O banco J. P. Morgan voltou seu ventilador na direção do Brasil. Bastou um relatório seu para a bolsa cair, o dólar subir e o tão venerado índice risco país disparar. Para quem achou que “os fundamentos da economia brasileira” estavam “sólidos” graças à obsessão pelo superávit primário, foi uma grande decepção.
Mas, quem é o J. P. Morgan? Que credibilidade tem esse banco? Qual teria sido a posição desse poderoso grupo em relação à maior fraude e falência da história americana, o caso Enron. Segundo New York Times de 5 de fevereiro de 2002, o J. P. Morgan Chase estava sendo processado por várias companhias de seguro americanas por práticas contábeis que “esconderam” débitos da Enron. Segundo Alan Levine, advogado de seguradoras, “o Morgan Chase camuflou deliberadamente um empréstimo à Enron sob forma de transação de uma commodity, para perpetuar uma fraude”. Segundo ele, o banco fez com que os débitos da Enron parecessem menores do que seriam na realidade. A quantia da suposta fraude pode ter chegado à US$ 8 bilhões, segundo um Comitê do Senado criado para investigar “os complexos arranjos financeiros que fizeram a Enron aparentar riqueza, quando, na realidade, estava afundada em dívidas”.
Entretanto, independente da história pregressa do Morgan, seu diagnóstico é bastante pertinente: “O crescimento atual permanece incerto, como ficou evidenciado por alguns sinais negativos sobre a produção industrial do país em fevereiro, o que aumentou as dúvidas sobre a consistência dessa recuperação”
O que o setor elétrico tem a ver com tudo isso? O que o ILUMINA tem a ver com isso? É fácil entender. Apesar de que a opinião do Morgan não ter passado de um susto, os nossos analistas econômicos ficaram em polvorosa e já dispararam suas colunas. A da toda poderosa Miriam Leitão do Globo, como sempre, ataca gastos públicos diversos e, lá no meio do texto, vem a frase que nos deixa preocupados:
”Isto sem falar no problema das estatais que apresentaram déficit no começo do ano. O dado de março é esperado com atenção. Se elas continuarem na toada em que estavam nos primeiros dois meses, podem não atingir a meta de superávit de 0,70%.”
Um pequeno e sutil detalhe. As estatais não apresentaram déficit. Elas não conseguiram fazer o superávit programado para o início do ano, o que é bem diferente.
Além disso, é óbvio que as estatais, pelo menos as do setor elétrico, não iriam conseguir fazer superávit. O motivo é que, em 2004, mais 25% das suas receitas, embutidas na conta de luz, foram substituídas por receitas de empresas privadas por conta da descontratação de energia arquitetada no modelo mercantil, aquele do apagão. Uma espécie de “tiro no pé” que não se desarmou. Se essa troca ainda beneficiasse o consumidor, mas é o contrário. São energias mais caras. Porque os colunistas não escrevem sobre isso?
Portanto, é essa sutil e depreciativa referência às estatais que preocupa o ILUMINA. Será que teremos que enfrentar, mais uma vez, a poderosa mídia impressa e televisada fazendo campanha contra as empresas públicas?
Analisando o que ocorreu desde o racionamento, pouca coisa mudou. Ninguém foi responsabilizado, contratos lesivos ao interesse público foram preservados, a tarifa de energia elétrica continua subindo acima da inflação, apenas grandes consumidores conseguem descontos beneficiando-se de um sistema mercantil que permanecerá talvez mais forte ainda, usinas hidroelétricas foram concedidas a produtores independentes que usarão essa energia em benefício próprio ou em negócios exclusivamente privados, continua-se a pagar por térmicas pré-históricas como seguro, e ninguém sabe o que fazer das térmicas do PPT. Nesse cenário, certamente as empresas públicas continuam de mãos atadas e pagando o pato da aventura mercantil. Logo serão taxadas de ineficientes.
Enfim, a ideologia da privatização dos serviços de energia elétrica não acabou. Como um camaleão, apenas se camuflou, mudou de forma. Seus arautos são os mesmos e podem estar apenas hibernando. Aos poucos, voltarão à carga.