O que eles diziam em 2001- Uma curiosidade – 27/03/14

Previsão de poucas chuvas até fim de abril aumenta risco de apagão 
Jornal “Folha de S. Paulo” – 20/03/2001


A quantidade de chuvas prevista até o fim de abril não é suficiente para evitar o risco de racionamento, informou o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).

Segundo o instituto, não deverá chover o suficiente para encher os reservatórios das principais hidrelétricas da região Sudeste _localizadas no centro-oeste e sul de Minas Gerais_ até o nível de segurança para que o país atravesse o período de seca (maio a setembro) sem risco de racionamento de energia elétrica.

“Teria de chover o dobro do normal. Não há como recuperar (o nível dos reservatórios)”, disse ontem Francisco de Assis Diniz, chefe do Centro de Análise e Previsão do Tempo do INMET. Segundo ele, esse está sendo o pior período chuvoso em 20 anos na região de Minas Gerais, onde estão os reservatórios de Furnas Centrais Elétricas.

Segundo o ministro de Minas e Energia, José Jorge, a previsão do INMET não é definitiva. “São modelos probabilísticos. Nem o setor de meteorologia pode dizer que não vai chover com 100% de certeza”, afirmou.

Para que o país atravesse o período seco sem risco de racionamento, é preciso que os reservatórios estejam com pelo menos 50% de sua capacidade. O nível atual na região Sudeste (responsável por aproximadamente 60% do consumo de energia) é de 34%


Governo divulga plano para evitar racionamento de energia em junho

HUMBERTO MEDINA
Jornal “Folha de S.Paulo” – maio de 2001

Com o objetivo de evitar o racionamento de energia elétrica a partir de junho, o governo anunciou hoje um plano, com 25 medidas, para conter o consumo e, ao mesmo tempo, aumentar a oferta em cerca de 11 mil megawatts no Sudeste e Centro-Oeste e 4.000 MW no Nordeste.

O objetivo é reduzir em 10% o consumo de energia elétrica nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. A maior parte das medidas precisa ser negociada antes de ser adotada.


Governo faz “mea culpa” pela crise energética

Presidente Fernando Henrique Cardoso admite que a crise é grave e reconhece: “Fui pego de surpresa”.

(Jornal “O Estado de São Paulo”, 14 de maio de 2001)

São Paulo – O presidente Fernando Henrique comandou, hoje, a primeira reunião da Câmara de Gestão da Crise de Energia. Ao final do encontro, anunciou que, já no mês de maio, cada órgão do governo federal terá que reduzir em pelo menos 15% o seu consumo de energia. Essa economia terá de ser maior em junho, de 25%, e, em julho, de 35%. Para que as metas sejam alcanças, FHC determinou que as atividades públicas federais sejam encerradas às 17 horas. O presidente admitiu que a crise é grave e de caráter emergencial, e reconheceu: “Fui pego de surpresa”. A partir de agora, disse o presidente, tudo o que se referir à energia terá prioridade. Segundo ele, é importante que o governo assuma suas responsabilidades e até culpas.

A reunião teria debatido um plano alternativo para substituir os “apagões” a partir de 1º de junho, segundo apurou o repórter Roberto Cordeiro. O plano consistiria no racionamento por cotas – o consumidor que ultrapassasse a meta de consumo pagaria uma energia mais cara, equivalente à comercializada no mercado atacadista, onde o megawatt custa hoje R$ 459,89. No caso de redução do consumo, o usuário receberia bônus que, por exemplo, numa redução de 50% do gasto, poderia chegar até a zerar a conta de energia. Segundo a proposta, os “apagões” somente atingiriam grandes consumidores, como as fábricas. Os consumidores residenciais seriam poupados, o que reduziria o desgaste político do governo perante a opinião pública.

No Congresso, o racionamento gera discursos como o do líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros. Hoje, ele ocupou a tribuna para cobrar a responsabilidade do governo pela crise energética, prevendo que os “apagões” deverão provocar um grande número de ações dos consumidores na Justiça. Em São Paulo, Delfim Netto disse que a “irresponsabilidade é só do governo. É a crise mais anunciada que já assistimos”. O deputado culpou o sistema de privatização do setor pela crise energética, afirmando que “não há regulação adequada e o governo atrasou, no lugar de acelerar, os investimentos nas estatais”.


PROPAGANDA ENGANOSA

(Fonte: Folha de São Paulo, 24/04/2001 – Editorial – http://www.uol.com.br/fsp)

O NÍVEL dos reservatórios das hidroelétricas das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste atingiu na semana passada seu mais baixo índice em 2001.

