Comentário: A notícia vem apenas se juntar a enorme coleção de absurdos que os brasileiros, infelizmente, convivem mansamente. A conta final da aventura das térmicas “acordadas” em setembro de 2012 beira os R$ 10 bilhões. Com esse dinheiro seria possível construir uma hidroelétrica de mais de 2.000 MW, capaz de gerar energia para mais de 4 milhões de consumidores. Toda essa lógica de cabeça para baixo estaria justificada se estivéssemos passando por uma tragédia hidrológica, o que é falso como uma nota de três reais.
Na realidade trata-se de um modelo mal adaptado ao singular sistema brasileiro. O ridículo continua com distribuidoras descontratadas, torcendo por chuva num mercado spot que depende de S. Pedro. Geradores, no sentido contrário, torcendo para que muita chuva não derrube seus preços.
A louvação à filosofia do “mercado a qualquer custo” não deixa ver que o nosso nada tem a ver com mercados genuínos de energia como o NORD POOL, como mostra a figura. No gráfico é possível ver também MWh serem “liquidados” por ninharias quando poderiam formar um fundo para compensar os gastos bilionários.
Fim de ajuda do Tesouro preocupa distribuidoras
Por Claudia Facchini | De São Paulo – Valor 08/11
Os repasses bilionários que estão sendo feitos pelo Tesouro para as distribuidoras de energia, por meio da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), vão terminar em dezembro, o que preocupa o setor. São grandes as chances de que as empresas ainda precisem de dinheiro dos cofres públicos para recompor o fluxo de caixa em 2014, mas o tamanho do rombo só ficará claro depois do leilão de energia existente (A-1), que será realizado no dia 17 de dezembro.
Se chover muito nas próximas semanas e os preços da energia no mercado disponível caírem, o governo também se livra de grande parte do problema, afirma Nelson Leite, da Associação Brasileira das Distribuidoras de Energia Elétrica (Abradee). Até agosto, já foram repassados R$ 8,4 bilhões da CDE às companhias.
O dinheiro foi desembolsado para evitar que os elevados custos com as térmicas chegassem ao bolso dos consumidores. As distribuidoras também ficaram sem contratos de longo prazo depois da renovação das concessões do setor elétrico. Isso porque o número de hidrelétricas que aderiu à proposta foi inferior ao previsto pelo governo federal, com a rejeição da Cesp, Cemig e Copel.
Hoje, as distribuidoras precisam comprar 2 mil MW no mercado disponível, pelo Preço de Liquidação das Diferenças (PLD). Os recursos da CDE também estão cobrindo essas despesas, embora os repasses não compensem 100% dos gastos, disse Leite.
O problema é que essa situação vai se agravar até o fim do ano, quando a validade de alguns contratos de compra firmados nos leilões entre 2004 e 2006 termina. Em dezembro, as empresas vão ficar expostas em mais 4 mil MW, elevando o total descontratado para 6 mil MW.
As distribuidores precisarão recomprar toda essa energia no próximo leilão A-1, caso contrário, continuarão expostas ao PLD, que hoje está em torno de R$ 300. Segundo Leite, o governo ainda não definiu o preço máximo do certame. Hoje, os preços nos contratos firmados pelas distribuidoras giram em torno de R$ 110 por MWh, afirma. Mas é bem provável que os novos contratos fiquem mais caros do que isso, o que vai ser sentido pelos consumidores nos reajustes tarifários das distribuidoras a partir do ano que vem.
A dificuldade será convencer os geradores a participar do leilão de energia existente, quando eles podem vendê-la no mercado de curto prazo, a preços bem mais altos. No último leilão de energia “velha”, não houve oferta. Mas a descontratação também representa um risco para os geradores, que vão perder dinheiro se voltar a chover e os preços à vista desabarem, diz Leite.
Quanto ao despacho de usinas térmicas, Leite afirma que a adoção das bandeiras tarifárias a partir de janeiro de 2014 resolverá o problema do descasamento entre despesa e receita das distribuidoras, rombo que os recursos da CDE estão compensando neste momento. Isso porque os gastos com o despacho térmico passam a ser repassados mensalmente à conta de luz e não mais um vez por ano, na data do reajuste tarifário de cada distribuidora. Hoje, a bandeira seria amarela, por exemplo, representando um custo adicional de 1,50 por KWh na conta de luz.
Os resultados da Eletropaulo no terceiro trimestre, que vieram bem acima das expectativas dos analistas, indicam que o cenário começa a ficar melhor para as distribuidoras, depois de uma sucessão de más notícias. Ontem, as ações da distribuidora paulista apresentaram uma forte valorização, de 8,7%, encerrando o pregão a R$ 9,46. Grande parte das empresas do setor, porém, tiveram um dia ruim na bolsa, na esteira do índice Ibovespa, que caiu 1,21%.
Em teleconferência com o presidente do grupo AES no Brasil, Britaldo Soares, a suspensão dos repassses da CDE a partir de janeiro foi um dos assuntos abordados pelos analistas. Mas, segundo o executivo, espera-se que o governo encontre uma solução para preservar o fluxo de caixa das companhias.