JB26.12.97 Sexta-feira, 26 de dezembro de 1997 Rio vive Natal do blecaute Falhas na rede elétrica deixaram ruasde muitos bairros da cidade às escurasProblemas na rede elétrica da Light estragaram o Natal de muitas fam …

JB26.12.97




Sexta-feira, 26 de dezembro de 1997

Rio vive Natal do blecaute

Falhas na rede elétrica deixaram ruas

de muitos bairros da cidade às escuras

Problemas na rede elétrica da Light estragaram o Natal de muitas famílias cariocas. O calor e o aumento do consumo com as festas – que batera o recorde do ano na terça-feira, com 4.300 megawatts – provocaram blecautes em vários pontos do Rio. Na Zona Sul, ruas como Barão da Torre, em Ipanema, Avenida Princesa Isabel, em Copacabana, Inglês de Souza, no Jardim Botânico, e Marquês de São Vicente, na Gávea, tiveram problemas. Segundo a empresa, também ficaram sem luz ruas em Guadalupe, na Praça Seca, na Taquara, no Largo do Anil, em Jacarepaguá, (também na Zona Oeste), em Todos os Santos e Irajá, na Zona Suburbana, e parte de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Foram registrados, ainda, cortes de luz na Tijuca (Zona Norte) e Alto da Boa Vista. Lá, a falta de luz gerou dramas como o de Mariana Restum Antonio, 62 anos, que vive com o marido, inválido, dependente de aparelhos. “Meu marido sofreu uma brusca queda de pressão. Passamos a madrugada inteira o abanando para evitar uma desidratação grave”, contou.

Rio faz ceia de Natal no escuro

Blecautes em pontos de vários bairros transtornam comemoração dos cariocas

ALUIZIO FREIRE E LEONARDO FEIJÓ


O que era previsto, acabou acontecendo. Depois do recorde de consumo de energia elétrica registrado no Rio, na última terça-feira, quando os medidores da Light marcaram 4.300 megawatts, a possibilidade da combinação entre o calor e as festas de Natal, deixava claro que a noite de anteontem seria um teste ainda mais difícil para o sistema de abastecimento. De acordo com a empresa, o recorde não foi quebrado, mas os problemas na rede elétrica provocaram falta de luz ainda antes da hora da ceia de Natal, à meia-noite do dia 24, levando ao desespero milhares de famílias no Rio e na Região Metropolitana.

Ás 21h, na Zona Sul ruas como a Barão da Torre, em Ipanema, a Avenida Princesa Isabel, em Copacabana, a Rua Inglês de Souza, no Jardim Botânico, e a Rua Marquês de São Vicente, na Gávea, já estavam sem energia elétrica. Em Guadalupe, na Zona Oeste, o fornecimento foi cortado à 0h15, sendo restabelecido 45 minutos depois. Segundo a Light também ficaram sem luz as ruas Mário Barbeto, na Praça Seca, Rua Pastorinha, na Taquara, Rua Pierre La Place, no Largo do Anil (em Jacarepaguá, também na Zona Oeste), ruas Soares e São Jonas, em Todos os Santos (Zona Suburbana), Honório Almeida, em Irajá, (Zona Suburbana) e parte do município de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Foram registrados cortes também na Tijuca (Zona Norte) e Alto da Boa Vista (Zona Norte).

A queda já era esperada. Na tarde do dia 24, moradores de alguns bairros protestaram prevendo que os transtornos continuariam, mas pouco adiantou. A Light diz que os defeitos nos transformadores são provocados pelo aumento no consumo no verão – segundo a empresa de 30% – e que está providenciando a substituição das peças por outras mais potentes. Como o sistema que monitora automaticamente os blecautes ainda nao funciona, a empresa diz que depende das queixas dos consumidores para fazer os consertos. Na noite de Natal, 45 equipes de emergência estavam trabalhando nos plantões para o toda a cidade.

A sobrecarga, segundo a empresa, atingiu 15% dos transformadores da rede este ano. No total, 1.350 foram trocados, e a meta é substituir mais 4 mil em três anos. “É inviável trocá-los em menos tempo”, afirma o assessor de imprensa da Light Alexandre Coimbra. Os transformadores recebem a carga de 13 mil volts de energia enviada pelas subestações e a redistribuem para a rede de 110 volts/220 volts.