O nível teórico de segurança dos reservatórios é de 50% da capacidade total, mas nessas regiões a ocupação dos reservatórios está abaixo de 35%.

A recuperação dos níveis das represas já foi descartada pois seria necessário que o volume de chuvas nas cabeceiras dos rios que alimentam os reservatórios fosse pelo menos 130% acima da média histórica do período.

O governo deverá esperar até o fim de maio para avaliar os resultados do Plano de Oferta e Redução de Consumo e, com isso, decidir sobre o racionamento. Mas apenas quatro das 33 medidas do plano estão em andamento. Duas medidas importantes para elevar a geração nas usinas de Ilha Solteira e Henry Borden estão bloqueadas por conta de problemas de navegação e ambientais.

As quatro medidas que já estão em prática são: a redução de 15% do consumo em prédios públicos, a possibilidade de a indústria vender para as distribuidoras sobras de energia, a ampliação dos recursos para a troca de lâmpadas e a campanha para economizar energia nas residências.

Essas são medidas importantes, mas de efeitos limitados. O pior é que a campanha publicitária do governo mostra que a lição dos seguidos erros cometidos no setor elétrico parece não ter sido aprendida.

O governo está tentando convencer a população de que a culpa pelos problemas de energia é do crescimento econômico proporcionado pelo Plano Real. Além disso, o governo teria feito a sua parte se esforçando para ampliar os investimentos em geração e, agora, seria a vez de o consumidor economizar eletricidade.

É lamentável que a propaganda oficial tente convencer a população escondendo que o provável racionamento tem como principal causa as falhas do modelo implantado no setor elétrico, no qual não houve a devida retomada de investimentos. Rever essa modelagem para que se realizem os investimentos é a única saída para evitar que a ameaça de racionamento se repita nos próximos anos.


O apagão da inteligência – Folha de São Paulo – 14/06/2001

ROBERTO PEREIRA D’ARAÚJO
A crise elétrica brasileira ainda não  mostrou seus efeitos mais perversos. A sociedade já respondeu de maneira positiva à ordem de baixar o consumo. O triste é que essa surpreendente  reação, que só evidencia a cidadania do  brasileiro, não terá como contrapartida  nenhuma garantia quanto aos apagões. A sociedade não sabe o quão perigosa  é a travessia até o final do ano. As hipóteses quanto ao futuro das afluências  dos rios e a evolução do consumo são  suposições.

O cenário com que o ONS  trabalha -até para imaginar que o corte de 20% é suficiente- é de que as  afluências para o Sudeste serão de no  mínimo 75% da média do histórico.  Afluências inferiores não são um evento  tão raro e, se conseguirmos passar por  todo o período seco sem apagões, isso  não quer dizer que não tenhamos corrido um risco inaceitável para um serviço  tão essencial quanto a energia. Esse é a questão central da crise. Como um país em desenvolvimento, com  uma enorme população socialmente  excluída, com imensos espaços geográficos no abandono, com um desemprego crônico e com uma indústria ainda  lutando por um lugar no mercado mundial, se envolve numa aventura que termina por gerar essa crise sem precedentes?

Ao contrário do que dizem as autoridades, a implantação de um sistema  de mercado no setor elétrico é uma experiência recente no mundo. O velho e  testado conceito do serviço público é, na  realidade, a regra no mundo elétrico. O  modelo de mercado é a exceção.

Outra desinformação é a noção de  que, no mundo desenvolvido, os sistemas de produção de energia elétrica são  privados. Apenas quatro países desenvolvidos têm seus sistemas totalmente  privatizados: Reino Unido, Espanha, Japão e Bélgica. A maioria tem sistemas  mistos. Poucos adotaram o conceito de  desregulação. Os EUA, que têm sistemas regulatórios independentes em cada Estado, mostram um recuo tático na  direção contrária à liberalização. Como  o Brasil entrou de cabeça em uma experiência cujo funcionamento ainda está  em teste? Como o Brasil implanta o sistema em apenas cinco anos, quando o  Reino Unido, modelo inspirador, levou  15 anos para completar o processo? Antecedendo o apagão, infelizmente  “apagou-se” a inteligência brasileira.  Preferiu-se importar um modelo que  nada tem em comum com o Brasil. Desprezou-se toda a experiência genuinamente brasileira de décadas de planejamento, construção e operação de um  sistema hidrelétrico de grande porte.

