Comentário: Quando um setor econômico resolve vender um insumo ao invés de fabricar o produto que utiliza aquele insumo, a lógica empresarial está de cabeça para baixo. A notícia abaixo é apenas mais um sintoma de doença grave do nosso mercado.
Além das óbvias falhas de gestão, é preciso salientar que, enquanto não compreendermos que o nosso sistema tem singularidades cujas adaptações de mercados de base térmica criam ambientes de situações ridículas, vamos continuar em crise permanente.
Para constatar que estamos com um enorme problema na base do modelo, basta fazer uma comparação entre o nosso mercado, com o PLD e o Elspot do NORDPOOL, mercado entre Suécia, Noruega, Finlândia e Dinamarca. Esse mercado negocia energia diariamente negociando cerca de 30 GW médios por mês. O gráfico abaixo mostra o histórico da relação PLD/Elspot.

O sistema Elspot não é fisicamente tão distinto do nosso, pois também é hidrotérmico. Portanto, o que deveríamos perguntar é: Como dois mercados de energia podem apresentar preços tão díspares? O PLD brasileiro em Euros, chega a valer 7% do Elspot e, subitamente, alcança 200%, 400% e até 1100% como agora.
O que estamos esperando para fazer um diagnóstico profundo? A morte do doente?
Para contornar os prejuízos causados pela queda na produção em razão da demanda fraca, empresas com alto consumo de eletricidade, como siderúrgicas, cimenteiras e papeleiras, estão vendendo o excedente de energia no mercado de curto prazo —e lucrando com isso.
Os preços de energia no mercado à vista estão tão altos —R$ 822 o MWh (megawatt-hora)— que algumas dessas empresas, chamadas de eletrointensivas, preferem deixar de produzir para vender o insumo.
O professor Ildo Sauer, do IEE (Instituto de Energia e Ambiente) da USP (Universidade de São Paulo), calcula que uma fabricante de alumínio lucre o dobro vendendo a energia no mercado à vista do que produzindo.
“Ao parar de produzir, ele deixa de ter o custo de operação e ainda vende um produto que vale o dobro do que o seu”, diz o professor.
O maior expoente desse movimento é a Votorantim, maior cimenteira do país.
O excedente de energia ficou tão grande que a empresa se tornou participante assídua dos leilões da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).
No pleito mais recente, em 30 de abril, a empresa vendeu 327 megawatts, 16% de toda a oferta do leilão. A venda renderá R$ 4,4 bilhões nos próximos cinco anos.
A companhia afirma que sempre oferecerá energia ao sistema quando houver excedente, seja nos leilões ou no mercado à vista.
Parceira da Votorantim na geração, a Alcoa, fabricante de alumínio, é outra empresa que tem aproveitado as oportunidades atuais.
A usina de Barra Grande, na qual ela detém participação de 42%, disponibilizou 50 MW no leilão.
Segundo a empresa, a estratégia faz parte de um ajuste global da companhia.
A siderúrgica Usiminas já até contabilizou as vendas de energia em seus balanços. No primeiro trimestre, elas somaram R$ 75 milhões e elevaram o lucro para R$ 222 milhões. “A venda de energia é oportunista, mas não vamos abandonar a vocação da Usiminas”, afirmou seu presidente, Julián Eguren.
CENÁRIOS
Ricardo Savoya, diretor da consultoria Thymos, afirma que o movimento é fruto da falta de competitividade das empresas e prevê um cenário ainda pior em 2015.
“A situação é preocupante para as empresas que estão em Camaçari [na Bahia], como Braskem e Gerdau.”
Essa empresas têm contratos com a Chesf por R$ 110 por MWh, que se encerrarão ano que vem. “A competitividade delas vai acabar. O que eles poderão fazer é vender o resto de energia que possuir.”