A Light em números 3 milhões de clientes

6.600 funcionários

150 equipes de plantão, com dois técnicos em cada, nas festas de fim de ano (45 equipes para emergências)

255 mil quilômetros de cabos e 60 mil transformadores de energia

30 municípios atendidos (Rio, Nova Iguaçu, Nilópolis, São João de Meriti, Belford Roxo, Japeri, Queimados, Duque de Caxias, Seropédica, Itaguaí, Paracambi, Miguel Pereira, Paty do Alferes, Paulo de Frontin, Vassouras, Marquês de Valença, Carmo, Sapucaia, Três Rios, Paraíba do Sul, Piraí, Barra do Piraí, Rio Claro, Barra Mansa, Volta Redonda, Pinheiral, Penedo, Quatis, Levi Gasparian e Mendes)

Corte de luz desativou aparelhos de doente

Para alguns cariocas, passar o Natal à luz de velas não foi nada agradável. Obrigados a suportar o calor e a escuridão nas ruas, moradores da Tijuca, Alto da Boa Vista e Jacarepaguá passaram o dia de ontem revoltados com a Light. Além dos estragos no ânimo para a festa e na geladeira, outros transtornos deixaram as pessoas desesperadas com o serviço da empresa.

Mariana Restum Antonio, 62 anos, que vive com o marido inválido da mesma idade numa casa no Alto da Boa Vista, era uma das mais inconformadas. Ontem, enquanto entregava os presentes de Natal para os netos, ela ouviu a explosão que deixou todo o quarteirão às escuras. Seu marido, que sofreu um derrame e perdeu os movimentos há cinco anos – depende de aparelhos e a assistência de uma enfermeira – começou a passar mal por causa do calor.

“Meu marido sofreu uma queda brusca de pressão. Passamos a madrugada inteira o abanando para evitar uma desidratação grave. Liguei para a Light e falei que, com uma pessoa inválida dentro de casa, precisava no mínimo de uma previsão de quando a luz seria restabelecida. Mas eles disseram que era impossível prever isso”, contou. “Vou ser obrigada a instalar um gerador aqui em casa porque não posso confiar nesse serviço”, esbravejou

A falta de luz que atingiu a casa de Mariana, na Avenida Édson Passos, apagou também algumas residências das ruas vizinhas. Tudo começou por volta de meia-noite e meia, quando um transformador explodiu na Rua Raimundo de Castro Maia. Assustados, os moradores foram para a rua e ficaram impressionados com o início de incêndio no transformador. Resolveram então ligar imediatamente para a Light. Em seguida, aconteceram mais dois estrondos que deixaram as pessoas assustadas. “Nossa ceia foi à luz de velas, mas não foi nada agradável. Meu filho, de 4 anos, começou a passar mal, assustado com as explosões”, contou a representante comercial Martha Pinho.

Transformador – Segundo os moradores, uma equipe da Light passou pelo local às 5h30 e foi embora sem nada fazer – apesar de estar saindo faíscas do transformador e dos protestos indignados das pessoas. Para a dona de casa Rachel Murta, a empresa já conhece os problemas naquela região. “Qualquer vento mais forte a gente fica sem luz. Esses blecautes por aqui estão virando rotina. Por duas vezes fizemos um abaixo-assinado e enviamos para a Light. Mas nunca obtivemos resposta”, reclamou. Só ontem, às 12h37, um caminhão da empreiteira que atende à Light esteve na rua para trocar o transformador e restabelecer a energia para alívio dos moradores.

O prejuízo causado pela falta de luz foi irrecuperável para muita gente. “Quando abri a geladeira, estava tudo estragado”, constatou desolada Martha Pinho. Ela não foi a única a perder. A programadora visual Carla Castello Branco, 23 anos, contou que a tia, que mora em Jacarepaguá (Zona Oeste), teve que viajar às pressas para a casa de amigos em Nova Friburgo. “Ela estava com a nossa ceia pronta, mas estragou tudo”, disse desapontada.

