Alerta de monopólio


Os desafios da uma nova titã da energia (*)


David Gauthier-Villars e Leila Abboud, The Wall Street Journal


A nova energética francesa GDF Suez é a maior empresa de serviços públicos do mundo em receita, maior compradora de gás natural da Europa e uma importante operadora de energia nuclear. Criada pela fusão da estatal Gaz de France com a Suez SA, rival de eletricidade e gás natural, a GDF Suez é também evidência da postura ativista do governo francês em modelar empresas nacionais.


Gérard Mestrallet, um veterano executivo da Suez, chefia o novo grupo. Ele tem de unificar uma companhia que tem receita anual de 74 bilhões de euros (US$117 bilhões) e quase 200.000 empregados, com operações por todo o mundo. No Brasil, ela controla a Tractebel Energia SA, que opera 16 usinas hidrelétricas e termelétricas e afirma ter o maior parque gerador privado do país.


A GDF Suez está no meio de alguns dos mais urgentes desafios energéticos e ambientais do mundo: a alta do petróleo, o aquecimento global e o uso pela Rússia da exportação de combustíveis como ferramenta de influencia política.


Mestrallet, de 59 anos, é formado em engenharia e ávido cavaleiro com uma queda por cervejas belgas. É também um sobrevivente. Há cinco anos, Mestrallet tirou a Suez de um endividamento problemático e, ano passado, quando a proposta fusão parecia ir por água abaixo, orquestrou acordos com sindicatos, políticos e acionistas em conflito, garantindo que a negociação fosse adiante.



Trechos de uma entrevista de Mestrallet:


WSJ: O governo orquestrou a fusão que criou a GDF Suez para assegurar que a França tenha suprimento de gás natural para aquecer domicílios e fornecer energia a indústrias. Mas sua empresa tem poucas reservas próprias de gás natural, e em vez disso compra de terceiros. Como garantir que o gás continuará chegando à Europa?


Mestrallet: A garantia do suprimento não depende do gás que você possui. Ela vem de ter uma série de contratos de longo prazo com diversos fornecedores de gás. A GDF Suez terá o portfólio de fontes de gás natural mais diversificado do mercado. Nosso gás vem da Noruega, Holanda, Argélia, Qatar, Rússia, Egito, Líbia, Iêmen, Nigéria e Trinidade e Tobago. Com o Iêmen, por exemplo, assinamos um contrato para comprar um terço da produção de gás natural líquido de uma jazida por 20 anos. Não precisamos ser donos do poço em si.


WSJ: Mas a GDF Suez ainda depende muito do gás que vem da Rússia. Em 2006, a gigante estatal russa Gazprom cortou o fornecimento para a Ucrânia por um curto período durante o inverno, o que gerou pânico nos mercados europeus. Como o sr. lida com essa relação delicada com a Rússia?


Mestrallet: Consideramos a Gazprom como um parceiro muito confiável, não é uma relação delicada. É bom observar que durante a crise de 2006 França e Bélgica foram os dois únicos países da Europa onde não houve escassez. Isso aconteceu porque na França temos uma capacidade de armazenagem subterrânea de gás muito grande. O armazém estava cheio no começo da crise e vazio no final.


WSJ: Os consumidores estão preocupados com os aumentos nas contas de luz. Na Europa, vimos protestos de pescadores e caminhoneiros contra as petrolíferas. O sr. tem medo de uma revolta maior contra as empresas de energia?


Mestrallet: Os preços do gás natural estão ligados ao preço do petróleo em todo o mundo. Quando o preço do gás natural é alto, é claro que os consumidores não estarão satisfeitos. Mas seria pior e mais difícil explicar para eles se não pudéssemos fornecer gás durante o inverno. Nossa responsabilidade mais importante é a de evitar cortes no fornecimento.


WSJ: O sr. teme que as empresas de energia sejam vistas hoje como as “malvadas” do mundo corporativo – como as de cigarro foram na década passada?


Mestrallet: Acho que temos que passar às pessoas um sentimento mais positivo a respeito das empresas de energia. Se a energia só for vista pela lente do aumento dos preços, isso vai criar problemas. Criamos na GDF Suez uma divisão dedicada à eficiência energética. Recentemente, redesenhamos os processos internos de manufatura em uma fábrica de caminhões da Volvo na Bélgica para ajudar a conservar energia.


WSJ: A Europa é líder na luta contra o aquecimento global, e no entanto as emissões de gases ainda aumentam 1% por ano. O que deu errado?


Mestrallet: Tem sido corajoso e arriscado para a Europa fazer compromissos unilaterais para reduzir as emissões. Mas agora os outros têm que nos seguir. E os Estados Unidos têm uma responsabilidade especial. Como você pode exigir que China, Índia e outros países reduzam suas emissões de dióxido de carbono – o que significaria a curto prazo reduzir o crescimento e diminuir o ritmo com que estão eliminando a pobreza – se o país mais rico do mundo não faz nada?


WSJ: O sr. acha que as empresas européias foram afetadas pela tentativa da região de controlar a emissão de gases de efeito estufa?


Mestrallet: Há risco de que elas sejam afetadas. Tem de haver regras globais para o jogo. Se apenas uma região fizer todo o esforço enquanto o resto do mundo continua emitindo carbono, a indústria européia ficará em grande desvantagem.


WSJ: A GDF Suez propôs construir e operar duas usinas nucleares nos Emirados Árabes Unidos. Como o sr. pretende lidar com os riscos da energia nuclear em regiões voláteis?


Mestrallet: Os Emirados Árabes têm o ambiente político muito estável e as estruturas legais e regulatórias necessárias.


WSJ: Mas como vocês ajudarão os Emirados Árabes e outros iniciantes nucleares a desenvolver uma cultura de segurança nuclear?


Mestrallet: O Estado francês prometeu ajudar estes países a criar as agências de controle e segurança necessárias. Os franceses estão dispostos a transferir seus conhecimentos em procedimentos legais e regulatórios assinando acordos bilaterais para desenvolver programas nucleares civis.


WSJ: O Estado francês tem uma participação de 36% na sua empresa. Quem de fato dirige a GDF Suez, o sr. ou o presidente Nicolas Sarkozy?


Mestrallet: Mais de 99% dos acionistas votaram a favor da fusão. Então, acho que os convencemos de que a presença do Estado não impedirá a GDF Suez de crescer dando lucro.


(*)publicado no jornal Valor, em 21/7/08


Comentário


Nossa preocupação: caso haja uma nova tentativa do governo paulista (PSDB) de vender a CESP corre-se o risco dese configurar um forte monopólio que controlará todo o sistema elétrico brasileiro. A Tractbel, uma das fortes concorrentes, pertence ao grupo GDF Suez.


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