China e Coréia do Sul: Estratégias em Políticas Energéticas

Renato Queiroz (*)

Na conjuntura atual, a produção de energia ganhou novos contornos após o choque do petróleo, proveniente da guerra entre Irã e Estados Unidos/Israel e que levou ao fechamento do Estreito de Ormuz. Há especialistas que afirmam que a transição já deixou de ser apenas climática para ser um caso de segurança energética. Afinal a guerra entre os EUA/Israel e o Irã escancarou a vulnerabilidade global atrelada aos combustíveis fósseis. Essa dinâmica forçou alguns governos a submeterem a transição energética à segurança energética.

Quando estudamos as estratégias em políticas nos países que alcançaram em pouco tempo um grande desenvolvimento econômico, o que chama a atenção é a decisão em colocar o Estado na condução das ações.  Isso porque em um contexto geopolítico mundial e tecnológico, com mudanças rápidas, a ação forte do Estado tem sido determinante.

Países como China e Coréia do Sul tiveram um desenvolvimento extraordinário nos últimos anos.  Estabeleceram planos políticos estratégicos a longo prazo, que guiaram as ações governamentais, visando garantir segurança, riqueza e influência no mundo. Roteiros que buscaram e buscam fazer negócios globais, cuidar do meio ambiente e garantir a melhoria do bem-estar do povo. Para tal foram criadas verdadeiras rotas estratégicas com forte intervenção estatal, provendo incentivos à pesquisa cientifica, formação educacional de qualidade. Aplicam valores significativos em formação de mão de obra técnica, de engenheiros, de técnicos especializados sobretudo de cientistas. E, ao invés de uma predominância de livre mercado, usam o Estado como o protagonista do planejamento estratégico. O Estado atuando como planejador e financiador, subsidiando setores estratégicos.

Vale observar, por exemplo, as diferenças de estratégias no campo da energia entre esses 2 países, China e a Coreia do Sul.  O PIB chinês em 1980 (início das reformas econômicas), girava em torno de US$ 300 bilhões. Em 2000, subiu para US$ 1,2 trilhão e, duas décadas depois, saltou para cerca de US$ 15 a 17 trilhões, consolidando-se como a segunda maior economia do mundo ou, talvez a maior, se ajustada pela Paridade de Poder de Compra – PPC. O país manteve uma taxa média de crescimento de quase 10% ao ano por mais de três décadas.

 A Coreia do Sul tinha um PIB nominal de aproximadamente US$ 4 bilhões na década de 1960. O país registrou taxas médias de expansão superiores a 8% ao ano até o final dos anos 1990. Atualmente, o PIB sul-coreano estabilizou-se na faixa de US$ 1,8 a 2 trilhões, figurando entre as 15 maiores potências econômicas do planeta.  A Coreia do Sul passou de uma das nações mais pobres do mundo no pós-Guerra para uma economia de alta renda.

Os dados macroeconômicos sobre o crescimento exponencial do PIB da China e da Coreia do Sul são padronizados e consolidados pelas principais instituições econômicas globais e pelos órgãos oficiais de estatística de cada país como:  Banco Mundial (World Bank Open Data) que é uma  fonte primária para séries históricas de longo prazo (de 1960 até o presente); Fundo Monetário Internacional (FMI): através da base de dados do World Economic Outlook (WEO); Organização das Nações Unidas (ONU)/ Divisão de Estatísticas. As instituições internacionais mencionadas acima auditam, padronizam e coletam as informações enviadas diretamente pelos órgãos oficiais de cada país.

Enquanto a China buscou a autossuficiência, explorando seus vastos recursos e dominando a cadeia global de tecnologia limpa, a Coreia do Sul focou na segurança energética considerando a situação em ser dependente criticamente da importação de combustíveis.

A China articulou uma estratégia nacional, inserida regional e globalmente, com atuação de fortes empresas estatais, levando o País a um modernismo impressionante. As políticas macroeconômicas, industrial, comercial, de ciência e tecnologia e de defesa estiveram a serviço da “grande estratégia” social e nacional, de uma posição internacional autônoma e proeminente. A China estabeleceu seu crescimento sob uma estratégia bem definida, visando a sua segurança energética. Neste contexto, fica bem evidente que a China veio “navegando” no ambiente globalizado com uma ação agressiva de atuação das suas empresas estatais na busca de se tornarem cada vez mais globais, com fortes investimentos, inclusive, no exterior. Sob um planejamento determinativo do governo central através de suas grandes empresas estatais, o país investiu simultaneamente em megaprojetos hidrelétricos, parques solares, e em plantas eólicas (com megaprojetos no deserto, planta offshore gigante), usinas nucleares.

