Roberto Pereira D’Araujo

Sob um quadro onde presídios formam criminosos, hospitais matam, escolas não educam, policiais são mortos e governos estaduais beiram a falência, escrever sobre o setor elétrico pode ser inútil. Ainda mais agora, quando o consumo de energia se reduz em mais de 10%. Mesmo que tudo caia no “esquecimento”, pelo menos estamos registrando o cenário que se apresenta para o futuro.
Não fosse a energia elétrica, nem o Ilumina poderia apresentar esse texto e nem você estaria lendo. As pessoas esquecem que, antes da fantástica digitalização que possibilitou esse mundo conectado, foi preciso desenvolver a indústria da eletricidade, uma tecnologia cuja base científica remonta ao século 19, mas que exige uma energia que precisa ser extremamente confiável, caso contrário toda essa admirável rede pode desmoronar.
A humanidade percorreu um longo caminho para chegar a esse ponto. Hans Christian Ørsted e André-Marie Ampère, montaram a base do eletromagnetismo no início do século 19. Michael Faraday inventou o motor elétrico em 1821, e Georg Ohm analisou matematicamente o circuito elétrico em 1827. Mas a eletricidade e a luz como conhecemos hoje foram definitivamente unidos por James Clerk Maxwell a partir de 1861. Só a partir daí é que a humanidade percebeu que seria possível transformar movimento em energia elétrica e que, sob essa forma, ela poderia ser transmitida para onde se quisesse.
Dentro dessa tecnologia ainda dominante “Maxwelliana”, de transformar movimento em energia elétrica, o Brasil é um lugar privilegiado no planeta. Líder absoluto dos chamados recursos hídricos, dispôs de muitas oportunidades de transformar a energia dos rios em eletricidade. Em que pesem os problemas, podemos dizer que soubemos aproveita-las. Do governo de Juscelino Kubitcheck, que viabilizou a construção de várias hidroelétricas importantes, passando pela criação da Eletrobras em 1962, o Brasil saltou de pouco mais de 3.000 MW instalados para quase 70.000 MW no ano 2000.
Foi também a energia elétrica dos rios que possibilitou a implantação de um impulso industrial que se ampliou em vários setores. Recentemente uma interessante teoria sobre desenvolvimento das nações têm mostrado que as sociedades que ampliam as conexões entre setores industriais experimentaram crescimento e melhoria significativa social. Toda essa teoria é apresentada no “The Atlas of Economic Complexity” (http://atlas.cid.harvard.edu/) tornando evidente a importância da diversidade de iniciativas conectadas numa economia. É preciso salientar que, mesmo antes dessa teoria, o Brasil viveu um momento onde esse espalhamento de conhecimento conexos foi largamente aplicado. No topo dessa experiência estão a Embraer, a Embrapa, o Instituto Oswaldo Cruz e, na base de tudo, as estatais Eletrobras e Petrobras.
Infelizmente, nos últimos 20 anos, engatamos a marcha a ré. Além de experimentarmos um crescimento médio de apenas 2%, nossa indústria de transformação tem hoje a mesma participação na renda brasileira que tinha na década de 1940!
Muitos descaminhos estão por trás desse retrocesso, mas, na base dessa conexão que se quebra, a energia elétrica brasileira passou a ter um custo comparável a países sem as nossas vantagens naturais. De 1995 até 2015, a tarifa residencial subiu cerca de 70% real e a industrial cerca de 120%. Essas taxas são muito piores do que parecem, pois, como se sabe, o governo Dilma aplicou uma intervenção nos ativos da Eletrobras que reduziu em 90% os preços de geração de 16% do parque gerador brasileiro. Isso significa que, apesar de parte da energia custar 1/10 dos custos praticados no mercado, os aumentos mantêm percentuais altos. Pode-se imaginar quanto pagaríamos, caso a Eletrobras não fosse sacrificada economicamente!
Algo está errado? Não! Muita coisa está fora do lugar. O ILUMINA já demonstrou diversas vezes as evidentes incoerências que dominam o setor elétrico brasileiro. Quem tiver curiosidade e paciência pode acessar a série http://ilumina.org.br/graficos-para-nos-fazerem-pensar-e-entender-capitulo-i/.
