Um holofote para a privataria – Elio Gaspari – Globo 27/02/05
Não se preserva auto-estima encobrindo malfeitorias. A privataria do tucanato e os financiamentos ruinosos concedidos pelo BNDES precisam de mais holofotes e menos folclore. O “alto companheiro” citado por Lula em sua maledicência nunca esteve no anonimato. O professor Carlos Lessa jamais escondeu a situação em que encontrou o banco, em janeiro de 2003. Ele tem conhecimento e capacidade para recontar o que viu.
A privatização das empresas de energia elétrica produziu um socorro genérico, um calote específico (Eletropaulo) e uma hospitalização (Light). Em todos os casos, a conta foi para a choldra. A liquidação das ferrovias beneficiou pelo menos um raposão internacional e acabou numa injeção estatizante que poderá chegar a R$ 1 bilhão. Tudo isso com um encolhimento de quatro mil quilômetros da malha. As maracutaias da privataria das comunicações só não acabaram em CPI porque no início de 2003 o PT negociou um telesilêncio com o PSDB.
Não é necessário criar um clima de caça aos tucanos. Trata-se apenas de abrir o debate e as contas do BNDES. Faz tempo que pesquisadores nacionais e estrangeiros estudam as privatizações do mandarinato de FFHH. Em alguns casos as conclusões são muito mais tristes que as de Lula.
Talvez se possa usar a autópsia da privataria para melhorar a qualidade do debate das políticas públicas nacionais.
Ao contrário do que dá a entender o companheiro, a corrupção não é a causa determinante do malogro de muitas privatizações nem da tunga imposta ao BNDES. O mais grave é a política ruinosa. Mesmo que a privatização do setor elétrico (ou ferroviário) tivesse sido feita por São Francisco de Assis, a beatitude do vendedor não eliminaria o fato de que o processo era inepto e lesivo aos interesses da sociedade brasileira.
Por mais que se tenha roubado em Pindorama, debaixo deste céu de anil há mais coisas dando errado porque estão irremediavelmente tortas do que por roubalheiras. Ninguém roubou um ceitil do programa Primeiro Emprego e ele foi a pique. O Fome Zero acabou em piada sem que se tenha transformado em fonte de corrupção.
Se os companheiros estiverem mais interessados em fazer as coisas funcionarem do que em apenas denunciar os outros, o debate da privataria melhorará a auto-estima nacional. Não é preciso sair por aí pensando só em apontar culpados, até porque, como ensinou o cantor Paul Robeson, toda vez que você aponta um dedo na direção de alguém, outros três estarão apontando para você.