Cresce risco de falta de energia nas regiões Sudeste e Centro-Oeste- O ESTADO DE S. PAULO

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,cresce-risco-de-falta-de-energia-nas-regioes-sudeste-e-centro-oeste,1629650

A reportagem do link relata que o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) aumentou de 4,9% para 7,3% o risco de desabastecimento de eletricidade na região Sudeste/Centro-Oeste neste ano.

Há dois dias, o ILUMINA fez uma conta de padaria que chegou a causar um impacto na imprensa pela interpretação que foi dada. A conta foi simplesmente dividir a energia armazenada no mês de dezembro de 2014 pela carga do mesmo mês. Essa simples conta mostra que o que temos armazenado é aproximadamente equivalente ao nosso consumo mensal.

É preciso entender que esse índice é como um quadro de um filme que está passando. O sentido dramático só pode ser atribuído a quem entende que daqui a 30 dias teremos um racionamento. Não é verdade. Apesar de chover pouco, os rios não secaram e, se conseguirmos usar menos água do que o volume que chega, esse preocupante índice pode melhorar.

O único problema é que, mesmo sendo corretamente entendida, a conta “não bate” com o risco divulgado pelo governo. Quem acredita que, com uma poupança energética de apenas 1 mês, sabendo que as térmicas num esforço supremo só podem atender 30% da carga, o risco seja tão baixo?

Ora, o setor usa um modelo computacional que faz praticamente tudo e só está disponível para “agentes do mercado”. Como essa notícia vem desacompanhada de explicações, não dá para saber qual a razão para tanto otimismo.

Não dá para saber, mas dá para desconfiar. A suspeita principal é a simulação com dados históricos. Se essa conta foi feita com as séries de 83 anos de afluências dos rios, é bem possível que ai esteja o “mundo cor de rosa”.

O ano de 2014 foi um dos mais secos do histórico e, outra vez, uma conta de padaria mostra uma realidade incômoda para o baixo índice. É sabido que os meses Novembro – Abril são os meses “úmidos” e os meses “Maio – Outubro” compõem o período “seco”.

Será que quando ocorre um período úmido abaixo da média, como o atual, o período seco também não é abaixo da média? A resposta, infelizmente é: Em 70% dos anos, quando o período úmido fica abaixo da média, o período seco também fica.

Portanto, se a simulação com todas as séries não levarem esse viés natural em conta, o índice de risco está impregnado de otimismo.

A área vermelha é a que estamos agora, mostrando o número de vezes que um período úmido abaixo da média resultou num período seco também abaixo da média. A área azul é quando o período úmido fica abaixo da média e o seco fica acima. Dá para perceber que a área vermelha é mais “populosa” que a azul.

Este pode ser o viés otimista do Comitê.

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7 respostas

  1. Vivemos um período muito complicado do ponto de vista político. Vejo com muita clareza que as principais decisões governamentais passam ao largo de qualquer parecer técnico, minimamente fundamentado. Há poucos dias um certo ministro, num lampejo único, afirmou com toda a segurança: “Os técnicos detém o saber, mas a sabedoria só os políticos tem”. Não há concursos públicos para engenheiros em qualquer esfera governamental, federal, estadual ou municipal, assim as decisões são tomadas, quase que integralmente, por políticos travestidos de técnicos. Na minha modesta análise, já caminhamos mais da metade do caminho para um colapso total no fornecimento de energia elétrica ainda esse ano, não vislumbro que um racionamento que fosse implantado agora seria capaz de evitar tal colapso. Em junho de 2001, quando foi implantado o racionamento no governo FHC, a reserva de energia era suficiente para dois meses, e chegou no momento mais crítico a ter apenas um mês de reserva. Os marqueteiros de plantão conseguiram transformar uma medida tomada com coragem e competência, a apenas um ano da eleição, em uma derrota do governo. O racionamento de 2001 virou, então, apagão, que de fato não existiu pois foi evitado. Passamos o ano de 2014 com a mesma reserva de energia (2 meses) e o Governo não teve a coragem nem competência para implantar o racionamento, ganhou a eleição, mas está prestes a causar um desastre sem precedentes na vida dos brasileiros. As autoridades pecam, o racionamento deve ser implantado, sempre, para restabelecer, um estoque que dê segurança ao sistema e não quando o risco do colapso é iminente. A Economia de um País, assim como seus cidadãos, não pode viver no fio da navalha, como está vivendo, graças a total incompetência das autoridades que governam este País.