Apesar da ladainha anunciando o fim  da energia barata no Brasil, ainda existem projetos hidrelétricos extremamente interessantes para serem construídos. Infelizmente, com as alterações  feitas no setor, esses aproveitamentos  foram atrasados e estão concedidos a  grupos privados que, incentivados pela  legislação, não pretendem oferecê-los  ao serviço público. Mesmo outros projetos que apontam para um custo similar ao do das térmicas a gás têm pouco  impacto na balança comercial. Empregam intensivamente e terão vida útil  bem superior. Mas caso a bomba-relógio da liberação do mercado em 2003  não seja desarmada, os preços subirão. Ninguém em sã consciência é contra  as usinas a gás. Afinal temos o gás e precisamos de energia. Mas quanto custará? Poderemos pagar? Será que uma família que consome 200 kW ao mês e vive com dois ou três salários mínimos  pode suportar uma energia que será cotada em dólar? Parece não haver saída.  Verdade? Não.Um dos pontos fortes da metodologia  brasileira na operação do sistema é a engenhosa complementaridade entre térmicas e hidráulicas na composição da  energia garantida. Enquanto o sistema  brasileiro tiver predominância de fontes  hídricas, as usinas térmicas terão de se  submeter a um padrão de complementaridade. Quando elas operam de forma  integrada ao sistema, seu custo cai vertiginosamente. E pelo simples fato de que  elas são utilizadas apenas quando não  há energia secundária hídrica. Infelizmente, pelo tipo de contrato com o gás  da Bolívia, as térmicas serão utilizadas  “na base”, mesmo nos períodos em que  a abundância de água dispensar outra  fonte energética. Seremos obrigados a  operar contra a lógica, assumindo o aumento dos custos decorrentes.

A saída está, mais uma vez, na nossa  geografia. Os rios brasileiros, “domesticados” pelas usinas hidráulicas, oferecem um precioso subproduto: uma  enorme energia secundária, praticamente gratuita, uma espécie de brinde  que acompanha o prato principal, a  energia garantida. Agora estamos sem  ela, pois o que o governo fez foi enganar  a sociedade entregando energia secundária -e portanto interruptível- no  lugar da energia garantida pela qual pagamos. As primeiras térmicas, portanto, deverão entrar para ajudar na recuperação dos reservatórios e na reconstrução da energia secundária. Quando  recomposta, essa energia interruptível  poderia ser contratualmente oferecida  às centrais térmicas a gás a um custo  quase zero. Isso compensaria o seu alto  custo. A contrapartida poderia ser a exigência de oferecer a energia resultante  dessa combinação para o serviço público licitada por tarifa.

Essa solução é o  resgate da antiga forma integrada das  térmicas, que foi desmontada na busca  de mecanismos de mercado que não  substituem a lógica. Evidentemente esse  acordo envolveria a Petrobras, a Eletrobrás e o capital privado. O prazo de recuperação dos reservatórios pode até ser compatível com os  entendimentos com outros setores da  indústria no sentido de incentivar um  mercado para o gás que dê a flexibilidade necessária à questão energética. Não  fazer esse arranjo significa implantar  um sistema de preços insuportável para  a economia brasileira. Não se trata de  uma tarefa fácil. Certamente impossível  para um governo que coloca o país ao  sabor dos humores do “mercado”, mas  perfeitamente viável para um governo  que decide os seus caminhos.


Roberto Pereira d’Araújo, 54, engenheiro, é diretor do Ilumina (Instituto de Desenvolvimento  Estratégico do Setor Elétrico).

A Califórnia é aqui; vivemos uma crise disfarçada 

LUIZ PINGUELLI ROSA 
Jornal “Folha de S. Paulo” – 01/02/2001

Parodiando a letra de uma canção do Caetano que diz que o Haiti é aqui, o Brasil vive hoje uma situação no setor de energia elétrica semelhante, em alguns aspectos, à da Califórnia. Está nos jornais que a famosa ponte de San Francisco foi apagada por uma falta de energia causada pela crise de abastecimento. Imaginem o Rio de Janeiro com o Cristo Redentor apagado por idênticas razões. É isso um exagero?

Talvez sim, talvez não. Na Califórnia, a crise se deve a uma desregulamentação malfeita, baseada na crença de ser o puro mercado suficiente para estimular os geradores independentes de energia elétrica a competir, reduzindo o preço.

Isso não ocorreu. As duas concessionárias, a Edison e a Pacific, estão atravessando dificuldades por causa do elevado preço da energia elétrica gerada. E isso a ponto de tornar economicamente inviável a própria operação. Essas empresas alegam prejuízos. O Estado e a população ficaram à mercê da crise. Entre outros fatores, contribuíram para isso a alta do preço do gás, arrastado pelo petróleo, e a preferência pelo mercado “spot”, em lugar de contratos de longo prazo. Isso aconteceu nos EUA, que tem um modelo semelhante ao do Brasil.

