Roberto Pereira D’Araujo
A economia brasileira, agora mergulhada em crise profunda, deu diversos sinais de que a gestão perdulária adotada nos últimos anos iria levar ao quadro de recessão prolongada que estamos assistindo.
É preciso dizer que o aumento do desemprego num país que vive experiências de elevação de violência é um sintoma extremamente preocupante, pois leva a sociedade a um nível de insegurança crescente.
Apesar de todos os sinais internos e externos, o governo abusou de desonerações, empréstimos subsidiados do BNDES, aportes do tesouro e artificialidades de preços controlados.
Agora, ainda mantendo uma postura arrogante, o governo admite que “percebeu tardiamente” o problema.
Cada vez que se analisa o caso do setor elétrico, é impressionante a semelhança, mas, nesse caso, nenhuma reconsideração. Nem a da percepção tardia.
Não faltaram sinais e o ILUMINA cansou de mostra-los.
- Podemos começar com a hidrologia do Rio São Francisco cujos reservatórios respondem por 18% da reserva total do nosso sistema interligado. O gráfico abaixo mostra a evolução da “energia natural” (afluência) do rio em função da média de longo termo.

A linha preta é a média móvel de 12 meses. Como se pode perceber, desde 1988 essa medida é decrescente.
Algum diagnóstico? Nenhum. Ao contrário, perante essa evidência, a simples manutenção dos valores de “garantia” constantes como se nada estivesse ocorrendo.
E não pensem que o fenômeno compromete apenas as usinas da CHESF. Como o sistema é interligado, todas as usinas do sistema são atingidas.
- Podemos continuar com o que já mostramos diversas vezes: A evolução da reserva em relação à carga, onde, no eixo vertical se pode ver a quantidade de meses de consumo equivalente “guardada” nos reservatórios.

Os pontos azuis marcam os diversos junhos desde 2009 e os vermelhos os diversos novembros. A imprensa geralmente quer diagnosticar a questão comparando o mês de um ano em relação ao mesmo mês do ano anterior. É possível perceber que essa análise pontual pode levar a enganos. Exemplo: O novembro de 2013 é melhor do que o de 2012, mas a tendência da reserva continua declinante.
- Parece que ninguém fez essa conta e plotou esse gráfico no governo, pois, como é evidente no gráfico abaixo, mesmo com a reserva com a tendência declinante, as hidráulicas foram usadas muito além de sua garantia.

A área “cor de rosa” mostra que o conjunto das hidráulicas gerou aproximadamente 150 TWh acima de sua garantia física, adiando um despacho prudente de térmicas, apesar dos indícios mostrados anteriormente. Há meses onde esse “abuso” ultrapassa 30%.
Essa falta de prudência pode ser comprovada no outro gráfico abaixo, onde é possível ver que as térmicas só dobram sua geração em relação à carga depois do anúncio da MP 579 em setembro de 2012.

- Para reforçar o diagnóstico sobre a falha de gestão, abaixo o gráfico da evolução da carga, que desfaz a ideia de que a redução tarifária de 2013 causou um aumento de consumo significativo causando parte do problema.

- Por fim, anos secos não são inéditos no histórico e 2014 nem chega perto do ano mais seco registrado.

Piores que 2014: 1953, 1954, 1955, 1971, 1969, 1944, 1933, 1963.
Não foi São Pedro. Pelo menos não foi sem aviso. Não foi o consumidor, pois mesmo com a redução de 2013, a tarifa brasileira é cara.
A pedalada não foi só econômica. A do setor elétrico é ainda mais evidente. O que é lamentável é que não há nem o reconhecimento de erros e nem a abertura de um diálogo para se debater saídas para uma situação que se sobressai pela bizarrice. Somos o país que dispõe um enorme potencial de energia renovável, mas que têm tarifas equivalentes a de países muito mais dependentes de fontes fósseis. Cada vez mais, um ponto fora da curva!
6 respostas
Roberto,
Não é só “mea culpa” que está faltando no setor elétrico, está faltando é governo responsável para mudar um projeto megalomaníaco que desde a época de sua implantação já apresentava erros sérios.
Prezados faz tempo que técnicos -até mesmo mais pertos de decisores-vinham solicitando análises sobre o modelo vigente no setor elétrico identificando possíveis problemas e apontando soluções. Contratar estudos de especialistas externos evitariam erros sistematicos dos técnicos do governo .Com isso o decisor teria elementos para ajustar ou avaliar se deveria ou nao manter os rumos. Mas parece que tudo tem que ser imutável. Nao ha interesse em debater abertamente ou contratar análises externas. Já há um consenso entre especialistas que se não encarar os erros e buscar as mudanças vamos ficar com medidas pontuais via MP em cada grave problema .Lembro que meses que antecederam o racionamento de 2001 gestores respeitáveis afirmavam que não haveria racionamento. Nesse contexto técnicos do setor dentro de empresas de governo- da mesma maneira como atualmente – nao poderiam expor abertamente susd preocupacoes.Entao muitos procuravam quase em desespero apresentar suas análises realistas fora do âmbito governamental para a ONG Ilumina.Uma responsabilidade com o país.
Bom comentário sobre a incompetência deste governo em relação à energia elétrica e sua política desastrosa.
Aproveito para solicitar aos que aprovam nossa análise que distribuam esse artigo, pois, apesar de todas evidências os consumidores brasileiros estão assistindo a mais remendos.
Roberto
Sua análise é impecável.
Não basta apenas um “mea culpa”.
Já passou da hora de o governo iniciar um estudo com o objetivo de realizar uma profunda revisão na organização o sistema elétrico.
Os próprios agentes do mercado estão clamando por um estudo desse tipo.
Manter o modelo atual só provocará mais demandas judiciais vcomo as atuais que acabarão por desmontar o sistema elétrico construído na segunda metade do século passado com o esforço e a dedicação do corpo técnico setorial.
Esperemos que o governo tome a iniciativa antes que algo de muito grave ocorra no sistema elétrico.
Caro Adilson;
Sua aprovação é honrosa para mim, mas, como sou bem mais pessimista, “o algo muito grave” já ocorreu: A destruição da Eletrobras, o hibridismo do modelo e a explosão tarifária.