  2. Concordo com as suas observações e as do Professor Feijó e lembramos que o modelo foi elaborado para estabelecer o cronograma de obras do quinto ao décimo ano do horizonte de expansão, e no horizonte da operação eventuais ajustes do referido cronograma e definição de intercâmbio entre regiões.

    A utilização da expansão ao risco de déficit ocorreu em virtude da redução da disponibilidade recursos para investimentos no setor elétrico, e a escolha de 5% foi decisão de governo na época, conforme foi comunicado em reunião do GCPS (Grupo Coordenador do Planejamento de Sistemas).

    Salientamos que o risco de déficit está associado não somente a geração de séries sintéticas a partir do histórico de vazões, mas também a previsão de carga, ao cronograma de obras e principalmente ao modelo matemático utilizado que neste caso já teve várias versões/atualizações.

    Considerando que já decorreu 2/3 do período úmido que para as regiões Sudeste, Centro–Oeste, Norte e Nordeste, se estendem do final de setembro a meados de abril, e que para atender a demanda toda a disponibilidade factível está sendo usada, não há que se falar em risco de déficit e sim da profundidade do déficit e do mínimo corte de carga, a menos que haja uma redução significativa da mesma em virtude do quadro econômico.

    Entendo que a definição da operação do primeiro ano deve ser feita a partir avaliações energéticas utilizando-se modelo determinístico, previsão de vazão obtida a partir do histórico, cronograma de obras atualizado, previsão de carga que contemple a situação econômica, e as características especificas de cada bacia hidrográfica.

    Uma coisa é certa São Pedro é o menos culpado dessa situação, visto que a disponibilidade térmica de hoje, é praticamente a mesma de dois anos atrás e a interligação entre regiões não tão diferente da do período mencionado anteriormente.

    1. José Carlos;

      O ONS já colocou os valores de Janeiro. A relação reserva/carga já é apenas 26 dias. Já cansei de escrever artigos em jornais de grande circulação perguntado como de 2004 até setembro de 2012, as térmicas só respondiam em média a 9% da carga sabendo que a relação reserva.carga estava se reduzindo. Se o modelo que gera o cmo não é sensível a essa mudança estrutural, então estamos perdidos.

  3. Roberto
    fiquei com a mesma sensação que você; será que os modelos que indicam esses 7,9% não consideram as tendências apontadas pelas afluências passadas dos últimos meses? não é possível que estejam tratando as afluências futuras como eventos independentes. Está difícil entender e me assusta.

    1. Considerando a enorme probabilidade desse atual ano hidrológico ser muito abaixo da média pode-se deduzir que o risco de faltar energia elétrica é maior que 30%. Nunca seria inferior a 10% com essa tendencia baixa e os atuais muito baixos níveis dos reservatórios.

  4. Roberto
    Além das observações pertinentes feitas por você neste seu Comentário, seria conveniente de uma vez por toda se acrescentar que, como nós sabemos, esta técnica de se medir risco de racionamento através de percentagens obtidas por meio de simulações, fixando-se como aceitável para a ocorrência de déficit o limite de 5%, é critério de planejamento e jamais deveria ser considerado para a operação do sistema em tempo real.
    A operação para o ano corrente deve ter risco zero de racionamento, isto é, os recursos efetivamente disponíveis para geração devem ser suficientes para cobrir a carga prevista. O resto é conversa para boi dormir.
    A verdade é que, transcorridos mais da metade do período úmido e não tendo caído chuva suficiente nas cabeceiras dos principais rios, resultando armazenamentos da ordem de 16% nos reservatórios do SE/CO e NE, que juntos respondem por mais de 85% das reservas do sistema, e o que é pior, ao invés de neste momento estarem reenchendo, como seria de esperar, os reservatórios continuam caindo, resulta numa clara definição de que não há a mínima garantia de energia suficiente para cobrir a carga do sistema nos próximos meses.
    Ou seja, nesta altura, a única hipótese de se evitar que nos próximos meses as disponibilidades de geração sejam insuficientes para cobertura da carga, isto é, de se evitar um racionamento compulsório, será a queda a partir de hoje e até o final de abril de um pequeno dilúvio no Planalto Central, capaz de recuperar o nível dos grandes reservatórios.
    Portanto, acreditando que Deus seja realmente brasileiro e que São Pedro não queira decepcioná-lo, vale rezar (para quem acredita).

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