No Capítulo I nós aprendemos que:
- Usinas “vendem” sua “garantia”, um valor que não é a sua geração de energia!
- A expansão da garantia se deu principalmente com térmicas.
- O consumo total só esteve folgado em dois períodos: 2004 – 2008 e 2014 – 2016 por conta da recessão. No resto do tempo, andamos muito próximo ao limite.
Se você quiser consultar, http://ilumina.org.br/graficos-para-nos-fazerem-pensar-e-entender-capitulo-i/
No Capítulo II, aprendemos que:
- As hidráulicas geraram acima da sua garantia física até 2014.
- As térmicas geraram abaixo de sua garantia física exceto em alguns meses de 2015.
- Como as usinas vendem a sua garantia, as térmicas, na realidade, repassaram energia hidráulica.
Se quiser consultar, http://ilumina.org.br/graficos-para-nos-fazer-entender-e-pensar-capitulo-ii/
No capítulo III:
- Antes de setembro de 2012 novas usinas térmicas eram acrescidas à oferta com aumento correspondente da “garantia física”, mas quem atendia a necessidade de kWh físico eram as hidráulicas.
- A princípio, essa estratégia permitiria oferecer energia das hidráulicas mais barata do que a das térmicas, mas, evidentemente isso não pode ser mantido por longo tempo.
- Há um mistério no ar. A intervenção da MP 579 (redução tarifária “na marra”) influenciou a operação ou não?
http://ilumina.org.br/graficos-para-nos-fazer-entender-e-pensar-capitulo-iii/
Esse é o CAPÍTULO IV
Vamos manter o suspense sobre o mistério da MP 579, porque esse assunto é a janela do mundo físico para o mundo político e, antes de desvendar a artimanha, é preciso examinar o que ocorre com esse certificado de garantia física a nível das usinas.
Vamos começar por usinas do Rio São Francisco. Linha amarela: Garantia Física. Linha Azul: Geração Real.



- Como se pode ver, as usinas do Nordeste geraram abaixo de sua garantia física na maioria do tempo e mesmo antes da alegada “crise hídrica”.
- Como elas comercializam a garantia física e não sua geração, como é feito esse acerto de contas?
- O volume de déficit é muito grande e, se elas tivessem que adquirir toda essa energia no mercado, correriam um enorme risco de falência, dada a instabilidade de preços (que vamos abordar).
Nesse ponto, precisamos entender que inventaram um “condomínio” das hidráulicas. Trata-se um mecanismo financeiro que mimetiza uma realocação de energia (MRE). Essa conta faz com que usinas com saldos de geração sobre sua GF cedam essa geração para as usinas com débito.
Por exemplo, a usina de Jupiá no Rio Paraná apresentou saldo nessa conta MRE.

Usina de Segredo no Rio Iguaçu também.

A usina Porto Primavera no Rio Paraná.

Não são apenas as usinas do Nordeste que apresentam déficits. Elas foram mostradas por serem as mais significativas.
O que se pode concluir desse mecanismo condominial? Evidentemente, além de ser uma contabilidade complexa e artificial, os exemplos mostram que essa compensação de saldos e déficits depende fortemente do sistema de transmissão para terem alguma credibilidade. Usinas com saldo podem estar localizadas a mais de 1000 km das usinas com déficit. Caso haja limitações de transferência de energia por insuficiência de transmissão, o MRE passa a ser apenas uma contabilidade virtual que não tem validade no mundo físico. Esse é um dos riscos da modelagem.
Portanto, a situação do sistema de transmissão não influencia apenas na entrega da energia ao consumidor, como ocorre nos sistemas de base térmica. Aqui, a rede afeta as hipóteses por trás do modelo comercial (!), pois esse mecanismo de compensações é dependente de transferências de energia. Sendo assim, como está a evolução dos leilões de transmissão?

Como se pode ver, os leilões têm apresentado índices de deserção cada vez maiores (o setor privado não entra nos leilões de forma crescente). Ao mesmo tempo, despenca a participação das empresas estatais.
Portanto, perguntamos: Quão válido é a contabilização do MRE no condomínio das hidráulicas?
E para terminar, mais uma vez, a coincidência da mudança de comportamento com a MP 579 de redução forçada de tarifas. Fenômeno evidentemente ligado à incapacidade financeira da Eletrobras.
Lições do capítulo IV:
- Além da questão da cobertura de garantias físicas (oferta) associadas à térmicas por parte das hidráulicas, mostrada nos capítulos anteriores, há um problema entre as hidráulicas.
- Nesse condomínio entre hidráulicas, que é feito através do MRE (Mecanismo de Realocação de Energia), a sua validade depende fortemente do sistema de transmissão.
- Como se pode ver, ao contrário do papel da rede num sistema de base térmica, o nosso sistema de transmissão está fortemente conectado à contabilidade do sistema mercantil, pois as compensações entre usinas hídricas podem ser falsas caso a rede se atrofie.
- Essa é uma característica totalmente estranha em sistemas mercantis, pois fios de transmissão não geram energia. No nosso caso, eles também não geram, mas realocam grande quantidade de energia num sistema de mais de 4.000 km de extensão. Isso não ocorre em nenhum sistema de base térmica. Esse é um dos pontos centrais do nosso sistema.