Se tivessemos um governo realmente interessado em resolver a crise energética ao invés de ficar compulsivamente vendendo empresas, essas duas notícias indicam o caminho: Primeiro, negociar com a Bolívia melho …

Se tivessemos um governo realmente interessado em resolver a crise energética ao invés de ficar compulsivamente vendendo empresas, essas duas notícias indicam o caminho: Primeiro, negociar com a Bolívia melhores condições para o Gás. Segundo, reconhecer que as empresas estatais brasileiras têm mais prestígio que o próprio governo e conseguem alavancar recursos de forma surpreendente. FURNAS, COPEL, CEMIG, CHESF, CESP poderiam salvar o país do racionamento. Observem que temos grandes críticas às usinas a gás, entretanto, reconhecemos que é muito tarde para outras soluções. Consequências da destruição do planejamento.



Energia Medida favoreceria consumidor industrial, mas não afeta térmicas

Estatal já negocia banda de flutuação para gás boliviano

Cláudia Schüffner, De La Paz e Santa Cruz de la Sierra


Enquanto a crise energética se agrava no Brasil e o país discute as medidas do racionamento, a Petrobras negocia com a Yacimientos Petroliferos Fiscales Bolivianos (YPFB) o estabelecimento de uma faixa de flutuação para o gás importado daquele país, que deve atingir o volume de 30 milhões de metros cúbicos em dezembro de 2003. Agora, a YPFB terá que discutir o assunto com os produtores na Bolívia. Os maiores são Andina (da Repsol) e Chaco (da BP).


O presidente da Gaspetro e gerente executivo da área de Gás Natural da Petrobras, Rodolfo Landim, esteve na Bolívia na semana passada para discutir o assunto. Landim explicou que a Petrobras irá repassar o benefício imediatamente após a conclusão das negociações – sem prazo definido, para os consumidores industriais. Trata-se das distribuidoras que assinaram com a estatal contratos de compra do gás importado, como a Comgás, e que hoje pagam US$ 3,33 (sem impostos) por cada milhão de metro cúbico importado da Bolívia. Como o gás vendido para as termelétricas tem um preço reduzido, US$ 2,475 por milhão BTU, esse valor não será alterado caso as negociações na Bolívia tenham sucesso. Ou seja, o estabelecimento da banda de flutuação não vai alterar o preço para as térmicas.


O presidente da YPFB, Carlos Salinas, acredita que a adoção de um piso e um teto para o gás será decidida em consenso pelos produtores bolivianos e pela Petrobras, atualmente o maior comprador do gás produzido naquele país. O gás boliviano está custando custa hoje US$ 1,66, abaixo dos US$ 1,80 no primeiro trimestre desse ano. A esse preço são acrescidas tarifas de transporte, que custa US$ 0,32 no trecho boliviano do gasoduto, controlado pela Gás Transboliviano (GTB), e mais US$ 1,17 no trecho brasileiro, controlado pela Transportadora Brasileira do Gasoduto Bolivia Brasil (TBG). Com a queda do preço, ele chega ao país por US$ 3,15 (sem impostos).


O vice-presidente de Negociações Internacionais da YPFB, Hugo Peredo, esclarece que não se está discutindo a redução do preço, a fórmula de reajuste (baseada em uma cesta de óleos), nem a possibilidade de o produto ser pago em outra moeda que não o dólar. "Nosso preço é muito razoável. O que podemos discutir é como evitar subidas e quedas bruscas, criando uma faixa de flutuação onde se define um teto e um piso, anulando-se automaticamente os picos de alta e de queda nos preços."


O presidente da YPFB lembrou, ainda, que toda a estrutura de financiamento para a construção do gasoduto Gasbol foi denominada em dólares, já que foi necessário um "project finance" para obtenção de financiamento internacional.


A jornalista Cláudia Schüffner viajou a convite da Petrobras (Valor 3/5/2001)


As boas condições do empréstimo da Petrobrás

Em maio, o Brasil terá de desembolsar US$ 1,63 bilhão com vencimentos de dívidas externas, contra US$ 1,0 bilhão em abril. Por isso, a notícia de que a Petrobrás conseguiu colocar US$ 450 milhões em títulos no mercado internacional, a um custo muito baixo e por um período de 8 anos, foi recebida com alívio. De fato a operação se constitui numa referência, mesmo levando em conta a excepcional situação da empresa estatal.


A Petrobrás pretendia emitir bônus no valor de US$ 350 milhões, mas obteve ofertas para US$ 750 milhões e acabou colocando US$ 450 milhões. O cupom anual foi de 9,875% – 475 pontos básicos acima dos títulos norte-americanos de prazo equivalente. A última colocação de bônus da República Brasileira foi realizada a um custo de 816 pontos básicos acima dos títulos norte-americanos. A remuneração final dos bônus da Petrobrás, para os investidores, será de 9,951% ao ano. Embora o prazo seja de 8 anos, os investidores poderão pedir o reembolso em 7 anos. Note-se que o reembolso será feito pelo futuro governo brasileiro, em relação ao qual há certa preocupação entre os investidores estrangeiros, que temem mudanças na política econômica.


As condições excepcionais dessa operação (a empresa petrolífera Philips, uma das mais conceituadas no mundo, pagou 400 pontos básicos) deveram-se, em primeiro lugar, ao fato de o mercado acreditar que o preço internacional do petróleo continuará elevado nos próximos anos, o que permitirá à Petrobrás ter bons lucros. A venda das ações da empresa no mercado internacional, no montante de US$ 2 bilhões, no ano passado, e a recente distribuição de um polpudo dividendo contribuíram para reduzir as exigências dos investidores.


Apesar da perda da sua maior plataforma, a produção da Petrobrás continua elevada e a relação reservas/produção é de 19 anos, devendo descer para 15 anos em 2005, enquanto a média entre as empresas petrolíferas mundiais é de 12 anos.


A situação financeira da empresa estatal continua boa. Com um programa de investimentos de US$ 6 bilhões neste ano e de US$ 29 bilhões entre 2001 e 2005, a empresa apresenta geração de caixa de US$ 10 bilhões e um endividamento razoável, que, no ano passado, foi reduzido de 17%. Neste ano, tem apenas um vencimento de US$ 1,2 bilhão da sua dívida externa e pode conseguir melhores condições do que as obtidas nessa última emissão, se recorrer ao mercado internacional.


São poucas as empresas brasileiras que podem obter condições tão vantajosas como as da Petrobrás no mercado mundial. Apesar disso, essa operação mostrou que o Brasil tem ainda boa acolhida no mercado financeiro mundial. Se o Banco Central desse maior contribuição para conter a desvalorização do real, isso estimularia as empresas brasileiras a recorrer ao mercado externo. (Valor 3/5/2001)


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