Direção Perigosa
Colaboração de José Carlos Cascaes
O desequilíbrio energético, a necessidade de transferência de grandes volumes de energia elétrica de uma região para outra e a paralisação de usinas criam uma situação de altíssimo risco para os consumidores.
O sul do Brasil mandaria, em condições normais, em torno de até 800 MW para o Sudeste (além de não receber sua cota de Itaipu). Agora está despachando para o resto do país 2300 MW 24 horas por dia. Para fazê-lo as empresas de energia aqui instaladas estão sendo obrigadas a desprezar diversas restrições técnicas.
O significado dessa operação é que a abertura de alguma grande linha de transmissão ou a perda de alguma usina fora da região poderá provocar desligamentos em cascata com enormes oscilações de tensão e freqüência. Ou seja, nas residências, comércio, indústrias e outras áreas os aparelhos poderão "queimar", desligando ou operando em condições adversas.
Outro efeito de um rompimento intempestivo da interligação Sul / Sudeste será a fragmentação dos dois sistemas. No maior e maior apagão da história do Brasil, promovido pela má operação do sistema há poucos anos, tivemos até incêndios e algumas horas perdidas na recomposição do sistema. Tudo indica que um desligamento semelhante agora não levaria as empresas a gastar tanto tempo para recuperar suas cargas mas alguns efeitos são inevitáveis e imprevisíveis.
É importante saber que o Brasil interligado está operando com grandes riscos de acidentes. Evidentemente são eventos prováveis. Se o santo padroeiro dos "responsáveis" pelo setor energético brasileiro for muito competente talvez passemos essa fase sem grandes acidentes mas a probabilidade de virmos a tê – los é grande e crescente.
A fragilidade do sistema interligado aumenta substancialmente. Será que o povo está alerta para este fato? Seria importante avisá-lo?
Muitas indústrias, usuários de elevadores, hospitais, sistemas de segurança poderão ser atingidos da pior maneira se não puderem evitar esses desligamentos e seus efeitos mais perigosos. Talvez os piores casos possam ser evitados com algumas mudanças de processos, instalação de dispositivos alternativos, técnicas mais elaboradas. Cada caso é um desafio especial, muitas vezes merecendo estudos especiais, próprios à situação técnica específica. O correto é que todos sejam avisados e orientados sobre o cenário que vivemos.
O desastre causado pela mais profunda e criminosa imprevidência começa a mostrar suas vítimas, seus efeitos. Precisamos estar alertas para minimizar os prejuízos. Não devemos imitar o Governo Federal, sejamos previdentes. Isso poderá significar a sobrevivência física e material nossa e de nossas atividades profissionais, culturais etc.
José Carlos Cascaes
16.5.1