Geradoras vão bancar conta extra de R$ 16,1 bi –  Estadão

Comentário: Temos que repetir: Caixas d’água se esvaziam por falta de água na entrada e por excesso de uso na saída. O governo culpa São Pedro, que não tem como se defender, mas sabe que há uma responsabilidade advinda da gestão dos reservatórios. Essa gestão está ligada a esse número mágico e contestável chamado garantia física, que não é nem física e muito menos garantida. As usinas não conseguem gerar o que está escrito no papel. O que torna tudo ridículo nesse modelo do setor é que de 2003 até 2012 as hidroelétricas geraram acima da sua “garantia física”. Para onde foi esse excesso? Quanto custou? Para quem? Por que não compensou a penúria atual?

O ILUMINA dá uma sugestão à ABRAGE (Associação dos Geradores). Entrem na justiça contestando os valores de garantia física. Se as usinas não geram, pagam uma fortuna por conta de um número inventado e que evidentemente está mostrando estar errado. Se geram acima, ninguém sabe para onde vai essa energia extra geralmente liquidada por valores irrisórios. (Quem tiver dúvida, consulte o histórico do PLD no site da CCEE).


André Borges – BRASÍLIA – O Estado de S. Paulo

Um rombo bilionário tomou conta das principais hidrelétricas que estão em operação no País. Entre janeiro e setembro deste ano, consórcios e empresas que controlam essas usinas terão de bancar uma conta extra de R$ 16,1 bilhões, dinheiro que será usado para comprar energia de usinas térmicas e, dessa forma, garantir o volume de abastecimento que as hidrelétricas tinham se comprometido a entregar, mas não conseguiram cumprir.

No primeiro semestre deste ano, essas empresas já desembolsaram R$ 6,5 bilhões. Entre julho e setembro, no entanto, a conta simplesmente explodiu e, até o fim deste mês, será ampliada em mais R$ 9,6 bilhões.

A origem desse abismo, que começa a abalar seriamente a saúde financeira de muitas geradoras, está na situação hidrológica atravessada pelo País. A situação das geradoras começou a se agravar em fevereiro, quando a seca reduziu o nível dos reservatórios, elevando os preços da energia no mercado livre.

Para garantir que não faltará energia a nenhum consumidor, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determinou, desde o início do ano, o acionamento pleno de todas as usinas térmicas à disposição. Paralelamente, o órgão reduziu a vazão dos reservatórios das hidrelétricas.

Trata-se, basicamente, de uma decisão técnica, já que essa reserva de água ajuda a manter o equilíbrio de todo o sistema elétrico.

Ocorre que as hidrelétricas, que têm contratos de abastecimento de longo prazo firmados com as distribuidoras e grandes consumidores industriais, não podem deixar de honrar seus compromissos de geração.

Dessa forma, como não conseguem entregar o que estava previsto, são obrigadas a adquirir a energia que falta no mercado de geração de curto prazo. E o preço do megawatt-hora (MWh) nesse mercado tem sido negociado próximo do teto, entre R$ 700 e R$ 822. A exposição das geradoras no mercado à vista varia mensalmente.

O agravante dessa situação é que os donos das hidrelétricas não têm direito à compensação financeira por conta desses ajustes.

Diferentemente das distribuidoras de energia, que repassam seus custos extras para a conta de luz do consumidor, cabe a cada hidrelétrica assumir seu prejuízo.

“Muitas empresas estão com o fluxo de caixa comprometido e passando um enorme sufoco para pagar essa conta”, diz Cristopher Vlavianos, presidente da Comerc Energia, empresa que atua como comercializadora de energia elétrica.

Desempenho. A pedido do Estado, a Comerc fez um levantamento sobre o desempenho das hidrelétricas nos últimos 12 meses. O objetivo foi cruzar o volume mensal de energia firme (aquele que as empresas são obrigadas a entregar) exigido pelo setor elétrico, com a quantidade de energia efetivamente entregue pelas hidrelétricas.

Os dados apontam que, entre agosto e dezembro de 2013, as usinas conseguiram entregar uma quantidade de energia até superior àquela esperada, com oscilações positivas de 1% a 8% em relação ao projetado pelo ONS.

