espanha, Estados Unidos e outros países desenvolvidos.
- Assim, perdemos o direito de ter o setor de energia bem gerido pelo estado, como na Noruega e Canadá, justamente os sistemas fisicamente semelhantes ao nosso.
- Assim, quando o setor privado assume uma concessão e ela não lhe dá o lucro esperado, o contrato é quebrado e o país não tem sequer uma estrutura para assumir, nem que seja de forma provisória!
- Assim, mesmo com a amostra de que, por trás da crise fiscal do governo e até das questões criminais, há representantes do setor privado, a sociedade só vê o estado malévolo. Sem ir ao centro do problema, apoia apenas o desmonte de empresas públicas. Elas são apenas as “ferramentas”. Jogar fora o martelo porque a mão que o comandava matou um ser humano, só vai impossibilitar bater um prego.
- Nesse festival de desinformação, o caso do setor elétrico brasileiro é o mais grave, porque usinas hidroelétricas duram cem anos ou mais! Outros serviços usam equipamentos que têm vidas úteis muito menores. Não se pode imaginar que um ônibus de 10 anos não tenha que ser substituído. Mas uma usina hidroelétrica e seu lago não precisam ser trocados. Portanto, nada mais natural de que uma sociedade, consciente do seu papel e de seus direitos, perceba que aquela usina é sua.
- Quando um governo, justamente esse tipo rejeitado pela sociedade, adota uma política de não enfrentamento de interesses privados, ele prefere deixar intacto erros e ganhos para usar justamente essas usinas e linhas estatais para tentar conter a explosão de preços, uma das informações oclusas desse tolo consumidor.
- Usinas e linhas antigas podem cobrar mais barato. Só não podem compensar erros e altos ganhos de outras áreas, como foi feito pela lei 12783/2013.
- Assim, vai sendo preparada a perda definitiva do esforço coletivo concentrado na Eletrobras, uma empresa fundada em 1962 e que multiplicou por 20 a capacidade do sistema. Quando era a empresa dominante, ao contrário do que se propala, a tarifa era a metade em valor real. Chega a ser inacreditável que a maioria de opiniões não perceba essa dimensão e se entregue como presa fácil.
- Agora, totalmente fragilizada por diversos governos, a empresa vê essa sociedade desinformada confundi-la com o estado, que, sem nenhum constrangimento, continuará a agir defendendo interesses privados e impondo custos cada vez maiores.
- Estamos prestes a assistir mais um desmonte do esforço coletivo do brasileiro.
O dia 11 de setembro marca 4 anos de aniversário da MP 579/2012. A fotografia está cada vez mais real.

3 respostas
Os constituintes de 1988 do não colocaram a proibição de venda desse nosso patrimonio porque achavam um absurdo alguém ousar tanto e ainda mais sendo um mandatario republicano. O Sr. Ulisses e Brizola ou Itamar preferem cintinuar mortos do que vivos o assistir tamanha ousadia! E esses propósitos desses mal brasileiros logo logo serão desmascarados dessa sanha privatista!
Roberto
Muito bem colocadas todas essas observações. Mas caberia acrescentar que isto não acontece por acaso. Na verdade, existem forças que estão anestesiando o nosso povo, iludindo-o com a repetição maciça de mentiras que acabam se tornando “verdades”, à moda da técnica utilizada pelo nazismo.
Sobre a discussão de empresas publicas no Brasil falta um aprofundamento. Os interesses para negócios voltados em rolar o dinheiro ou seja sai de uma mão para outra em um processo especulativo não traz benefícios para a sociedade como um todo e sim para o negociante. Mistura-se tudo ( quem sabe como estratégia) que Estatais tem a interferência dos governos e como é publico significa corrupção. Então nesse sentido escolas publicas, hospitais públicos, defesa militar, etc etc devem ser vendidos pois são públicos estão sujeitos a roubos por essa ideia torta. Ora e os Joesleys da vida ? Como entram nessa discussão ?
Pobre Brasil. Talvez vc tenha a vocação de ser a eterna Colônia de países mais desenvolvidos.
E agora vende-se tudo para os países desenvolvidos.
Vamos vender até o almoço para pagar o jantar. Avante Sucupira.