Comentário: O gráfico abaixo, inúmeras vezes mostrado pelo ILUMINA, tanto na página do instituto como em seminários, mostra a verdadeira pedalada elétrica que acabou gerando a crise atual.
Parece complicado, mas, na realidade, só mostra o absurdo do nosso modelo.

Primeiro o recado para o cidadão:
Olhando o eixo esquerdo em MW médios:
Barras azuis – Saldos hidrológicos – Hidroelétricas gerando acima de sua garantia física. De 2009 a 2012 aproximadamente 150 TWh de saldo – saldo chegou a 30%!
Barras laranjas – Déficits hidrológicos – Hidroelétricas gerando abaixo de sua garantia física. De 2014 a junho de 2015 aproximadamente 64 TWh de déficit – déficit chegou a 20%!
Olhando o eixo direito em $R/MWh – Preço de Liquidação de diferenças no mercado livre. 6.800 % Variação de preço de março de 2011 para janeiro de 2014 (822/12).
O que significa isso? Simples! Quando há saldo hidrológico (*) o preço despenca no mercado livre, mas o consumidor não participa da festa de energia barata. Preço médio no período 2009 – 2012: R$ 38/MWh.
Quando há déficit o preço chega a subir os 6.800 % e ai a conta é do consumidor. Preço médio no período 2014 – 2015: R$ 640/MWh.
(*) O saldo é apenas hidrológico e definido por um modelo matemático. Não confundir com sobra de energia.
Agora o recado para as geradoras:
Quem não sabia que as garantias físicas são meras estimativas dependentes do critério de operação (que sofreu mudanças)?
Quem não sabia que reservatórios podem se esvaziar se não entra água, mas também se esgotam se são usados além da conta, como no período das barras azuis?
Qualquer técnico com um mínimo de expertise no modelo vigente sabia que tal efeito perverso poderia acontecer. Apesar de apoiarmos a reação, foi muito tardia.
DIMMI AMORA
JULIA BORBA
DE BRASÍLIA
30/09/2015
Estatais federais responsabilizam políticas do governo Dilma pelo prejuízo de R$ 20 bilhões com que as usinas hidrelétricas estão arcando, pela crise do sistema de energia. Dentre as críticas está a de que medidas indispensáveis deixaram de ser tomadas pelo Executivo no ano passado devido ao período eleitoral.
A Eletrobras, principal estatal do setor, disse que o problema atual das geradoras não se “deve meramente à condições hidrológicas adversas”, mas, sim, a decisões dos gestores do sistema —agentes do governo. As críticas foram seguidas por Furnas, Eletronorte e outras estatais geradoras de energia.
A argumentação consta de documentos encaminhados à Aneel (agência reguladora do setor) para apresentar sugestões na discussão sobre quem vai pagar a conta pelo prejuízo das empresas quando elas são impedidas de gerar energia para poupar água.
Nos documentos, a Eletrobras não aceita a solução apresentada pelo Ministério de Minas e Energia, que quer que as hidrelétricas assumam um risco maior no futuro por não gerar energia. Em troca, terão o contrato de concessão prorrogado para compensar o prejuízo já existente.
Desde 2012, a Eletrobras tem posição interna contrária às intervenções do governo, mas não a expunha. A estatal acumula prejuízos e suas ações despencaram 52% desde 12 de setembro de 2012, quando o governo reformulou o sistema elétrico.
“EFEITOS NEFASTOS”
Nas críticas, a Eletronorte diz que o governo não tomou medidas necessárias em 2014 por ser período eleitoral: “(…) a despeito da situação excepcional de crise hidrológica por que passa o país, especialmente no ano de 2014 (em pleno período eleitoral), não foram implementadas, pelo governo, as medidas extraordinárias indispensáveis à manutenção do equilíbrio financeiro do contrato celebrado entre as partes.”
Furnas aponta que há “grande desequilíbrio estrutural no setor”, que atinge todos os agentes e produz “efeitos nefastos”. A empresa diz que problemas vieram também da falta de leilões de energia e de decisões do Operador Nacional do Sistema Elétrico. Furnas destaca que, em diversas semanas entre 2014 e 2015, houve alerta para a necessidade de corte de carga (racionamento), mas o ONS não o fez.
A Aneel diz que as empresas fizeram “precificação equivocada”, defende que o problema é hidrológico, que as empresas não vão ter prejuízo e que os indicadores de racionamento eram fracos.
Hidrelétricas conseguiram liminares para não pagar todo o prejuízo pelo deficit na geração. Caso a posição das empresas prevaleça, o consumidor terá que arcar com os R$ 20 bilhões que elas pagaram para outros geradores.
O setor termelétrico, que vendeu a energia mais cara, defende que o risco era das hidrelétricas e o consumidor não deve pagar por nada.
2 respostas
Roberto,
Mantido o atual modelo do setor elétrico e sua estrutura formada pelo ONS, EPE e ANEEL, não adianta reclamar e a nossa travessia para o inferno continua.
Antes tarde do que nunca!
Paulatinamente vai se formando o consenso de que a atual regulação do mercado atacadista de energia, com despacho “otimizado” (sic) é o nexo central dos problemas setoriais.
Conseguimos transforma a maior vantagem comparativa do nosso sistema elétrico (um imenso reservatório de acumulação) na origem da desastrosa situação setorial.
É preciso reconhecer: tem que ter muita “competência” para construir esse desastre.
E la nave va….