Rio São Francisco Água ou Energia? – Artigo

Pedro Alves de Melo (engenheiro aposentado da Chesf).

Embora a discussão sobre o uso múltiplo da água no rio São Francisco seja tão antiga quanto a própria Chesf, a conjuntura atual é motivo para revisitá-la, cabendo destaque para o nível de armazenamento mínimo e a vazão mínima de Sobradinho. Observe-se o texto a seguir, recortado do Plano da Operação Energética 2012/2016 – PEN 2012 Relatório Executivo, documento publicado pelo ONS em 2012, que recomenda:

Passados três anos, quais foram os resultados destes estudos? Como Sobradinho está hoje com 6,0% de armazenamento, vazão afluente de 490 m3/s e a região do Semiárido Setentrional em situação crítica, um elemento novo justifica a retomada do assunto. A transposição, que traz consigo duas questões adicionais, se o projeto já estivesse em operação:

  • A vazão mínima que, no caso do Eixo Leste não seria problema, pois a captação é no reservatório de Itaparica. Já no eixo Norte, com a captação em Cabrobó, no leito do rio, surge uma dúvida: qual é a vazão mínima de Sobradinho para garantir condições adequadas à operação da estação de bombeamento?
  • O armazenamento que, considerando a situação hidrológica atual do semiárido, seria necessário iniciar o bombeamento mas, como um dos condicionantes da licença para a transposição é o valor do nível de armazenamento em Sobradinho, e, sendo o valor atual de apenas 6,0%, haveria bombeamento? De quanto?

A necessidade de retomar a questão se deve à importância crescente do rio para a segurança hídrica da região Nordeste e a importância cada vez menor da geração de suas usinas hidrelétricas para o atendimento ao mercado de energia elétrica. Considerando a demanda atual, a produção de energia elétrica pelas usinas do rio São Francisco representou, apenas 28,0% do mercado da região Nordeste e 4,4% do mercado Brasil. Cabendo para reflexão os seguintes pontos:

  • A vazão mínima de Sobradinho deve ser considerada apenas uma restrição, que pode ser violada segundo conveniências do setor elétrico ou um objetivo da operação da bacia tendo em vista a segurança hídrica da região?
  • Como a região Nordeste tem hoje, além das hidrelétricas, 7.000 MW de eólicas, 8.000 MW de termelétricas e 5.000MW de capacidade de recebimento de energia elétrica de outras regiões, justifica-se operar as usinas do rio São Francisco para atender um objetivo estritamente energético: minimizar o custo de operação do Sistema Interligado Nacional?

Essa questão, uso múltiplo da água, não é exclusividade do rio São Francisco, sendo comum a, praticamente, todos os demais rios com usinas hidrelétricas. Só que, nesse caso, a situação hidrológica atual se encarregou de mostrar que não se trata mais de um conflito entre produção de energia elétrica e os outros usos da água mas, que esses são, de fato, prioritários. Caso contrário, teremos, no Nordeste, que adotar o lema: quando a sede chegar procure não a torneira mas, a tomada mais próxima.      

 

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4 respostas

  1. Focando o reservatório de Sobradinho e utilizando os dados históricos disponíveis no site do ONS, chegamos à conclusão de que apesar do dito reservatório ter uma capacidade de regularização de 5 anos, desde que seja observada a vazão de regularização de cerca de 2000 m³/s, o Operador Nacional de Sistema conseguiu a proeza de no período de oito meses, do final de fevereiro ao final de outubro do ano de 2012, reduzir o armazenamento do mesmo de 87,98% para 23,98% do seu volume útil, o que correspondente a utilização de 64% do referido volume além da vazão afluente.

  2. A situação dos reservatórios do São Francisco é alarmante.

    Estamos entrando no mês de novembro e a afluência de água em Três Marias continua em nível ridiculamente baixo (10 m3/s ontem, 28/10).

    Porém o ritmo de esgotamento de Três Marias foi acelerado desde o mês de agosto (de 300 para 510 m3/s) para permitir a preservação do nível de afluência em Sobradinho em torno de 500 m3/s.

    No entanto, como a defluência em Sobradinho é mantida no patamar de 930 m3/s, o seu reservatório vem sendo esgotado ao ritmo semanal de 1%.

    Preservado esse ritmo Sobradinho terá seu reservatório esgotado na última semana de novembro.

    Nessa situação, Sobradinho somente poderá liberar a água afluente para os usuários a sua jusante.

    Dado esse quadro, cabe algumas perguntas.

    1. Foi sensato parar o despacho térmico para conter os gastos com combustíveis?

    2. Foi feito algum estudo que justificasse os custos para o Nordeste da redução do despacho térmico?

    3. Quem assumirá perante a população a responsabilidade por essa decisão?

    Obviedade: A gestão dos reservatórios hidrelétricos não pode mais ficar sob a responsabilidade exclusiva do setor elétrico.

    1. Adilson;

      Essa situação do São Francisco é apenas uma das questões desprezadas pelas nossas autoridades ao dimensionar as grandezas comerciais que ficam cada vez menos garantidas. Lembramos que as afluências estão declinando há mais de 20 anos. Se, num ataque de lógica, o governo passasse a considerar essa realidade, as garantias físicas de TODAS usinas do sistema teriam que ser rebaixadas. Ao invés disso, o nosso Ministro continua atestando a robustez do sistema.

  3. Ótima reflexão Pedro,

    É Lamentável saber que vamos zerar um dos maiores reservatório de acumulação do mundo ao final deste período seco. Em função de uma política equivocada de Operação e Expansão do sistema elétrico brasileiro aplicada nos últimos anos.

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