ONS diz que operar sistema de energia está cada vez mais difícil e estressante – Estado de SP.

Comentário: Qualquer engenheiro que conheça a metodologia que rege o planejamento e operação do sistema brasileiro sabe que essas declarações significam que não há equilíbrio entre oferta e demanda. E não é apenas a “opinião” do diretor geral do ONS. É o critério vigente no setor determinado pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico. A dedução é lógica e irrefutável.  

  • Se é necessário operar mais térmicas será preciso alterar a formação de preços atual, pois do jeito que está, logo estaremos esvaziando reservatórios outra vez.
  • A alteração necessária na formação de preço, de tal maneira que seja justificável o uso de térmicas, só pode ocorrer elevando os custos marginais de operação. Ver Custo do Déficit
  • Se os CMOs se elevam, a sua média aumenta.
  • Se a média aumenta, ultrapassa o custo marginal de expansão (CME).
  • Essa condição fere o critério vigente. (CMO médio = CME)
  • Nessa condição, a carga crítica limite do sistema se reduz e é ultrapassada pela carga real.
  • As garantias físicas de todas as usinas do sistema estão superavaliadas, pois seu somatório é a carga crítica.
  • O sistema pede novas usinas para restabelecer o equilíbrio.

O governo desconversa, mas está cada vez mais óbvio e urgente a diminuição das garantias físicas das usinas. É o que dá adotar um modelo que fixa um valor de energia virtual para cada usina cujo cálculo depende do critério de operação. Se o critério tem que mudar, as relações mercantis são fortemente afetadas.


‘Não há reservatórios. Para garantir atendimento, vamos precisar operar mais térmicas’, disse o diretor geral do ONS

20 de maio de 2014 | 9h 41

André Magnabosco, da Agência Estado – Texto atualizado às 13h00

SÃO PAULO – O diretor geral do Operador Nacional do Sistema (ONS), Hermes Chipp, disse, nesta terça-feira, 20, que o atual modelo energético brasileiro tornou mais árduo o trabalho de operar o sistema. Com menos reservatórios e um modelo pautado principalmente no menor custo da energia e questões ambientais, e não em garantir maior segurança de abastecimento, a necessidade de transferência energética entre as regiões e de maior volume de energia gerada nas térmicas se tornou uma constante.

“Está ficando cada vez mais difícil e estressante (operar o sistema). Não há reservatórios, e com isso há mais geração térmica. Não apenas neste ano, mas também em anos com uma hidrologia próxima da média”, afirmou o executivo, que participa nesta manhã de evento organizado pelas federações das indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e do Rio de Janeiro (Firjan). “Para garantir atendimento, vamos precisar operar mais térmicas”, complementou Chipp, sinalizando uma mudança no modelo de abastecimento energético do País.

Chipp destacou que a geração elétrica a partir de fontes hídricas terá uma adição de cerca de 20 mil MW ao longo dos próximos anos. Desse total, porém, aproximadamente 200 MW serão atendidos por projetos com reservatórios, o que reduz a segurança do sistema. “A eólica suprirá a necessidade? Não podemos contar apenas com isso, por isso precisaremos das térmicas”, alertou o diretor-geral do ONS.

Apagão. Não há riscos de apagão no mercado brasileiro em 2014, segundo Chipp. “Se a afluência no período seco de junho a novembro estiver próxima do valor esperado, não teremos problemas”, enfatizou, em conversa com jornalistas, em evento, em São Paulo. “E se houver alguma visão do operador de que com a afluência que está chegando não haveria condições de atender trabalhando do lado da oferta, vamos propor outras medidas. Mas até agora não há necessidade”, complementou o executivo, fazendo questão de minimizar o discurso de que o Brasil poderia sofrer novo apagão em 2014.

Embora adote um tom otimista, Chipp destacou que o País precisa hoje de qualquer oferta disponível de energia a partir de fontes seguras, caso das térmicas. A declaração foi dada após ser questionado a respeito da possibilidade de a Eneva (antiga MPX) enfrentar problemas de concluir seu projeto de expansão. “Hoje, qualquer energia firme que for colocada no sistema é importante. Não me refiro apenas a 400 MW, mas a 200 MW, 100 MW, o que tiver”, destacou.

 

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2 respostas

  1. Prezado Senhor,

    Com respeito ao assunto apresentamos uma breve revisão sobre o assunto e alguns comentários.

    Após a crise do petróleo, em virtude da escassez de recursos para investimento para expansão do setor elétrico o governo estabeleceu via Eletrobrás, empresa encarregada de coordenar a expansão e operação, que a o mesmo fosse expandido ao risco de déficit de 5%, que nada mais é do que a ocorrência de déficit em 5% das séries simuladas, dando origem a modelos probabilísticos, sendo o último o NEWAVE.

    O objetivo primordial do modelo NEWAVE era a definição e os eventuais ajustes do cronograma de obra, sendo que no horizonte da expansão do quinto ao décimo ano eram incorporadas as usinas mais baratas considerando a carga em base anual e um período estático inicial para eliminar a influência dos níveis de partidas dos reservatórios, e no horizonte da operação o que era feito era os ajustes do cronograma de obra previsto anteriormente, considerando a variação da carga, os níveis de partida dos reservatórios e os limites de intercâmbio.

