Liquidação no setor elétrico – Estadão – 07/03

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,uma-belo-monte-a-espera-de-comprador,10000019887

Análise do Ilumina:

Estamos assistindo a mais uma jabuticaba brasileira. Um governo dito de esquerda, eleito com compromisso de atender as demandas populares, de viés nacionalista, está realizando a maior liquidação de ativos brasileiros no setor de energia. Realmente, …inédito!

Já que a reportagem analisa os meandros do problema tentando achar as causas, mais uma vez o Ilumina precisa mostrar dados concretos para relativizar o que vem a ser a “grave crise hídrica”, citada na reportagem.

Acima os dados relativos à energia natural (afluências traduzidas em MWmed) das quatro regiões do sistema de todos os anos do histórico.

Como se pode ver, apesar de 3 dos últimos 4 anos terem sido abaixo da média, não dá para chamar de “grave” crise. Os anos que têm afluências menores que 2014 têm inclusive anos seguidos! Portanto, nada de surpresas.

Para explicar como chegamos a esse ponto, é preciso ir a fundo. Alguma outra coisa provocou o esvaziamento dos reservatórios e a necessidade de uso de térmicas caríssimas fazendo a tarifa brasileira ser uma das mais altas do mundo. Há responsáveis e São Pedro não é um deles.

Temos que repetir: Caixas d’água se esgotam de duas maneiras. Ou não entra água ou se abusa do estoque.

Por incrível que pareça, a imprensa ainda não se convenceu que houve uma gestão da reserva e um tipo de expansão do parque gerador que levou à situação atual. Incluímos, mais uma vez, o gráfico abaixo, que exibe a participação da geração térmica no atendimento à carga.

Como se pode notar, há uma suspeita coincidência entre o anúncio da medida provisória 579 (transformada em lei 12783/2013) e o uso intensivo de térmicas (de uma média de 9%, passam a 23%).

Os anos de 2009 a 2011 foram acima da média, mas, basta usar a água que chega sem se preocupar com a reserva? Outro gráfico já mostrado por nós, torna evidente que estávamos esvaziando reservatórios. Ele mostra a redução crescente de reserva em relação à carga, que cai do equivalente a 4 meses para 1 mês.

Mas, será que ninguém no governo fez essa conta? Claro que o ONS sabia disso. E por que a situação não se reverteu antes?

A razão está em mais uma bizarrice. O governo “de esquerda” realizou um leilão de expansão do parque gerador em 2008 que contratou muitas térmicas a óleo combustível e diesel. Mas, como sendo tão caras elas ganharam a contenda? Mais uma jabuticaba! Ganha-se o leilão por um subjetivo Índice Custo Benefício e não por preço. Coisas da adaptação mercantil feita pelo nosso governo de “esquerda”.

Ora, quando você tem muitas usinas caras contabilizadas na oferta, por razões econômicas elas não geram, e, na realidade, estão vendendo energia das hidráulicas.

Isso pode ser verificado pelo gráfico abaixo, que mostra o excedente de geração das hidráulicas em relação à sua garantia física.

Simples! Quando isso acontece, você esvazia os reservatórios.

Portanto, aí está a origem da grave crise de gestão que levou o setor elétrico a esse cenário pré-falimentar. As bandeiras tarifárias são uma absurda sobretaxa para os consumidores que agora têm que pagar por erros do governo. Mesmo com a imposição de tarifas irrisórias à Eletrobras, as tarifas já causam sérios índices de inadimplência.

É evidente que, tendo que pagar tarifas mais caras do que exemplos de sistemas parecidos com o Brasil, a demanda se retrai e a receita das empresas diminuem. Vejam abaixo que a carga brasileira está estagnada desde junho de 2014.

Portanto, o quadro é o pior possível. Receitas decrescentes, empresas com dificuldades financeiras, tarifas explosivas, judicialização completa das relações setoriais e Eletrobrás sem recursos. Difícil arquitetar uma crise dessa envergadura.

Pior! Dado o desinteresse do Ministério Público e da própria imprensa que não realiza análises mais aprofundadas, parece que vai ficar tudo por isso mesmo.

 


 

Uma Belo Monte à espera de comprador

RENÉE PEREIRA – O ESTADO DE S.PAULO

06 Março 2016 | 21h 14 – Atualizado: 06 Março 2016 | 21h 14

 

Um ano depois de enfrentar uma grave crise hídrica e financeira, o setor elétrico brasileiro vive uma forte onda de ativos à venda. Pelo menos dez grandes grupos nacionais e estrangeiros, que incluem Duke Energy, Odebrecht, Petrobrás, Abengoa e Queiroz Galvão, tentam encontrar compradores para usinas, parques eólicos, linhas de transmissão e comercializadoras. Apenas na área de geração, a capacidade instalada à venda equivale a quase uma Hidrelétrica de Belo Monte, de 11.233 megawatts (MW).

O movimento de venda no setor é reflexo de uma conjunção de fatores. Um deles é a fragilidade da atividade econômica, que no ano passado recuou 3,8% e ajudou a derrubar o consumo de energia em 2,1%. Além disso, o crédito se tornou mais restritivo e caro, especialmente para empresas envolvidas na Operação Lava Jato, que ficaram com caixa debilitado para fazer frente a investimentos. Outro fator envolve a saúde financeira de companhias estrangeiras em suas matrizes, o que tem obrigado as subsidiárias a diminuir suas estruturas.

Apesar do cenário econômico e político desfavorável, consultores e advogados afirmam que há interessados nas ofertas do setor. Com a desvalorização do real, os ativos brasileiros ficaram muito baratos para os estrangeiros, que estão em negociação com várias empresas. Alguns já atuam no Brasil, como é o caso da canadense Brookfield, da franco-belga Engie (ex-GDF Suez), da italiana Enel, da francesa EDF e das chinesas State Gride e China Three Gorges (CTG). Outros ainda estão sondando o mercado brasileiro e avaliando as possibilidades de entrada no País.

 

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2 respostas

  1. Roberto,

    Arquitetar uma crise dessa envergadura não foi difícil para FHC, Lula e Dilma, bastou apenas adotar o modelo atual do setor elétrico, atrelado à estrutura formada pela ANEEL, EPE e ONS.
    O difícil vai ser o setor elétrico sair dessa enrascada mantendo o modelo vigente.

  2. O erro começou com leilões que contrataram térmicas com custos operacionais absurdos adotando a hipótese absurda de que elas não seriam operadas.

    Ao constatarem o erro ( que diga-se de passagem vamos carregar por mais alguns anos!), nossas “otoridades”elétricas resolveram colocar o erro debaixo do tapete esgotando os reservatórios, apostando que São Pedro os ajudaria.

    Infelizmente para nossas “otoridades” São Pedro não compactua com a incompetência.

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