O ILUMINA prefere ser mais cuidadoso e reafirmar que é impossível prever a duração do apagão. Não depende só da redução do consumo. Depende das afluências dos meses Junho – Dezembro.
Economista neo-liberal não pode ver uma situação de redução de oferta que quer logo implantar um mercado. Não interessa se é um serviço essencial e se essa prática viabilizaria manipulações e distorções que prejudicam o pequeno consumidor. É a fé inabalável nos poderes do Deus mercado.
Se vier, apagão terá de duas a quatro horas
SÍLVIA MUGNATTO DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Os apagões nas cidades brasileiras não serão inferiores a duas horas diárias nem superiores a quatro horas. Essa é uma das diretrizes do "plano B" que vem sendo preparado pelo governo para o caso de o atual plano de cotas de consumo de energia fracassar.
De acordo com o governo, os apagões só serão necessários se as regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste não economizarem a meta de 20% de energia e se não chover pelo menos o nível histórico no segundo semestre.
O diretor técnico da Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista, Celso Cerchiari, que é coordenador do grupo que planeja os apagões, quer submeter uma minuta das diretrizes do "plano B" à Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica, o "ministério do apagão", até o final desta semana.
Segundo Cerchiari, o apagão será ineficiente se durar menos de duas horas, porque não haverá equipes em quantidade suficiente para monitorar os sistemas.
Com mais de quatro horas diárias, os apagões estragariam os alimentos em refrigeração. Segundo Cerchiari, as metas de redução de consumo serão colocadas nas mãos das distribuidoras. Elas decidirão a melhor forma de desligar a energia, inclusive os horários, de acordo com as especificidades de cada cidade.
"Dentro do possível, elas deverão evitar cortes nos horários da ponta de consumo [entre 18h e 21h"", informou Cerchiari. "Outra diretriz é a isonomia entre os consumidores", disse. Ou seja, deverão ser feitos rodízios para os cortes de energia, dividindo as cidades em partes menores. A idéia é não cortar a energia na alta tensão (geração) para que as linhas de transmissão não fiquem inutilizadas, prejudicando o atendimento entre as regiões do país.
Serviços essenciais
Cerchiari disse que o grupo coordenado pelo ministro Alberto Cardoso (Segurança Institucional) ainda está definindo como será o atendimento aos serviços essenciais: hospitais, presídios e fornecimento de água. O diretor lembrou que o governo está organizando os apagões de maneira preventiva, mas está confiante no plano atual. "O apagão é a última medida a ser adotada", disse.
Como está o consumo
Amanhã, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) divulga o primeiro boletim sobre o plano de cotas. A Folha apurou com um integrante do "ministério do apagão" que o consumo de energia do país caiu de 56.000 MW em 24 de abril para 43.000 MW na última quinta-feira, uma redução de 23,2%. A medição foi feita no horário do pico de consumo.
Apesar de os números regionais do ONS estarem abaixo da meta de 20%, os técnicos do governo estão otimistas com a queda no consumo geral.
Segundo eles, as informações das distribuidoras mostram reduções de consumo mais próximas da meta nas cidades de São Paulo e Brasília, por exemplo.
De acordo com o ONS, as regiões Sudeste e Centro-Oeste economizaram 12,7% nos primeiros sete dias deste mês. O Nordeste, que tem a situação mais crítica, economizou 15,3% no mesmo período. Os gráficos do "ministério do apagão" mostram que os meses críticos em relação à possibilidade de apagões são setembro e outubro. Em relação às chuvas, é preciso que elas caiam principalmente sobre as cabeceiras dos rios Grande, Parnaíba e São Francisco, todas em Minas. (Folha 11/6)
Economistas sugerem mercado popular de energia
Luciana Rodrigues
Um certificado, vale ou tíquete de consumo de energia, que poderia ser trocado ou vendido entre pessoas e empresas. Quem poupasse mais, ganharia dinheiro na venda desses títulos. Já o consumidor pouco econômico teria que pagar para gastar além da cota. A idéia faz parte de três diferentes propostas para o racionamento de energia, feitas pelos economistas Eustáquio Reis, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea); Paulo Rabello de Castro, do Instituto Atlântico; e Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central.
A proposta do Ipea, que foi enviada ao Ministério do Planejamento em maio, sugere a adoção de "vales-quilowatt". A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) distribuiria à população um valor em cupons referente ao consumo que cada família poderia ter. O consumidor que gastasse além da cota teria que comprar "vales-quilowatt" de outras pessoas.
– Seria a criação de um mercado varejista de energia. Cada situação individual teria sua própria solução. Familiares e empresas coligadas poderiam trocar vales entre si sem burocracia – afirma Eustáquio, lembrando que a solução seria menos dolorosa para quem depende de energia:
– Segundo dados do IBGE, 20% das residências brasileiras são empresas domiciliares. São quituteiras, doceiras e outros que usam a energia na sua fonte de renda – diz.
A proposta de Paulo Rabello de Castro, vice-presidente do Instituto Atlântico, prevê "certificados de poupança de energia". Quem consumisse além da cota e não comprasse certificados extras, não poderia pagar a conta de luz e, assim, teria seu fornecimento cortado, só que por inadimplência.
– O governo só estabeleceria as cotas de consumo. Os preços dos certificados seriam definidos pelo mercado – diz Rabello de Castro.
O economista Gustavo Franco vai além: os vouchers de consumo de energia que constam da sua proposta poderiam ser vendidos até em bolsa de valores, com corretores e concorrência de preços.
– O mercado poderia, naturalmente, evoluir para uma bolsa de valores. Os vouchers seriam um ativo de grande liquidez – diz. (Globo 11/6)