O artigo é do ano passado. Quem recordou o assunto foi o Facebook onde o ILUMINA vem divulgando suas apreensões. Continua tudo igual. Isso mostra que os grandes problemas brasileiros deixaram de ser as suas mazelas. O nosso grande problema é a baixa reação da sociedade.

O ano de 2015 é um desses períodos que gostaríamos de apagar da nossa história. Aumento de inflação atingindo dois dígitos, aumento dos juros, queda do produto interno bruto, desvalorização cambial, aumento de desemprego, escalada da violência, malabarismos fiscais, rebaixamento em agências de risco, saúde em situação calamitosa, incêndios, morte de um rio, epidemia de dengue e outras doenças, microcefalia, presidentes dos poderes executivo e legislativo sob suspeita, corrupção generalizada e, perdido nesse cenário de calamidades, um transtorno nunca visto no setor elétrico brasileiro.
É inevitável pedir aos leitores que esqueçam por um momento todas essas mazelas e se concentrem para entender a razão do título do artigo. Não que a lista acima já não reforce a sensação de tolice, já que parecemos desconhecer o que nos afeta em todos os setores, mas o caso da nossa energia elétrica é alguma coisa fora do padrão.
Será que nossa tolice nos impediu de perceber que o Brasil é um país privilegiado? Não sabemos que a maioria da eletricidade produzida no planeta vem da transformação de energia cinética (movimento) através das leis do eletromagnetismo, uma teoria do século 19 graças a James Clerk Maxwell? Desconhecemos estar lidando de uma teoria física e tecnologia de séculos passados? Será que pensamos haver mistérios técnicos nessa atividade?
O Brasil é um país continental, líder absoluto de recursos hídricos e tem rios classificados como “de planalto”, o que proporciona uma série de desníveis passíveis de abrigar turbinas que fazem um belo serviço na produção de energia pelas leis do eletromagnetismo.
Os nossos números do potencial de energia fotoelétrica são impressionantes. Se tivéssemos o baixo índice da Alemanha (1.000 kWh/m2/ano), bastariam cerca de 5% do território brasileiro para produzir toda a energia que consumimos em um ano. Com toda essa regalia, o Brasil não produz quase nada dos materiais para transformar energia solar em kWh. Como se não bastasse, ainda cria dificuldades para que os milhões de telhados desse imenso país ensolarado ajudem a diminuir a responsabilidade do sistema interligado.
Os ventos, principalmente os da região nordeste são moderados e constantes, situação ideal para a produção de energia eólica. Só recentemente o Brasil acordou para essa fonte de energia. Enquanto a China já ultrapassou 100 GW de eólicas, o Brasil tem apenas 8 GW. Aqui, a substituição da energia gerada por hidroelétricas pelo kWh das eólicas gera um aumento da água guardada nos reservatórios de grande porte, o que produz um efeito sistêmico inexistente em qualquer outro país. Esse é o tal do “vento estocado” que uma certa pessoa não entende ou não soube explicar. Mesmo com toda essa evidência, o tolo Brasil continua sem reconhecer esse efeito nas análises de viabilidade.
Estamos vivendo um período de radicalização da política através dos dois partidos que se acusam mutuamente. Polos opostos conseguem ver princípios de “esquerda” e “direita” num conjunto de tolas decisões. Com um pouco de paciência e muita boa vontade até se pode reconhecer distinções, mas o caso do setor elétrico não se enquadra na diferenciação. O atual grupo no poder implantou exatamente o que foi imaginado pelo grupo que o precedeu, apesar de continuar a ser o alvo de suas críticas. Será que nossa tolice é tão grande que não percebemos?
Depois de um racionamento de proporções inéditas por não decorrer de guerras ou desastres naturais, o atual grupo político, sempre se autoproclamando o contrário do seu adversário, implanta exatamente o mesmo sistema pre-racionamento.
Sob condições físicas distintas dos países que o implantaram, aqui a mercantilização da energia exigiu um verdadeiro arsenal de frágeis grandezas virtuais. Adotado o sistema, até conceitos sagrados perderam o respeito que tinham. A “garantia” não é exatamente garantida, o “físico” pode não ser real e “preço” não é mais o que alguém paga a outro por um bem ou serviço.
Desde que foi implantado em 1995, o sistema causou aumento de tarifas. Em 2003, o preço do kWh residencial médio já havia subido 70% acima da inflação. A indústria sofria com um kWh 42% mais caro em valores reais. Iniciado o governo que se dizia “oposição”, o estrago se manteve. Em 2010 o kWh residencial melhora, mas mantêm sua distância da inflação para 55% e o industrial explode para impressionantes 116%. Os tolos brasileiros esquecem que a tarifa de energia elétrica é ingrediente importante da própria inflação.
