O último Boletim Energia da ANEEL publicou a seguinte notícia:
Curva de aversão a risco da região Sul será atualizada pelo Operador Nacional do Sistema
A Aneel aprovou esta semana aatualização dos valores estabelecidos para a curva bianual de aversão a risco de racionamento da região Sul no período 2006/2007. A revisão eleva em 1%, em média, no período de outubro de 2006 a abril de 2007, o nível de segurança do sistema em relação à curva original definida em janeiro desse ano, em conseqüência da redução a zero da disponibilidade de importação de 400,71 Megawatts (MW) médiosdeenergiada Argentina.
A importação seria feita através da Estação Conversora de Freqüência de Garabi I e II, da Companhia de Interconexão Energética (Cien). A redução da garantia física da energia argentina, estabelecida na Resolução Normativa Aneel nº 224/06, foi motivada pela dificuldade em atender o despacho do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), tendo em vistaproblemas deabastecimentodeenergianaquelepaís.
A Curva de Aversão a Risco é um mecanismo que estabelece o nível mínimo de armazenamento dos reservatórios das hidrelétricas necessário à produção de energia com segurança para o sistema interligado. Criado pela Resolução nº 109/02, da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE), esse instrumento é atualizado anualmente e sinaliza para eventuais
riscos de desabastecimento de energia provocados por alterações no volume de armazenamento dos reservatórios.
Comentários do ILUMINA
Do ponto de vista de ‘Planejamento Energético’ deve-se entender que é essencial trabalhar com uma ‘folga de geração’ no parque gerador brasileiro para atender as variáveis todas que não são controláveis pelos planejadores.
Essas variáveis são compostas principalmente de:
a) o mercado consumidor tem incertezas intrínsecas (dependência do mercado consumidor em relação ao vigor da economia do país, das exportações, da renda das famílias, dos programas de inclusão social, etc);
b) a energia elétrica gerada a partir da fonte primária hidráulica tem uma característica ‘estocástica’ (ou seja, é uma variável não controlável no tempo, tendo-se apenas conhecimento sobre o conjunto de pontos ‘energia disponível versus probabilidade de ocorrência’ em função dos dados históricos disponíveis). E esta folga de geraçãoque se faz necessária (como um lastro estratégico, ou um seguro) tem que ser de hidrelétricas, para não aumentar a dependência externa do país em relação a insumos energéticos importados, como o gás natural ou derivados de petróleo ou ainda carvão mineral.
Por isso sempre apontamos a importância de se fazer ‘Planejamento Energético’ no setor elétrico do Brasil, que é um país essencialmente de base hidrelétrica em seu sistema elétrico de potência.
Isto seria ‘fazer o trabalho certo’ com o sistema elétrico brasileiro, antes que seja tarde demais…E por trabalho certo, no caso, entenda-seplanejar, licitar e construir as hidrelétricas de que o país vai precisar, antes que o balanço oferta versus demanda de energia elétrica determine a necessidade de um montante tal de geração e que não haja mais de onde tirá-la para seu suprimento a tempo. Já deveríamos ter aprendido esta lição no racionamento de 2001…
Mas como não é isso que tem sido feito, o MME, após o racionamento a que se viu forçado implantar no país em 2.001 por conta da ausência deste planejamento estratégico adequado, implantou uma ‘sistemática de segurança’ para acompanhamento das condições energéticas nas usinas hidrelétricas existentes nos sub-sistemas em que o sistema elétrico brasileiro foi dividido ( Sul; Sudeste + Centro-Oeste; Norte e Nordeste ), considerando em cada um deles os recursos energéticos de origem térmica + hidráulica nas várias bacias hidrográficas existentes. E
Esta sistemática de segurança criou a chamada ‘Curva de Aversão ao Risco’, que pretende acompanhar o quão próximo da situação de risco de racionamento se estaria operando individualmente os 4 sub-sistemas acima mencionados.
Teoricamente, com os reservatórios operando acima desta curva, não haveria risco de racionamento. Mas mesmo contando com este recurso de acompanhamento da situação energética ficamos sujeitos à seguinte situação: suponham uma criança que ainda esteja na idade de usar fralda. Seus pais devem monitorar qual a intensidade da vontade/necessidade dela, ao não usar a fralda, fazer xixi, para que não venha a fazê-lo no chão da sala. Só que a criança quer é ficar brincando durante o máximo tempo que puder. Assim, ela vai tentar prolongar ao máximo possível a sua capacidade de reter o xixi que precisa ser feito. Teoricamente, se até os segundos antes de não mais agüentar a criança for levada por seus pais rapidamente ao banheiro, estará tudo bem, pois acabou não sujando o chão da sala. Só que o risco de isto dar errado é muito grande.
E, assim, algo semelhante acontece com a tal ‘Curva de Aversão ao Risco’ do ONS: enquanto o nível dos reservatórios não ultrapassar para baixo a curva, teoricamente, não estamos vivenciando um risco de racionamento… Porém, se as duas curvas estiverem muito próximas, a chance de algo dar errado fica muito grande.
E é isto que vem ocorrendo ao longo dos últimos meses com o sub-sistema da região Sul (vide gráfico abaixo com o ‘nível do reservatório equivalente’ versus ‘curva de aversão ao risco’ da região Sul, obtida no web-site do ONS).
Oartigodiz respeito a uma revisão da ‘Curva de Aversão ao Risco’ da região Sul, que a ANEEL determinou que o ONS fizesse. Isto por conta de não se poder contar (como se viu na prática) com o que se pensava antes estar disponível de energia que poderia ser importada da Argentina a qualquer momento, via a conversora de freqüência de Garabi. Esta energia, por contrato, deveria estar disponível para o Brasil em função das usinas térmicas a gás natural existentes na Argentina. Mas, como sabemos que a Argentina não dispõe de gás natural nem para alimentar as suas próprias indústrias (que retomaram com força a sua produção devido à forte recuperação de sua economia após a depressão sofrida em 2.002), quanto mais ter o gás para gerar energia elétrica para disponibilizá-la ao Brasil… Com este quadro configurado, ficou patente que o contrato de importação não poderia ser cumprido. Então a ANEEL mandou zerar a parcela desta energia no cálculo da ‘Curva de Aversão ao Risco’ da região Sul.