O planejamento energético da China é fortemente baseado em um Estado centralizador. O governo central define metas nacionais de energia para ciclos de cinco anos. O 15º Plano Quinquenal da China (2026-2030) estabelece diretrizes para transformar o país em uma potência tecnológica autossuficiente e modernizar sua economia. O documento foca na segurança energética e alimentar, em inteligência artificial, computação quântica e robótica, avanços na transição verde e no desenvolvimento de novas forças produtivas de qualidade para impulsionar o crescimento.

O controle da energia na China está nas mãos do Estado.  A State Grid Corporation domina a distribuição de eletricidade no país, enquanto outras grandes estatais gerenciam a geração de energia e minerais críticos. O Estado busca diminuir a dependência do carvão (que ainda é a maior fonte da matriz) e avançar em energias renováveis para garantir a segurança do país. Os investimentos estatais sustentam grande parte desse crescimento.

A Coreia do Sul, no entanto, teve que montar sua estratégia considerando uma condição de vulnerabilidade da dependência de importação de combustíveis fósseis. O país considera a energia nuclear como sua fonte doméstica de base mais confiável para evitar choques de preços internacionais. No enfrentamento aos choques de curto prazo — como guerras ou crises logísticas globais — o governo atua diretamente no mercado com medidas de amortecimento. Determina, por exemplo, ações rápidas, como o acionamento de limites de preços e a liberação de reservas estratégicas para conter a inflação industrial. O país promove o desenvolvimento de sistemas avançados de armazenamento de energia e incentiva a descentralização de energia, com o crescimento de comunidades geradoras de energia solar.

Há, na Coreia do Sul, um plano chamado de “Green Great Transformation Strategy” (integrado a um plano de longo prazo, Green New Deal) que é executado por meio de uma parceria público-privada direta. O objetivo central do plano é reestruturar a matriz do país para alcançar a neutralidade de carbono até 2050 e triplicar a sua capacidade de energia renovável até 2030. O “Green Great Transformation Strategy” tem três eixos ou horizontes direcionais estratégicos:

i) Novo Motor de Crescimento GX (New Growth Engine GX) – Trata da reindustrialização verde e da competitividade econômica futura. O foco é transformar a transição energética em uma oportunidade de mercado. ii) GX para Todos os Cidadãos (GX for All Citizens) – Foca na justiça social, na cooperação empresarial e no desenvolvimento territorial equilibrado. Ele visa impedir que a transição verde aumente a desigualdade entre as regiões ou massacre pequenas empresas. iii) GX Sustentável (Sustainable GX) – Garante a viabilidade econômica de longo prazo da transformação através de mecanismos de financiamento robustos. O governo reconhece que o Estado não pode pagar tudo sozinho, sendo necessário atrair o capital privado de forma contínua.

Na Coreia do Sul, o Estado é absolutamente determinante para a segurança energética; o mercado não é livre. Embora existam empresas privadas atuando em etapas específicas, o setor de energia é fortemente planejado, regulado e operado por corporações sob controle estatal. O país tem como estratégia energética a centralização em empresas estatais que controlam o monopólio da transmissão, distribuição e geração de eletricidade no país. A espinha dorsal do sistema elétrico do país é a KEPCO (Korea Electric Power Corporation), uma empresa de capital misto. Mas o governo sul-coreano detém o controle majoritário direto e indireto de 51% das ações (via governo e o banco estatal Korea Development Bank). A KEPCO, por exemplo, controla mais de 90% do mercado de energia. Empresas privadas entram apenas como produtoras independentes que obrigatoriamente vendem sua energia para a rede da KEPCO.

O governo coreano utiliza o controle estatal sobre as tarifas para manter o custo da eletricidade artificialmente baixo para os grandes conglomerados privados, como Samsung, Hyundai e TSMC, o que garante a competitividade global dessas indústrias. Toda a energia nuclear e a maior parte das usinas termoelétricas a carvão e gás na Coreia do Sul são de propriedade estatal. O governo estuda inclusive fundir novamente as concessionárias estatais de energia térmica em uma única entidade para centralizar as decisões de compras globais de carvão e combustíveis. O mercado privado não tem a liberdade, por exemplo, de quando e onde construir usinas. É o Ministério da Indústria, Comércio e Energia (MOTIE) que publica os chamados Planos Básicos de Oferta e Demanda de Energia (BPLE).

Cabe uma pergunta: A China e a Coreia do Sul seguiram o Consenso de Washington que foi um conjunto de recomendações econômicas para a promoção do crescimento dos países da América Latina? O Consenso de Washington, para quem não conhece, foi baseado nos ideais do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.  

