Incrível complacência – Artigo no Estadão Noite

Roberto Pereira D’Araujo – Diretor do Ilumina 

http://www.estadao.com.br/noticias/geral,incrivel-complacencia,1573497

Às vésperas do primeiro turno das eleições o Tribunal de Contas da União emite um relatório que provocaria uma hecatombe eleitoral em países com instituições mais sólidas. Aqui, parece que nada vai acontecer.

Incisivo, relata a situação quase falimentar do setor elétrico brasileiro, um dos orgulhos brasileiros no passado. O estrago joga nas costas do consumidor e do contribuinte uma dívida de R$ 61 bilhões, dinheiro suficiente para construir três usinas como Belo Monte! Essa conta ainda é parcial, pois nem a crise está resolvida e nem estão contabilizados os efeitos indiretos das ineficazes intervenções do governo, tais como perda de valor da Eletrobras e das empresas do setor. O relatório não economiza números e adjetivos. Classifica a medida provisória de 2012 para reduzir as tarifas como “precipitada”,  repleta de “equívocos e fragilidades” e responsável pela criação de “passivos públicos”. Os consumidores desconhecem a forma bizarra que se adotou para conseguir essa redução. Ela foi feita sem qualquer diagnóstico. O próprio TCU apontou erros desde 2010 que foram esquecidos.

  1. A forma “fácil” foi prorrogar as concessões e fixar tarifas quase gratuitas por usina, conceito inexistente no planeta, pois quem tem tarifa é empresa. Evidentemente, apenas a Eletrobras não conseguiu escapar do arrocho e hoje está sem recursos, de tão irrisórios os valores adotados.
  2. Um MWh chega à casa de um cidadão por R$ 200, valor alto em qualquer comparação internacional. Para conseguir essa média, as usinas da Eletrobras recebem menos de R$ 10/MWh. Alguém conhece outro exemplo de um mesmo serviço onde uns cobram R$10 e outros R$ 1000? Pois no Brasil é assim.
  3. O modelo adotado é tão absurdo que, mesmo com essa “mágica”, as empresas distribuidoras não têm como bancar a despesa. Solução? Empréstimos bancários impostos aos consumidores que, pela primeira vez na história, terão que pagar juros sobre os kWh consumidos! Segundo dados do TCU, no prejuízo, 33% serão custos bancários!
  4. São Pedro não pode se defender, mas basta dar uma olhada no histórico de afluências para ver que situações como a de 2014 já aconteceram outras vezes. Reservatórios também se esvaziam se usados além da conta. Essa é a razão que o governo escamoteia.

Por conta da eleição e da semelhança das palavras, o governo não quer ouvir falar em racionamento e nem em racionalização. Mas é perverso não informar aos consumidores que cada MWh que poderia ser economizado está custando R$ 822. Enfim, é muito estranho que justamente o tema que tem a marca registrada da presidente esteja esquecido nos debates e até nas entrevistas. O que é perigoso é que essa falta de reação mostra uma sociedade doentiamente complacente que, mesmo dispondo de tantos recursos naturais, talvez mereça pagar um dos kWh mais caros do mundo.  

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2 respostas

  1. De fato, é estranho que o tema não esteja nos debates. Mas sabe por que Roberto? Porque a culpa é de todos. Do governo FHC (PSDB) que implantou o Modelo de Mercado, origem de todos os males, e dos governos Lula/Dilma (PT) que não tiveram a clarividência nem a coragem de aplicar a proposta de campanha de 2002 (restauração responsável do Modelo de Serviço Público) e se contentaram em apenas viabilizar a continuidade do Modelo de Mercado. Está aí a razão dos problemas e, em consequência, do silêncio de ambos. Afinal, neste particular seria um sujo falando do mal lavado, ou um mal lavado falando do sujo.

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