    Em virtude do porte do sistema elétrico brasileiro, o modelo NEWAVE leva em conta diversas simplificações sendo as principais a utilização de sistemas equivalente, onde cada conjunto de usina é transformado em uma única usina segundo regras pré-definidas, a geração de 2000 séries tendo como base o histórico, a previsão de carga de cada sub-mercado, o custo do déficit que no modelo é a térmica mais cara, a taxa de desconto e o próprio cálculo dos custos marginais de expansão e operação.

    Sem levar em conta o elevado número de versões, alterações e adaptações a que foi submetido o modelo NEWAVE, o que torna praticamente impossível a reprodutibilidade de casos, e considerando unicamente as simplificações e o objetivo a que se destinava o referido modelo, a nossa opinião é de que é no mínimo equivocada a utilização do mesmo para subsidiar a parte financeira do setor elétrico.

    No tocante a garantia física de cada usina, entendo que é uma ficção obtida como 95% do valor da energia garantida da usina ao risco de 5%, que foi criada visando à privatização das usinas hidroelétricas. É obvio que ela não garante nada visto que ela depende principalmente de como o sistema é expandido, operado e regulado. A título de exemplo suponhamos um sistema que possua um mercado de 2000 MW médios a ser atendido por uma térmica com capacidade de 1000 MW médios e uma usina com reservatório quem tenha uma capacidade de regularização de 2 anos que possa fornecer 1000 MW médios no período e tenha uma capacidade instalada de 2000 MW, se no primeiro ano o operador resolve, por conta do alto custo da térmica, desligar a mesma e utilizar toda a capacidade instalada da hidráulica, o órgão responsável pela expansão não protestar, o regulador aceitar o esquema de operação e não ocorrer chuvas que possam manter uma vazão igual a regularizada fatalmente haverá ocorrência de déficit.

    Com base no exposto verificasse que o equilíbrio entre oferta e demanda do sistema depende da expansão, da operação e da regulação, para exemplificar suponhamos que no primeiro ano do horizonte da expansão é definida a entrada de uma térmica, que pode ser a mais cara para ajuste do risco de déficit a 5%, isto implica que os custos associados à construção e operação da mesma são levados em conta no horizonte da expansão. Cinco anos após quando o primeiro ano da expansão se tornar o primeiro da operação esta térmica deverá gerar pelo menos o valor esperado previsto cinco anos antes. Caso isto não ocorra esta térmica estará se apropriando da geração de energia de usinas mais baratas, notadamente das usinas hidrelétrica, e com isto provocando um deplecionamento dos reservatórios maior do que o previsto, podendo em alguns casos dependendo do sistema, provocar a ocorrência de déficit, mesmos que a seqüência hidrológica não seja tão crítica.

    Com respeito a entrevista, de 20 de maio de 2014, do diretor geral do Operador Nacional do Sistema (ONS), Hermes Chipp, de que o atual modelo energético brasileiro tornou mais árduo o trabalho de operar o sistema, e de que com menos reservatórios e um modelo pautado principalmente no menor custo da energia e questões ambientais, e não em garantir maior segurança de abastecimento, a necessidade de transferência energética entre as regiões e de maior volume de energia gerada nas térmicas se tornou uma constante. Fazemos os seguintes comentários:

    1. O problema é operar de forma centralizada um sistema elétrico do porte e com as características do sistema brasileiro, e a centralização da operação só vai aumentar o problema em virtude do crescimento do sistema e da complexidade do mesmo. O interessante hoje é que houvesse no mínimo quatro grupos coordenando a operação do sistema;
    2. Não ocorreu redução de reservatórios e sim a redução no acréscimo de reservatórios em virtude de uma política equivocada a respeito da relação benefício/custo;
    3. O critério de ajuste do cronograma de obra ao risco de 5% permanece válido não acarretando a principio nenhuma alteração quanto a segurança no abastecimento;
    4. A transferência energética entre as regiões é sempre benéfica, principalmente quando a diversidade hidrológica entre bacias, desde que a mesma seja realizada observando todos os critérios de segurança;
    5. As térmicas que foram incorporadas no horizonte da expansão devem gerar pelo menos o valor esperado, e a localização das mesmas devem ser o mais próximo possível da carga.

    1. Caro José Carlos;

      A primeira vista, parece que estamos de pleno acordo. Se um sistema define um valor fixo como Garantia Física de cada usina e a metodologia para determina-lo depende de um critério de operação, se o critério muda, as GFs deveriam mudar. O critério tem que mudar obrigatoriamente, pois a reserva em relação a carga está diminuindo. O grande pepino do governo é enfrentar essa discussão.
      As térmicas adicionadas ao sistema brasileiro via leilões com critério de ICB acabaram por contratar grande número de usinas de custo alto que exigiram mais energia das hidráulicas. Daí o esvaziamento dos reservatórios.
      Tudo poderia ser muito diferente se tivéssemos um comprador majoritário com contratos de capacidade ao invés de energia. Mas, já caminhamos tanto pelo caminho equivocado que dificilmente teríamos coragem e espírito público para fazer essa transformação.

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