A China e a Coreia do Sul não seguiram as regras do Consenso de Washington. Em vez de adotarem a receita neoliberal de privatizações em massa, desregulamentação radical e abertura comercial, ambos os países enriqueceram utilizando uma forte intervenção e planejamento do Estado na economia. A China inclusive criou o que especialistas chamam de “Consenso de Pequim” cujas principais frentes incluem o controle estatal estratégico. O governo mantém o monopólio e o controle de setores cruciais, como energia, finanças e telecomunicações, por meio das estatais. O Estado financiou diretamente o crescimento de gigantes de tecnologia e infraestrutura nacional.

A Coreia do Sul, por sua vez, desenvolveu seu planejamento estratégico ignorando as recomendações de um mercado totalmente livre. O governo protegeu a indústria nacional contra a concorrência estrangeira até que as empresas locais fossem fortes o suficiente para competir globalmente. O país abriu seus mercados e flexibilizou regras   financeiras, de uma   forma gradual mantendo o foco em educação e inovação tecnológica controlada.

Mas é importante ressaltar nessa breve comparação que a estratégia de Pequim se baseou sempre em segurança absoluta e soberania enquanto a Coreia do Sul enfrentou idas e vindas políticas. Por exemplo, o governo de Moon Jae-in (2017–2022) decretou o fim gradual da energia nuclear. O seu sucessor, Yoon Suk-yeol, revogou a medida e reativou o setor. Em 2026, o presidente Lee Jae-myung manteve a expansão nuclear, tentando recuperar o tempo perdido após anos de paralisia regulatória. E ainda apesar de ter se comprometido na COP30 a fechar usinas de carvão até 2040, o país manteve sua matriz elétrica altamente dependente de fósseis (perto de 60%).

Quando a guerra contra o Irã bloqueou o Estreito de Ormuz em 2026, a Coreia do Sul sofreu um forte choque logístico e inflacionário, dependendo de reservas emergenciais por não ter infraestrutura renovável doméstica suficiente instalada. Diferente da China, a Coreia do Sul funciona como uma “ilha energética”. Ela não possui gasodutos ou oleodutos terrestres que cruzem suas fronteiras para receber recursos da Rússia ou da Ásia Central. A Coreia do Sul entrou em 2026 importando cerca de 60% de sua energia de fontes fósseis. Sem alternativas internas robustas, o bloqueio logístico estrangulou o abastecimento industrial de imediato. Vale assinalar que a crise de 2026 forçou a Coreia do Sul a implementar um dos planos de racionamento industrial mais severos de sua história moderna. O foco do racionamento sul-coreano não foi o consumidor residencial. A estratégia também dos coreanos foi redesenhar suas alianças geopolíticas por meio de uma nova arquitetura de cooperação energética com o Japão e os Estados Unidos.

A guerra EUA/Israel e Irã, no entanto, afetou também a China. Entre 40% e 50% das importações chinesas de petróleo bruto dependiam diretamente de Ormuz. Com o bloqueio, as importações marítimas China despencaram. Outra grave consequência   imediata não foi a falta de combustível para carros (já mitigada pela eletrificação), mas a escassez de Nafta, um derivado do petróleo crucial para o polo petroquímico e de plásticos chinês. O governo chinês visando proteger seu mercado interno e sem esgotar as reservas estratégicas, proibiu a exportação de produtos petrolíferos refinados (como diesel e gasolina) para o resto do mundo. Apesar da gravidade, a China demonstrou ser o país industrializado mais bem preparado para resistir ao fechamento de Ormuz.

Em uma breve análise observa-se que o modelo de Estado forte e centralizador trouxe resultados diferentes para os dois países, aqui citados, diante da crise global de 2026. Os Planos Quinquenais da China são o coração de seu modelo de Estado centralizador e a principal razão pela qual o país consegue manter uma consistência firme no setor energético. O planejamento centralizado determinativo blindou a China.

Na Coreia do Sul, o mesmo modelo focado no controle político gerou vulnerabilidades.  A KEPCO (Korea Electric Power Corporation), por exemplo, está altamente endividada, com uma dívida superando a 200 trilhões de wons (cerca de US$ 150 bilhões). A companhia paga valores altíssimos em juros. A empresa estatal de energia elétrica sul-coreana é controlada pelo governo. Não está submetida a uma política de Estado. Isso significa que a matriz energética do país pode mudar radicalmente a cada eleição presidencial. Para lidar com essa situação, o governo e a KEPCO continuam implementando um plano de recuperação que inclui a venda de propriedades, cortes de custos internos e reestruturação de ativos no exterior.

(*) Engenheiro e Diretor do Ilumina

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