A questão tarifária, analisada comparativamente a outros países mostra que, se o kWh fosse uma moeda, nós estaríamos muito mais pobres. http://ilumina.org.br/mais-um-vexame-brasileiro/
Acontece que, além dos diversos problemas acumulados do setor, a energia não é uma área isenta de grandes mudanças. Estamos entrando em outra temporada tecnológica que pode ser equivalente à era do eletromagnetismo. Provavelmente, a dominância da teoria de Maxwell, que possibilitou transformar energia cinética em corrente elétrica, estará cedendo espaço a outra forma de obter eletricidade em escala mundial.
Longe de ser o único avanço tecnológico, a energia advinda de placas fotovoltaicas está se viabilizando economicamente com uma impressionante velocidade. Países, com graus de insolação bem menores que o Brasil, investem pesadamente tanto na pesquisa como na implantação de placas solares. Há registro de que, em termos médios, a capacidade de fotovoltaicas dobre a cada dois anos[1]. Já há tecnologias que apresentam eficiência acima de 35%.
Parece que, ao contrário do período “eletromagnético”, não estamos preparados para a tecnologia que virá. A informação que mais impressiona é a divulgada por várias personalidades do setor de alta tecnologia. Assistam a palestra do CEO da Tesla (https://www.youtube.com/watch?v=yKORsrlN-2k) sobre a necessidade de área para gerar a totalidade de energia nos Estados Unidos e se impressionem com o fato de que apenas 0,6% do território americano é necessário para gerar toda a energia consumida no país. No caso brasileiro, cerca de 15% do estado de Sergipe seriam suficientes, mas parece que o país ignora.
Certamente, todos os problemas de atraso tecnológico brasileiro afloram nesse cenário. Mas esse descompasso, apesar de gravíssimo, não é o foco desse artigo.
O nosso modelo mercantil adotou como critério para garantir a expansão da oferta contratos de longo prazo com o chamado mercado cativo. Esse “mercado” é composto basicamente do setor residencial, de grande parte do setor comercial e da pequena indústria. As empresas distribuidoras são obrigadas a contratar o suprimento 15 anos à frente.
O mítico mercado livre no Brasil não anda com suas próprias pernas. Ao anunciar um leilão para a construção de uma nova usina, o indispensável contrato de longo prazo é feito pelas distribuidoras com seu mercado cativo. O mercado livre pega uma “carona” num percentual que tem girado no entorno de 30%. Isso significa que os prazos contratuais praticados no mercado livre não são compatíveis com as garantias exigíveis para projetos que podem levar 5 anos para a conclusão. É raríssima a viabilização de projetos para suprimento para o mercado livre.
Só essa configuração já representa um sério problema para as distribuidoras, uma vez que consumidores cativos podem se “libertar”. Como prever o seu mercado? Agora, no outro lado do fio, a carga poderá se reduzir com a simples implantação de “telhados fotovoltaicos”. Esse processo é difuso e incontrolável, pois depende de decisões individuais incentivadas pela alta das tarifas e pelo barateamento dessa tecnologia.
Portanto, apenas para citar um sério problema, em algum momento a realidade vai exigir que o país desperte e reconheça que tem que responder a uma simples pergunta: Quem vai garantir os contratos de longo prazo exigidos pelo capital dedicado à construção de novas usinas? Ou seja, além de estar tecnologicamente atrasado, o Brasil sequer percebeu o que essa tecnologia pode causar no seu arcabouço de mercado já abalado pelos sucessivos erros de sucessivos governos.
[1] http://www.energies-renouvelables.org/observ-er/html/inventaire/pdf/15e-inventaire-Chap01-Fr.pdf
Uma resposta
O triste fato atual comprovado se deve à distribuição de Diretorias da Eletrobrás e de suas Estatais a pessoas ignorantes da técnica e empossados com o alvo de sangrar recursos para benefício de facções políticas e pixulecos para os próprios privilegiados. Furnas, por exemplo, que até o final da entrega de Serra da Mesa, no rio Tocantins, ficou totalmente esvaziada de seu excelente corpo técnico pelas vantagens de demissão voluntária, visando a palatibilidade para privatização.Isso começou em 90/91, e daí passou a ser depredada pelas subsequentes diretorias desonestas submissas l à Odebrecht e ao Clube de Empreiteiros. Se o Escritório Central fechasse hoje, a geração e transmissão já implantadas continuariam com até melhor desempenho do pessoal encarregado.