Entretanto, também são tolos os que acreditam que todos sofriam com preços altos. Como planejado em 1995, o mercado livre, repleto de complexidades e virtualidades era implantado e registrou preços inimagináveis. Enquanto do lado de fora 1 MWh custava R$ 120, no “mercado” era possível “liquida-lo” por R$ 4. Quem pode se beneficiar dessa verdadeira Bolsa MW? Segredo estratégico.
O que não é segredo é que quem patrocinava a festa do mercado era a Eletrobras, que tendo seus contratos cancelados, continuava sendo obrigada a gerar energia como se os tivesse vigentes. Em certos casos gerava a R$ 4 e comprava a R$ 150. No Brasil, isso não causa nenhum problema. Já se passou uma década e continuamos com o mesmo sistema. Brasil país de todos ou de tolos?
A festa da misteriosa energia quase gratuita deu certo por algum tempo. De menos de uma dezena de “convidados”, em pouco tempo os participantes já ultrapassavam os milhares. Claro que há contratos reais e nem todos estão na “orgia” de preços baixos, mas basta dar uma olhada em alguns números para se perceber que a festa continuou animada por muito tempo. Por exemplo, em 2011, véspera da atual crise, 28% da energia transacionada no mercado foi liquidada em contratos mensais cujos preços chegaram a irrisórios R$ 12/MWh. É uma proporção muito alta para se achar que se deve apenas à troca de cara geração térmica por hídrica.
O que poderia se esperar de um sistema que acha normal ter um mercado com preços muito mais baixos do que qualquer exemplo do mundo real? A festa acaba, e a partir de 2012 o país de tolos pode se orgulhar de ter um mercado que registra variações de preço de 7.000 %. Diria o Barão de Itararé: “De onde menos se espera, daí mesmo é que não sai nada”.
Enganou-se o Barão! O sistema era mercantil? Sim! As tarifas refletiam preços? Sim! O sistema de serviço pelo custo tinha sido abandonado? Sim! Mas, como os preços continuavam a subir do lado de fora e agora do lado de dentro da festa, não é que tiraram um coelho da cartola para o espanto do Barão?
De repente, animado com uma “banda” da FIESP, o governo do país de tolos foi na lorota de que as tarifas eram caras por conta dos preços das usinas “velhas”. Numa penada decretou-se que as usinas antigas só poderiam cobrar os custos de operação e manutenção. Sem esperar o fim do período de concessões, mais uma vez a Eletrobras foi chamada para bancar a artificialidade. Como 20% das usinas eram “velhas” e antes da explosão tarifária a parcela da energia numa conta média girava no entorno de 30%, mesmo se essa energia fosse gratuita e totalmente advinda de hidroelétricas, a redução máxima não passaria de 6%. Mas quem faz contas num país de tolos?
A Eletrobras aceitou as condições madrastas e hoje vale 30% do que valia antes, não tem recursos para investir e ainda joga o risco de não ter água para gerar a sua “garantia” para o pobre consumidor que nada tem a ver com a gestão dos reservatórios. O país de tolos acredita que uma reserva equivalente a 6 meses de consumo não é capaz de reduzir o risco de secas moderadas.
A história recente é mais do mesmo: mais aumentos tarifários, mais incertezas e mais acusações a São Pedro. Com todas as tarifas irrisórias da Eletrobras, a tarifa industrial elevou-se 137% acima da inflação desde 1995. A residencial, 57% de aumento real. Diversos custos não quitados aguardam como esqueletos dentro do armário.
Para terminar, nem o conceito de velhice das hidroelétricas escapa. Se são da Eletrobras, passam a ser “do povo” e não geram mais nenhum real para investimentos. Se não são da Eletrobras são requisitadas para o exército do superávit primário e cobram do consumidor como se fossem novas. Mais uma vez, tudo é possível no país de tolos, inclusive o Ilumina com sua tolice de querer mostrar o que ninguém quer ver.
Feli$$$ Ano Novo
2 respostas
Qual o problema do modelo de livre mercado? Não deveria ter sido aplicado aqui? Ou então qual foi o maior problema quando aplicado aqui.
Obrigado! Parabéns pelo trabalho!
O problema do nosso livre mercado é que as usinas não comercializam a sua geração como nos sistema de base térmica. Os MWh vendidos são estimativas de parcelas da produção total do sistema. Modelo matemático altamente arriscado e convidativo à especulação, pois os valores oscilam em proporções inéditas em mercados de energia.