Explicações – A superintendência da empresa não foi encontrada até a tarde de ontem para explicar tecnicamente por que a rede e os próprios transformadores – que são aparelhos sujeitos a queimas – estariam trabalhando em um limite tão crítico e frágil, ao contrário dos anos anteriores. Segundo a assessora de imprensa Fátima Vilas os problemas constantes estariam sendo causados pelo aumento de consumo registrado durante o verão – a empresa calcula um acréscimo de até 30%. Na terça-feira, segundo dia mais quente do ano, a empresa bateu o recorde de fornecimento de energia com 4.300 megawatts.

Moradores ‘seqüestram’ técnicos

O desespero pela falta de luz se voltou contra os funcionários da Light. Diante de seguidas falhas no sistema de fornecimento de energia, vários técnicos que atendiam às chamadas foram ameaçados. A moda do protesto variou entre simples barricadas de caixotes nas ruas até ao perigoso limite de fazer reféns os que chegavam nos carros de emergência técnica da empresa.

Na terça-feira, moradores do condomínio Village, na Ilha do Governador (Zona Suburbana) seqüestraram dois funcionários da Light. Feitos reféns, só foram liberados depois que o fusível do transformador foi trocado e a luz religada. Mas além da nova onda, o antigo problema do poder dos traficantes de drogas se repete.

Enfrentada por garis da Comlurb e outros funcionários de empresas de serviços públicos em áreas de tráfico de drogas, a violência continua a perseguir as empresas, agora privatizadas, nos morros da cidade. Em uma favela da Ilha do Governador, traficantes expulsaram os técnicos de rede da área e ainda retiraram a chave da ignição da viatura, como revelou a assessoria da empresa.

“Diante de casos como estes é que não subimos os morros à noite”, avisa Alexandre Coimbra. Com a norma, comunidades mais humildes como a maior favela carioca, a Rocinha – que já ganhou o status de bairro – passaram o Natal sem luz. No Vidigal (Zona Sul), Morro dos Macacos, em Vila Isabel (Zona Norte) e no Morro do Tuiuti, no Engenho Novo (Subúrbio da Central) os transformadores apresentaram problemas e a escuridão perdurou até ontem de manhã.

Um número feito para insistentes

O aumento no consumo de energia é o principal argumento da Light para explicar os chamados constantes para executar reparos na rede. Segundo o gerente regional da Diretoria de Distribuição, José Marcio Ribeiro, a empresa, que foi privatizada há cerca de oito meses, está conquistando maior credibilidade dos usuários. “Estimamos que houve um crescimento de cerca de 30% nessa procura pelos nossos serviços. Isso se deve à resposta que damos aos chamados”, afirmou. Mas nem todos que recorrem ao número 196 interpretam assim.

Maria Cristina Rodrigues, síndica de um prédio de quatro andares na Rua General Espírito Santo Cardoso, na Tijuca (Zona Norte), está tentando falar com a empresa há três dias. “Só anteontem, às 21h30, consegui, finalmente, registrar o pedido”, disse. Ontem, por volta das 12h10, dois funcionários da empresa foram lá. Disseram que o cabo da rede precisava ser trocado, porque estava prestes a causar um incêndio, e sugeriram que a síndica procurasse uma empresa particular para fazer um novo projeto de aumento no fornecimento de energia. Segundo os técnicos, houve uma sobrecarga no prédio.

O economista Carlos Eduardo Martins, 53 anos, morador de Laranjeiras (Zona Sul), resolveu procurar outro caminho para resolver seu caso. “Aqui falta luz duas vezes por dia. Agora são interrupções curtas, mas já ficamos até oito horas às escuras. Cansei de ligar para 196 e não ter resposta”, conta. Na semana passada, ligou para a empresa e quis falar com a diretoria. Foi atendido por um engenheiro que no dia seguinte ligou de volta. “Ele prometeu avaliar o que estaria causando essas interrupções. Eu quero, no mínimo, uma informação precisa”, disse. Ontem, o JB ligou, à tarde, três vezes para o serviço, e a média de espera para atendimento foi de dois minutos.




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