Roberto Pereira D’Araujo
Diretor do ILUMINA
Um racionamento, como o que sofremos em 2001, quando 25% da carga teve que ser “desligada”, provocou um grande estrago, pois esse corte só é encontrado em países em guerra ou com desastres naturais! Deveria ser uma lição definitiva sobre a importância do planejamento num sistema que, tendo a vantagem da hidroeletricidade, exige uma contrapartida de políticas públicas, coordenação e atenção ao futuro. Infelizmente, não aprendemos.
Mas, um racionamento disfarçado pode ser feito de outra forma, por exemplo, via preço. Atualmente, a parte da população de mais baixa renda vive sob “racionamento” de energia, já que nosso nível tarifário é absurdamente alto. Basta dizer que a tarifa brasileira, apesar de suas vantagens naturais, é a quinta mais cara do planeta. Hoje o brasileiro paga o dobro de um norueguês ou de um canadense (sistemas semelhantes). Pior, paga o dobro do que ele mesmo pagava 25 anos atrás! Qual a razão desse aumento? As autoridades não revelam. A razão está sob racionamento.
Com esse cenário, alguém fica surpreso com o nível de roubo de energia no Brasil? Imaginem o arrocho nas residências, com média de apenas 160 kWh/mês, onde uma geladeira pode “engolir” 60 kWh! Imaginem uma família que vive nessas “comunidades”, onde falta tudo, inclusive ordem nos postes. As autoridades dirão que as doses extras de preço é uma “racionalização” do consumo. As bandeiras tarifárias, divulgadas em reais por 100 kWh para parecer “baratinhas”, na realidade, quando comparadas à parcela de energia, chegam a aumentos de mais de 16%!
Apesar das chuvas, os reservatórios estão baixos desde 2013 e o culpado fácil é S. Pedro. Mas, rios não são apenas chuva. Rios são geografia, gestão de reservatórios e meio ambiente e nós estamos tirando nota zero nesse tema, vide Rio Doce. Imaginar hidroelétricas como se fossem apenas fábricas de kWh é desconhecer a realidade. A Eletrobras, apesar de já não terá maioria da geração, é a que têm a maior parte da reserva hídrica do sistema. Vender a empresa como se fosse apenas uma “caixa registradora” de kWh é uma imensa irresponsabilidade.
Há um desejo disfarçado de “gerenciar” o consumo. As autoridades chamam de “sinais de preço”, mas, na verdade, há uma preocupação com o suprimento. Uma redução da carga poderia ocorrer de outra maneira, mas o país que não aprende também não acorda. Basta olhar para cima e ver uma enorme fonte de energia, o sol. Usinas fotovoltaicas nos telhados seriam percebidas pelo Operador como redução de demanda, exatamente o que o acabrunhado racionamento via preço quer. Os valores usados nos projetos fotovoltaicos no Brasil oscilam entre 0,7 kWh/dia e 1,5 kWh/dia para cada metro quadrado. Portanto, no valor mais baixo, uma área de 10 metros quadrados produz pode produzir 7 kWh/dia, aproximadamente o baixo consumo médio residencial.
Quando se cita que, para gerar toda a energia elétrica consumida no Brasil, necessitaríamos de aproximadamente 3.000 km2, um pouco mais de 10% da área do estado do Sergipe, as pessoas ficam espantadas. Devem ficar mesmo, mas não pelo número e sim pelo atraso brasileiro. Impostos de importação, atraso tecnológico e falhas de regulamentação encarecem essas usinas que, inclusive, poderiam exercer uma política pública social. A Alemanha, com muito menos insolação, já chega perto de 20% de eletricidade fotovoltaica.
Ora, essa tecnologia produz uma redução da carga justamente nessa época de baixos reservatórios. Mas, sob a volúpia do mercado, nem começamos a estudar os efeitos sistêmicos e benéficos que justificariam uma política pública do tamanho da nossa insolação! O CEPEL, centro de pesquisa da Eletrobras, autor de toda a metodologia de operação vigente, seria capaz de fazê-lo. Ao invés disso, está ameaçado pela venda da Eletrobras para tapar buracos fiscais do governo.
É verdade que os reservatórios permaneceram vazios, é verdade que a carga estagnada já está mostrando os efeitos da crise econômica e do preço, mas o pior racionamento é o da inteligência.
Uma resposta
Eu queria saber quem vai gerar energia nas pequenas cidades isoladas do interior do Amazonas após a venda da Eletrobras Distribuidora Amazonas e da própria Eletrobras