Gestão de risco será desafio para as geradoras em 2014 – Valor – 24/02/14

Comentário: Não é o que parece! Quem lê a reportagem abaixo pode ficar impressionado com duas frases:

  1.   “Com a falta de chuvas, é muito provável que as hidrelétricas não gerem 100% do volume previsto.”
  2.  “Mas as empresas também podem administrar o risco e alocar, no sistema elétrico, um menor ou maior volume em cada mês do ano, elevando ou diminuindo sua exposição.”

 Apenas para ilustrar o tema, abaixo, dois gráficos com as gerações (verdadeiras, verificadas) de duas usinas do sistema, uma delas da própria Tractebel nos anos 2004 – 2012, sendo cada cor um ano.  As linhas tracejadas são as respectivas “Garantias Físicas” (GF) dessas usinas. Como se pode ver, os MWmédios produzidos nada têm a ver com o “certificado” GF. Poderíamos colocar gráficos de mais de 30 usinas brasileiras e a característica comum seria o “nada a ver” com o certificado.

 Portanto, a primeira questão é: O que é “o volume previsto”? A Garantia Física? Mas não é nunca! Há anos que fica abaixo e outros que ficam acima. Portanto, a segunda questão é: Alocar um menor ou maior volume em cada mês? Mas a geração não é definida pelo proprietário da usina e sim pelo ONS! Portanto, como fazer isso? Mexendo na GF? Ao bel prazer? Sem nenhuma relação com o mundo físico?

 Por incrível que pareça, é isso mesmo! A regulamentação brasileira permitiu a sazonalização da GF com fins especulativos.

 Alguns diriam que o ILUMINA é radical e não entende que, no sistema, uma usina compensa a outra e as GF’s são como uma energia média das usinas. A esses responderíamos que a soma das GF’s não deveria ser nem parecida com a energia média, uma vez que as hidráulicas geram no lugar das térmicas e essas são contabilizadas na oferta. Portanto, a soma das GFs tem que ser necessariamente menor do que a geração média.

Para mostrar que há algo errado, o ILUMINA verificou essa relação para 36 usinas que somam mais de 50.000 MW. As soma das GF’s ficam apenas 3% abaixo da sua geração média no período, uma folga insuficiente para um sistema hidrotérmico em equilíbrio.

 Esses números são fortes indícios de que as Garantias Físicas estão superavaliadas. Isso também esvazia reservatório. São também preocupantes as declarações do Dr. Zaroni sobre racionamentos oclusos e administráveis que já podem estar ocorrendo.

 


Por Claudia Facchini, Marta Nogueira e Rodrigo Polito | De São Paulo e do Rio

A gestão do chamado “risco hidrológico” será, neste ano, uma tarefa árdua para os executivos das grandes geradoras de energia do país, diante das incertezas em relação ao clima. Com a falta de chuvas, é muito provável que as hidrelétricas não gerem 100% do volume previsto. Quando isso ocorre, as empresas de geração precisam comprar energia para zerar suas posições. Mas as empresas também podem administrar o risco e alocar, no sistema elétrico, um menor ou maior volume em cada mês do ano, elevando ou diminuindo sua exposição.

O analista do banco J. Safra, Sérgio Tamashiro, estima que o sistema hidrelétrico brasileiro pode ter produzido, em janeiro, 95% da energia total alocada pelas empresas, de 55.900 MW-médio. Isso quer dizer que haveria um déficit de 5% na geração das hidrelétricas em relação ao volume garantido.

Na sexta-feira, o presidente da Tractebel, Manoel Zaroni, a maior empresa privada de geração de energia do país, afirmou a analistas de investimento que a situação é preocupante. Ele não afasta a possibilidade de que o país precise racionar o consumo, ainda que de forma “não declarada”. Questionado, Zaroni evitou explicar como isso poderia ser feito. O executivo, que foi funcionário de Furnas, sugeriu que existem “formas não explícitas” de racionamento.

Na Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), o valor do megawatt-hora no mercado spot foi mantido nesta semana no valor máximo permitido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), de R$ 822, 83 por MWh. Isso indica que a situação permanece crítica.

No quarto trimestre de 2013, a Tractebel precisou comprar megawatts-hora no mercado de curto prazo, a preços elevados, para cobrir suas posições, o que prejudicou seus resultados. O lucro líquido anunciado pela empresa na semana passada, de R$ 286 milhões no últimos três meses do ano, foi 23% inferior que o esperado pelo analista do Deutsche Bank, Leandro Cappa, por exemplo.

No entanto, a Tractebel já havia embolsado lucros generosos no começo de 2013, quando alocou um grande volume de energia, a preços também bastante altos. No início do ano passado, apostava-se que os preços iriam cair no segundo semestre. Mas não foi o que ocorreu. Essa mesma incerteza existe hoje. E a forma como as geradoras alocaram energia ao longo de 2014 também pode fazer diferença nos balanços este ano.

Na avaliação do presidente da Bolt Trading, Érico Evaristo, mesmo se chover, os preços continuarão altos, porque o país terá de despachar térmicas por todo ano. “E é bem provável que o mercado entre em março ainda no teto”. Segundo Evaristo, estão previstas chuvas, mas precisaria chover em excesso para encher os reservatórios.

O Sudeste está sendo socorrido, neste momento, pela usina de Tucuruí, na região Norte, e por Itaipu. De acordo com Evaristo, juntas, as duas hidrelétricas estão abastecendo 20% do consumo nacional. Mas, a partir de abril, termina o período de chuvas na região Norte.

Hoje, o Operador Nacional do sistema (ONS) está despachando praticamente todas as térmicas. Essas usinas estão gerando 13,5 GW dos 70 GW consumidos pelo país, afirma o executivo da Bolt.

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Uma resposta

  1. Estamos num período critico acima do que era esperado. Os reservatórios aquém de suas capacidades e com riscos elevados de cerca de 18%, ou seja, grande chance de ter racionamento ou vários apagões. As térmicas em quase sua totalidade acionadas. O preço da energia em patamares elevadíssimos para uma pais em que se diz de energia hidráulica, com modicidade tarifaria. Os preços não são mais altos devidos ao congelamento no valor máximo pela ANEEL. As mentiras do dia-a-dia pelos principais atores do sistema elétrico deixam os consumidores confusos. Parece até o ministro da fazenda falando de deficit orçamentário e metas de inflação. Além disso, temos o sinal económico dado erroneamente pelo Governo. Enfim, um espetáculo que deixa o BB de Paulo Bial envergonhado. Diante de tanta incerteza, só temos uma certeza que o Setor tem que passar por uma nova reforma, pois esse modelo está esgotado para o nosso pais.

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