Neste ano, porém, a situação degringolou. Desde janeiro, as hidrelétricas não conseguem alcançar a meta mensal de geração estabelecida.

Os saldos negativos, que no primeiro semestre oscilaram entre 1,5% e 11%, chegaram a atingir 14% em julho. Em agosto, a frustração chegou a 14%, pior resultado desde o início da crise.

Enquanto a energia física prevista para as hidrelétrica era de 47,5 mil megawatts (MW), essas usinas injetaram apenas 40,05 mil MW no sistema elétrico. Isso significa que as geradoras tiveram de comprar, apenas em agosto, mais de 7 mil MW de energia no mercado livre.

O Estado apurou que só a Companhia Energética de São Paulo (Cesp) teve de pagar cerca de R$ 320 milhões em agosto para fechar a liquidação realizada mensalmente pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

Problema sistêmico. “O governo diz que tudo é risco hidrológico e natural do negócio, mas não é bem assim”, diz Claudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil. As empresas podem ficar expostas ao mercado de curto, mas não dessa forma. Isso é um problema sistêmico, que precisa ser discutido.

Da forma que está, é insustentável. Entre agentes do setor, a expectativa é de que haja, ao menos, algum tipo de financiamento para ajudar a fechar as contas.

Procurado pela reportagem, o Ministério de Minas e Energia não comentou o assunto.

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4 respostas

    1. Respondo concordando com as duas mensagens. Só acrescento que a cada dia fico mais admirado com a incrível complacência da nossa sociedade em conviver com absurdos.

  1. Os principais problemas das usinas hidrelétricas decorrem do fato delas, apesar de terem donos, serem obrigadas:
    1. A gerar valores definidos pelo ONS com base em modelos matemáticos inadequados, valores estes que não respeitam a capacidade de regularização dos reservatórios e os usos múltiplos da água;
    2. Substituir geração térmica definida no horizonte da expansão pela EPE com o consentimento da ANEEL, que no horizonte da operação não são despachadas pelo ONS em virtude dos seus custos e dos modelos matemáticos inadequados utilizados pelo operador.
    Cabe ao governo tomar uma posição imediata de remodelar totalmente o setor elétrico, sob pena ao não fazer isto tornar em pouco tempo a situação insustentável.

  2. Êta “modelinho sem vergonha” esse do nosso setor elétrico.
    As usinas térmicas, sabidamente inconvenientes, posto que geram energia cara e poluente, gerando ou não têm garantido o recebimento mensal pelos seus custos fixos, naturalmente incluindo taxas de retorno de capital. Mas, se forem despachadas receberão adicionalmente pela energia efetivamente gerada para cobrir os respectivos custos operacionais através dos seus CVU’s. Não correm riscos devidos ao imponderável da natureza e em geral, na sua maioria, somente são despachadas no caso da ocorrência de condições hidrológicas desfavoráveis.
    Enquanto isto, as usinas hidrelétricas, gerando energia barata, renovável e limpa, estão obrigadas a gerar permanentemente 24 horas por dia, em média no montante das suas respectivas “garantias físicas”, o que de fato ocorre na maior parte do tempo e, com muita frequência, até mesmo geram acima deste valor, mas não recebem por conta desse excesso.
    Entretanto, se por acaso, devido à ocorrência de condições hidrológicas desfavoráveis, por um certo período não puderem gerar todo o montante das suas “garantias físicas”, as hidrelétricas terão de cobrir os respectivos “déficits” com energia comprada no mercado “spot”, com o agravante de que em tais condições, como agora, os preços da energia estarão anormalmente elevados, uma vez que eles sobem justamente porque essas hidrelétricas não estão em condições de gerar plenamente. Nenhuma compensação lhes é assegurada pelo fato de na maior parte do tempo terem gerado acima das suas “garantias”, exatamente para manter as térmicas desligadas e com isto manter o preço da energia total gerada pelo sistema no seu valor mais baixo possível.
    Decididamente, é um tratamento desigual e injusto.

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