O GLOBO 23.10.97 Márcio Moreira Alvesalves@rudah.com.br A venda de Furnas A primeira empresa do setor elétrico federal a ser privatizada é a maior de todas: Furnas. Responde por 69% da energia consumida nas regi&ot …

O GLOBO 23.10.97






Márcio Moreira Alves

alves@rudah.com.br

A venda de Furnas

A primeira empresa do setor elétrico federal a ser privatizada é a maior de todas: Furnas. Responde por 69% da energia consumida nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, inclusive 90% da energia do Rio de Janeiro e 100% da consumida em Brasília. Paga 130 milhões em impostos à cidade e ao Estado do Rio de Janeiro, que, por sediarem a empresa, acrescentam cinco a seis bilhões ao seu PIB. É, portanto, fundamental para a economia fluminense.

Os setores especializados têm debatido intensamente o modelo de privatização de Furnas e apresentado críticas às propostas governamentais, críticas que não são respondidas a sério. Ao que tudo indica, vai valer a proposta da consultoria Coopers & Librand, favorável à divisão da empresa, e está acabado.

A Coopers & Librand acabou de fundir-se com a Price Waterhouse para poder continuar a competir no mercado internacional de auditorias. As suas principais rivais também se fundiram, para continuar no jogo. Todos os dias há notícias de fusões nos diversos setores da economia mundial, dado que o tamanho das empresas é essencial para fazer em face da globalização. Em termos mundiais, Furnas é uma empresa média, menor que quaisquer das interessadas em entrar no mercado brasileiro. Apesar disso, está na ponta da tecnologia mundial de hidroeletricidade, de vez que o Brasil é o único país do mundo a ter hidroelétricas como fonte de 95% da energia que consome. Por que razões, a não ser a rapidez da venda e o embolso de prêmios de sucesso para os intermediários financeiros, se propõem dividi-la, vendendo as partes por preços que, somados, seriam inferiores ao da venda do conjunto?

O deputado Procópio Lima Neto, engenheiro, neoliberal, defensor ferrenho das privatizações, não vê razão nenhuma. Em um discurso no Clube de Engenharia, disse:

– “Furnas, detendo uma tecnologia e experiência acumulada em 40 anos de atividade, por sua posição estratégica no setor elétrico brasileiro, se mantida sua integridade como empresa de grande porte e, assim, atrativa para o capital privado, poderá, com capital democratizado e com novos sócios em novos projetos, passar por um processo inteligente de desestatização, tornando-se uma empresa ainda maior, mais ágil, mais produtiva, preparada para um novo salto de desenvolvimento do país. A primeira indagação de um empresário estrangeiro, disposto a investir num país, é ter com quem conversar. O investidor quer ter contato com uma empresa grande, que detenha tecnologicamente informações indispensáveis, experiência e credibilidade. Furnas enquadra-se nessa perspectiva de grandes negócios, de grandes parcerias na área de energia.”

Um dos argumentos ideológicos em favor da privatização das estatais é que assim se tornariam mais eficientes. No modelo proposto para a venda do setor elétrico, a geração e a distribuição seriam privatizadas. A transmissão continuaria estatal. Desta forma, uma empresa privada de geração faria um contrato com outra, de distribuição, mas, para cumpri-lo, dependeria da transmissão estatal, ineficiente por definição. Numa escala de um a dez, qual as chances que um modelo desses teria de dar certo?

Lima Neto não só propõe que se mantenha a integridade de Furnas como favorece a dispersão de suas ações, reservando-se 10% para os empregados e vendendo o resto a fundos de pensão, empresários privados e ao público, que poderia usar para a compra de parte de seu FGTS.

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Risco nuclear

Há tempos, escrevi dois artigos alertando para o risco de quebra dos padrões de segurança da usina de Angra I com a sua transferência de Furnas para a Nuclen. A energia atômica é muito mais cara que a hidroelétrica e a tarifa de Furnas bancava a diferença com subsídios cruzados. A Nuclen não tem fontes suficientes de recursos para fazer o mesmo. Como se pensava ser o risco hipotético, de médio ou longo prazos, ninguém deu bola. Depois de mim, o dilúvio, é uma frase típica da administração brasileira. No entanto, recebo notícias de problemas sérios em algumas varetas do núcleo do reator de Angra I. Estariam sendo avariadas por fricção com as grades, com risco iminente de vazamento. Todo o combustível da usina teria de ser trocado, o que já aconteceu no passado. É possível que o próprio núcleo tenha de ser substituído e não há dinheiro para isso. Não sou detetive, nem especialista no assunto. Sei apenas o que me contam. Mas sou pai e avô de cariocas. Não estou tranqüilo e não acredito nas garantias vagas e onipotentes dos sábios do Governo. A pressa que têm de vender Furnas é imediatista e não leva em consideração a segurança das populações. Ficaria mais sossegado se houvesse uma auditoria independente da usina e se a mídia do Rio e de São Paulo levantassem o assunto. Já pensaram num Chernóbil em Angra dos Reis.










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