Represas terão de dobrar volume para evitar racionamento elétrico – Estado de SP

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,represas-terao-de-dobrar-volume-para-evitar-racionamento-eletrico-imp-,1624472

Estamos tendo cada vez mais indicativos de que estamos muito próximos de um racionamento que poderá ser severo, uma vez que não se tomou nenhuma medida preventiva para estimular a redução da carga. A reportagem do Estadão é mais um desses avisos citando algumas considerações do Ilumina.

Ao contrário de muitos dos analistas, temos mantido a opinião de que a crise atual não pode ser explicada apenas pela atual baixa hidrologia. Na realidade, há uma estratégia de longo prazo que, por algum motivo, não percebeu a tendência declinante da relação entre a reserva e a carga e, aos poucos, nos levou a essa situação.

Para mostrar esse aspecto, ainda consideramos o gráfico abaixo (Número de meses de carga armazenado no sistema) como o retrato mais abrangente sobre a crise, pois mostra que o declínio já estava claro desde 2009.

Para indicar que havia outra estratégia de longo prazo que produziria uma situação mais confortável, vamos usar uma alteração muito simplificada que produz outro resultado.

Como os técnicos do setor sabem, mas provavelmente os consumidores ignoram, o setor usa um software para simular a evolução de todas as grandezas do sistema (NEWAVE). Ao contrário do que seria desejável, o software não está disponível para o público em geral e estamos incluídos nessa exclusão. Apenas “agentes” do mercado podem tê-lo.

Portanto, o que mostramos aqui certamente será alvo de críticas por parte de pessoas que ainda defendem que não houve erros de política energética e que tudo é culpa de São Pedro. 

Entretanto, a nossa intenção é mostrar que, mesmo adotando hipóteses simplórias, há claros indícios que outra trajetória seria possível. 

O gráfico acima foi obtido adotando-se um critério de despacho térmico alternativo e simplificado proporcional à carga. De 2009 até 2011, as térmicas gerariam 10% da carga e, de 2012 até 2014, 23% da carga. Em termos médios, essa estratégia difere da adotada pela operação da seguinte maneira.

Fica claro que um uso mais intenso das térmicas desde 2009 resultariam numa situação mais confortável do que a atual. Pode-se perceber que as maiores diferenças ocorrem em 2009, 2011 e 2012 até agosto.

Como já mostramos diversas vezes, estranhamente o despacho térmico deu um salto logo depois do anúncio da Medida Provisória 579 que reduziu tarifas. Ver o link a seguir.

http://ilumina.org.br/imagens-explicadas/

Considerado o período setembro de 2012 até dezembro de 2014, não há grandes diferenças a não ser em 2014, quando mesmo com uma geração térmica menor, conseguimos uma situação de reserva mais confortável.

Mas essa conjuntura diz respeito apenas à questão de despacho térmico? Obviamente que não:

  1. Se tivéssemos mais usinas, mesmo a fio d’água, o resultado seria outro.
  2. Ainda não se sabe o efeito que usinas programadas para gerar e que não entram têm nos planos de operação. Contar com uma usina no futuro afeta a estratégia de estoque. Esse é um efeito nunca analisado por nenhum órgão.
  3. Temos térmicas para fazer o papel que mostramos? A nosso ver, essa é uma questão de política energética que deve ser respondida pelo governo.
  4. A adoção de um despacho mais voltado para energia térmica só poderia ser feito sob outra formação do custo marginal de operação. Dado o modelo mercantil atual, esse reconhecimento geraria uma mudança gravíssima em termos comerciais e de equilíbrio do sistema.
  5. Esse despacho alternativo, um tanto bizarro, seria mais barato do que o adotado a partir de 2012? Essa é uma conta a ser feita, mas há muitos indícios de que a resposta é positiva, uma vez que é bem viável conseguir gerar 12% da carga com as térmicas mais baratas.

 

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2 respostas

  1. Roberto,
    A análise, apesar de aproximada, está absolutamente correta. Com certeza, os cálculos precisos mostrariam resultados ainda mais vantajosos.
    São Pedro certamente não é o vilão dessa história. Ao contrário, ele poderá vir a ser o herói, o salvador, embora a esta altura o milagre talvez já tenha de ser grande demais e além do poder do Santo. De qualquer forma, vamos torcer para que nestes próximos três meses venha um pequeno “dilúvio”.
    São vinte anos de erros sucessivos no setor elétrico nacional, está cada vez mais difícil colocar ordem na casa.

  2. Roberto

    Pode ter certeza que o culpado não é São Pedro e sim o modelo e a estrutura vigente do setor elétrico, associada a uma política de meio ambiente inadequada que penaliza as usinas com reservatório e não levar em conta de maneira adequada os prejuízos causados pelas térmicas altamente poluentes.

    Mesmo considerando somente as usinas térmicas, entendemos que essa trajetória é a mínima, pois não esta levando em conta o ganho de produtividade associada ao aumento de armazenamento.

    Quanto aos pontos citados eu acrescentaria mais um que seria aquele referente ao deplecionamento de reservatórios situados na mesma cascata, visto que pelos dados disponíveis podemos observar que não foi seguida a ordem natural que é deplecionar de montante para jusante e com isto obter ganho de produtividade na cascata.

    Antes da restruturação do setor elétrico, o item 2 era atendido em termo de risco de déficit e não em termo de estoque, ou seja a ELETROBRÁS coordenava estudos que procuravam manter o risco de déficit dentro do critério de 5% tanto no âmbito da expansão quanto no da operação. A cada ano na expansão era definido um cronograma de obras do quinto ao décimo ano e na operação era feito os ajustes necessários no cronograma do primeiro ao quinto, considerando o intervalo de tempo decorrido e as revisões anuais.

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