O Bode incomoda

O artigo publicado no Globo (7/4) (http://ilumina.org.br/tiraram-o-bode-do-sofa-artigo-o-globo/)

incomodou o ONS que nos honrou com uma resposta na seção de cartas dos leitores (8/4). No jornal, por questões de espaço, não pudemos responder às contestações de modo completo. Aqui, logo após a carta do Dr. Hermes, mostramos a nossa visão.


A resposta do ONS:

Sobre o artigo “Tiraram o bode do sofá” (Roberto Pereira D’Araujo, 7/4), cumpre-nos expor equívocos conceituais: 2011 foi excepcional do ponto vista energético, não havendo necessidade de geração térmica. Em 2012, a região SE/CO precisou atender ao Nordeste e ao Sul devido a hidrologias críticas nessas regiões. Foi necessário elevar a geração térmica a partir de outubro, chegando em novembro com o armazenamento de 40% da capacidade dos reservatórios, atendendo a critérios de segurança estabelecidos pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico – CMSE.

Em 2014 começa um período desfavorável, culminando com as piores afluências nas regiões SE/CO Oeste e Nordeste. Em 2014 e 2015, este cenário conduziu à plena utilização da geração térmica, representando 20% da carga. Além disso, foram tomadas outras medidas de restrição de uso da água para reduzir a defluência das usinas hidrelétricas de cabeceira, preservando seus estoques.

O autor engana-se ao analisar a energia total afluente dos rios do país, em vez das bacias onde existem reservatórios de regularização.  De que adianta chover muito em bacias sem reservatórios? As bacias do Rios Grande, Paranaíba e São Francisco, por exemplo, respondem por 61% da capacidade de armazenamento de água do país para a produção de energia elétrica.  Nelas, de 2012 a 2015, houve a pior seca de 85 anos. Os relatórios dos sumários executivos dos programas mensais de operação disponíveis em www.ons.org.br permitem concluir que São Pedro teve, sim, responsabilidade, principalmente pela distribuição espacial e irregular das chuvas.

Hermes J. Chipp

Diretor Geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico


 

Aqui, podemos examinar ponto a ponto:

  1. Para se ter uma ideia das incertezas da operação do sistema brasileiro que precisa decidir a cada tempo se guarda ou usa água para gerar energia, a determinação da geração térmica necessária se dá em função de modelos de simulação que usam parâmetros bastante discutíveis. Dois deles são o “custo do déficit” e a “taxa de desconto do futuro”. Basta mudar esses valores e, tanto a política de operação quanto os valores comerciais do modelo vigente se alteram. O governo sabe que está preso a interesses comerciais, não faz esse estudo a fundo, e, na realidade, o ONS é vítima de dessa política.
  2. Os dados do ONS demonstram que, desde 2009, o sistema de reservatórios como um todo não enche. Muito ao contrário, até setembro de 2012, foi priorizada a geração hidroelétrica. A prova disso é que, nesse período, o conjunto das hidráulicas geraram 150 TWh acima de sua “garantia física”, sendo que, em alguns meses, essa superação arriscada atingiu 30%! Ver gráfico com DADOS OFICIAIS!

  1. Se o sistema não enche, qualquer usina a fio d’água tem grande valor. Portanto, a argumentação de que chuva em usinas sem reservatório não ajuda é muito contestável. A única dúvida que permanece é saber se temos transmissão suficiente para a transferência de responsabilidade de geração para essas usinas aliviando as com reservatórios. Pelos leilões de transmissão vazios que estamos registrando no Brasil, permanece a dúvida.
  2. Quando o sistema integrado mostra o esvaziamento constante e térmicas de alto custo são usadas por muito tempo, há fortes indícios que o custo marginal médio se encontra muito acima do custo marginal de expansão, indicando que o sistema necessita novas usinas. Esse é o critério do próprio governo. Ao invés de reconhecer, cria encargos através de leilões de energia “de reserva” que, na realidade, “tapam o buraco” das “garantias físicas” superavaliadas.
  3. Com todo o respeito, numa realidade onde as alterações climáticas são cada vez mais evidentes, culpar São Pedro (distribuição espacial e irregular das chuvas) é inútil. Para o sistema interligado, o histórico de energias naturais (afluências transformadas em energia), mostra pelo menos 9 anos piores do que o período citado pelo ONS.
  4. Um dos mais lamentáveis sintomas percebidos com essa resposta do Dr. Hermes é a evidência do péssimo efeito da fragmentação de responsabilidades que foi implantada no setor elétrico brasileiro. Equívocos do planejamento caem nas costas do ONS.
  5. Entretanto, também chama a atenção da ausência de posicionamento sobre a injustiça das bandeiras tarifárias na resposta.

 

 

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4 respostas

  1. Roberto,

    Na nossa opinião, o ONS não pode ser considerado como vítima visto que ele junto com a ANEEL e a EPE, fazem parte da estrutura do modelo do setor elétrico vigente que é totalmente inadequado, as verdadeiras vítimas são os consumidores cativos.
    Quanto à operação no período 2009/2012, além da questão das usinas hidrelétricas terem gerado acima das suas garantias física, levantamos a seguinte questão, as usinas térmicas previstas para entrar em operação no referido período e aquelas que entraram em períodos anteriores estavam gerando no mínimo o valor esperado determinado no horizonte da expansão?

    1. José Carlos:

      Infelizmente não temos a geração por usina, mas queremos lembrar que nesse período citado o PLD esteve lá embaixo até setembro de 2012.

  2. Boa tarde. A posição do Ilumina é então, que não deveria haver esse repasse pro consumidor? Se não fosse pelas bandeiras, de que outra forma se pagaria a conta das térmicas?

    Aliás, me lembro de uma resposta que tive, aqui mesmo, que a conta das distribuidoras fechou 2015 ( se me lembro bem do número) em 11 bi. Qual parte disso foi paga?

    Não estou dizendo que concordo com os consumidores pagando o tempo todo por erros de planejamento, ou negligência, ou decisões tomadas de forma errada/precipitada ou o que mais possa ser. Minha dúvida é puramente para entender um pouco melhor o problema.

    Obrigado desde já.

    1. Rodrigo;

      Se você observar o gráfico da nossa resposta, vai ver a área rósea onde as hidráulicas geraram muito acima da sua garantia física. Nesse período, o preço de referência no mercado livre foi muito baixo. Isso significa que, sob o modelo atual, nos períodos de abundância hidrológica, a vantagem de preço baixo é capturada nesse mercado onde o consumidor cativo está ausente. Assim, por incrível que pareça, os períodos de “vacas gordas” não ajudam nada os períodos de “vacas magras”. Pior do que isso! Nós já tivemos um mecanismo que fazia essa compensação. Chamava-se CCC do sistema interligado. Todo ano se pagava uma “complementação térmica” fixa, mesmo que ela fosse menor naquele ano. Isso fazia que tivéssemos um fundo para pagar a diferença quando o custo era maior. Isso foi destruído em 1995.
      Além desse fato, se os reservatórios estão se esvaziando mesmo sob hidrologias que não são uma desgraça, estão faltando usinas. A garantia está superavaliada.
      Sobre a conta das bandeiras, ela estava deficitária em aproximadamente R$ 1bi/mês. Isso ainda vai aparecer nas revisões tarifárias das distribuidoras.

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