Quanto a nós, já vivemos uma crise disfarçada, evidente desde o famoso apagão de 1999, o qual não foi fruto de um fenômeno natural, um raio, que por azar teria caído numa subestação. Nem por culpa do então recém-criado ONS (Operador Nacional do Sistema). As causas do apagão foram a instabilidade do sistema elétrico, por falta de potência instalada, e a falta de capacidade de transmissão de energia elétrica. Essa falta vem da ausência do investimento não retomado pelo governo, já que as empresas de energia elétrica estatais foram incluídas no plano de desestatização.

O plano do governo de fazer 49 termelétricas a gás natural é um reconhecimento da crise, pois, se o mercado bastasse, os investidores estrangeiros estariam investindo no Brasil. E não só para comprar a bom preço empresas tão importantes quanto a Light, no Rio, a antiga Eletrosul, hoje Gerasul, a Eletropaulo e as companhias elétricas desmembradas da Cesp, em São Paulo. Já foi privatizada uma apreciável capacidade de geração, além de quase toda a distribuição importante de energia elétrica do país.

Mas não investiram na expansão. É preciso observar que a energia elétrica tem uma demanda crescente no país. Esse crescimento não é pequeno, como ocorre em muitos outros países nos quais o setor foi privatizado. Daí a crise. Os reservatórios de hidrelétricas no sistema interligado se esvaziaram a ponto de chegar ao ano 2000 em um nível de apenas 20% de sua capacidade, recuperado, com as chuvas do final do ano, para 30% _Deus é brasileiro, não californiano. Esses reservatórios foram feitos para acumular água por até cinco anos, para fazer frente às variações climáticas.

Entretanto gastou-se a água acumulada. Não há equipamentos de reserva suficientes para atender à demanda. Daí os apagões, não só o de 99. Há pouquíssimo tempo, ocorreu uma saída de rede de Angra 2, o que é normal, pois, pelas normas de segurança, um reator nuclear é obrigado a desligar se apontadas mínimas anomalias. Ficaram sem energia, como resultado, várias cidades do Estado do Rio, pois a saída não foi coberta pela entrada de usinas da chamada reserva girante das hidrelétricas.

O fato concreto é que, mesmo o governo vindo a público para dar estímulos aos investidores estrangeiros para a construção das usinas termelétricas, apenas a Petrobras está tomando as providências efetivas para fazê-las.

Apenas 14 das 49 programadas estão sendo concretamente providenciadas ou em início de obra, quase todas da Petrobras, em parceria com outras empresas. Ela tomou a iniciativa de colocar o dinheiro sem esperar o “project financing” e a garantia da compra da energia que os investidores estrangeiros exigem do governo _inclusive o repasse para o consumidor da variação cambial.

Creio que o quadro futuro tende a ser pior que o da Califórnia. Pelo menos lá não há o risco cambial, pois são os EUA que imprimem os dólares. O tema foi amplamente discutido numa reunião que participei no Fórum Social Mundial. Devemos reconhecer que o ministro de Minas e Energia, ao vir a público, assume um papel do governo no setor elétrico negado pela ortodoxia do FMI.

A termeletricidade é uma solução emergencial, por causa do menor prazo de construção das usinas. Mas, mesmo assim, esse prazo chega a três anos.

A crise está à porta. O Instituto Virtual de Mudanças Globais, fruto de um projeto da Coppe (Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia da UFRJ) com a Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio), enviou ao governo federal um relatório propondo quatro medidas.

Uma medida é o Progredis (Programa de Geração Distribuída) em empresas, supermercados, shoppings, hospitais e hotéis, usando o gás natural que hoje está sobrando, queimado nos poços da bacia de Campos _ainda há quase 50% de capacidade ociosa no gasoduto da Bolívia. A segunda é reavivar o Procel (Programa de Conservação de Energia Elétrica), para aumentar a eficiência e reduzir as perdas de energia.

Uma terceira medida é o estímulo ao uso de energias alternativas, como a biomassa do bagaço de cana e do lixo urbano, usando inclusive tecnologias propostas em uma tese, defendida pelo pesquisador Luciano Basto, para que o Estado do Rio resolva o problema dos aterros sanitários. A quarta é sustar a privatização de Furnas, pois ela vende energia hidrelétrica a R$ 40/ MWh e, se privatizada, passará a R$ 80/ MWh, que é o da geração com gás natural.

Tudo isso exige discussão para evitarmos a repetição aqui do pesadelo que se transformou o “California Dreamin” sonhado pelo The Mammas and The Papas.

Luiz Pinguelli Rosa, 59, físico, é coordenador do Instituto Virtual de Mudanças Globais da Coppe e professor titular da UFRJ.

 

 

 

Categoria

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *