Setor elétrico, seus números e contradições – Estado de SP

A Lanterna de popa que falta ao setor. Comentários ao longo do texto.


 

EDVALDO SANTANA* – O ESTADO DE S. PAULO

08 Junho 2015 | 03h 00

Preferia escrever sobre a tão sonhada melhora das condições de investimento no setor elétrico brasileiro (SEB), como o fiz neste mesmo Estadão há cerca de sete anos, quando o Brasil alcançou grau de investimento. E escrevia então até com uma ponta de orgulho, tendo em vista que uma das agências de classificação de risco argumentava que entre as razões para o grau de investimento estavam as virtudes do aparato regulatório, e citava a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) como exemplo. Mas só os defensores da mesmice dão prioridade a iluminar o passado (têm lanterna na popa), por isso falo agora de números atuais, nem sempre bons, e das contradições implícitas, para mostrar como e onde andamos e para onde vamos, numa tentativa de iluminar o futuro.


 

Curiosamente, por exclusivas características físicas do sistema elétrico brasileiro, a lanterna de popa é algo imprescindível. Se hoje estamos com os reservatórios vazios, decisões passadas fizeram parte da construção dessa penúria. Alguma dúvida?

  1. Leilões genéricos por um subjetivo índice ICB acabaram por contratar térmicas caras que, ao contrário da crença oficial, ajudam a esvaziar reservatórios. Contabilizadas na oferta em discursos otimistas, quem gera sua energia são as hidráulicas. Só havia uma maneira de não esvaziá-los: A boa vontade crescente de S. Pedro.
  2. Por que apenas depois de setembro de 2012 as térmicas dobraram sua geração? Que justificativa técnica há para essa estranha coincidência tomada no passado?

Portanto, iluminemos o passado para entender o presente e decidir o futuro.


 

Os números atuais do sistema elétrico, nas suas mais diversas magnitudes, são assustadores. Tudo gira em torno de bilhões de reais. Nesse padrão, o que se pode esperar é mais aumento de tarifas, como a recente prática de custos reais, que são travestidos no eufêmico “realismo tarifário”, uma contradição com o princípio da modicidade dos preços. Por exemplo, estima-se em R$ 28 bilhões, para 2015, o valor do fator de ajuste de garantia física das hidrelétricas (o famoso GSF), que já foi parar na Justiça. Desse valor, algo em torno de 40% vai direto para as tarifas. O GSF, a propósito, já tinha sido de cerca de R$ 30 bilhões em 2014. Na mesma ordem de grandeza, é de R$ 25 bilhões o valor da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), já repassada para as tarifas em março deste ano. Como a demanda passa por uma “saudável” redução, o que evita elevar o risco de desabastecimento, maiores tendem a ser os números acima, pois maior vai ser o ajuste de geração e menor será o montante de MWh necessário para arrecadar os R$ 25 bilhões da CDE, o que exige, por este último motivo, mais aumento das tarifas.


 

O GSF é uma dessas jabuticabas brasileiras. Trata-se de um déficit de geração das usinas hidráulicas. Pergunta-se:

  1. As usinas não conseguem gerar? Um defeito? Resposta: Não! O operador manda gerar menos.
  2. O déficit é em relação a que? Resposta: A um número calculado em outra época por um modelo matemático repleto de subjetividades.
  3. Quando há a situação inversa, o superávit, o “lucro” é simétrico ao prejuízo bilionário relatado no artigo? Resposta: Não! Os valores são irrisórios. Não há simetria alguma!
  4. É um valor imutável? Resposta: Por incrível que pareça e como todos os indícios de que pode estar havendo uma superavaliação, ninguém faz nada.
  5. Todas as usinas são afetadas? Resposta: Não! As atingidas pela MP 579 jogam o prejuízo para o consumidor.

Tudo isso foi decidido no passado. Cadê a lanterna de popa?


 

Para operar o sistema e garantir o suprimento, desde 2013 é necessário o acionamento de todo o parque termoelétrico existente, e mais se tivesse, a um custo médio, em 2015, de R$ 450/MWh. Multiplicando este valor por 15.000 MW e o resultado pelo número de horas do ano, chega-se a quase R$ 60 bilhões, outro número de respeito, que, somado aos R$ 28 bilhões do GSF e metade dos R$ 25 bilhões da CDE, representa o custo da crise atual do sistema elétrico brasileiro, o custo do desequilíbrio entre oferta e demanda. Para que se tenha uma noção desse número, R$ 100 bilhões são bem mais do que valem todas as empresas do SEB, o que significa que o custo da crise é maior do que o valor total das empresas. Também é muito maior do que todo o resultado do ajuste fiscal promovido pelo governo. Assustam essas relações, que passam longe dos olhares menos atentos.


 

Pior! Somando-se as perdas de valor das empresas e outros esqueletos que estão dentro do armário do passado, o valor ultrapassa a arrecadação da privatização da década de 90.


 

Para enfrentar a crise, um caminho é o estímulo à expansão da capacidade instalada de geração, que exige preços bem maiores, R$ 200/MWh, para a compra de energia em contratos de longo prazo, ante R$ 135/MWh de leilões realizados até 2013, o que, novamente, implica novos aumentos de tarifas. Só que, neste caso, com um resultado inesperado: como haverá um excedente de energia mais adiante, motivado pelos incentivos atuais, o consumidor não tirará proveito da redução dos custos marginais disso decorrente, uma vez que estará 100% contratado e a preços maiores. Se nada mudar, isto é, se os consumidores continuarem com o mesmo nível de contratação, estaremos diante de uma “esquisitice econômica”, pois uma superoferta não resultaria em redução do preço da energia.


 

A lanterna de popa mostra uma situação bem distinta da descrita no artigo. Como se sabe, em função do racionamento de 2001, a carga se reduziu em 15%. Houve portanto uma sobreoferta que durou até 2008. Deem uma olhada nos preços do mercado livre desse período e vejam se não existiu uma classe de consumidores que se lambuzou de energia barata. O preço médio não ultrapassou R$ 30/MWh. Enquanto isso a tarifa do mercado cativo continuava a subir acima da inflação. Vamos repetir isso?


 

Mas por que tudo isso acontece? São várias as explicações, mas uma delas ficou evidente em seminário recente, que contou com a presença de todas as autoridades do sistema elétrico brasileiro, sem nenhuma exceção. A organização do evento preparou uma série de perguntas, que deveriam ser respondidas pelas mais de mil pessoas presentes. Uma dessas questões procurava entender qual deveria ser a estratégia para a operação do sistema no biênio 2015-2016. A resposta da grande maioria foi a não menos esperada “segurança do suprimento ao menor custo possível”. Em outras palavras, a segurança é a prioridade e o custo é o possível, que pode ser traduzido em segurança a qualquer custo, que para a maioria tem até uma certa razoabilidade.


 

O Ilumina nunca é chamado para esses eventos. Seríamos um “estraga festa” com a nossa lanterna de popa. Sem essa luz, ninguém é responsável por nada!


 

O problema é que isso não encontra amparo na legislação vigente. A Lei de Concessões, em seu artigo 6o, determina que o serviço só é adequado quando satisfeitas, por exemplo, as condições de regularidade, segurança, continuidade e modicidade das tarifas. Portanto, segurança e preços têm a mesma hierarquia, até porque estão num mesmo parágrafo do referido artigo e são ligados pela conjunção aditiva “e”. O estranho é que até representantes de associações e de empresas, que questionam severamente o custo do GSF, ficaram entusiasmados com a segurança a qualquer custo, o que parece outra contradição. Mais: uma lei específica do SEB, a Lei 10.848/2004, diz coisa semelhante. O parágrafo 4.º do artigo 1.º estabelece a mesma hierarquia para a otimização dos recursos energéticos (inciso I) e para o uso de mecanismos de segurança operativa (inciso III). Não há, nesse contexto, espaço legal para dar prioridade à segurança em detrimento dos custos, mesmo que a intenção seja nobre.


 

Claro! “A qualquer custo”, mesmo que o Brasil apresente tarifas 300% mais caras que as do Canadá. Mesmo que a indústria cativa pague o dobro da média mundial.


 

Chegado o final do período de chuvas, estamos hoje em condições semelhantes, em termos de riscos hidrológicos, às do ano passado. Com a quantidade de água existente nos reservatórios é quase certo que teremos energia para até o fim do período seco, provavelmente com alguns sobressaltos. Como quase nada no setor elétrico resiste a um pouco de contradição, a sorte (de uns) ou o azar (de outros) é que o “realismo tarifário” tem se mostrado uma interessante estratégia de redução do consumo de eletricidade, o que contribui, isso sim, para a segurança energética, mas a custos elevados, pelas razões apontadas no segundo parágrafo deste texto.


 

Ter ou não ter racionamento, a falsa questão. Hoje, apenas com a ameaça de racionamento estamos assistindo um festival de trapalhadas dignas de comédias burlescas.

  1. Fábricas fecham a produção por não valer a pena produzir a esse custo
  2. Decisões atabalhoadas são tomadas com desespero “disfarçado” sob discursos otimistas.
  3. Contratação de diesel de supermercados.
  4. Usinas velhas vendendo energia a preço de térmicas a gás.
  5. Juros sobre kWh! Algum outro exemplo no planeta?

Concordamos com muita coisa que foi dita. Só discordamos da falta de luz de popa, pois, de algum modo, estamos em marcha a ré.


 

*EDVALDO SANTANA É EX-DIRETOR DA ANEEL

Categoria

Uma resposta

  1. Roberto,

    Pelo andar da carruagem a principal estratégia adotada para reduzir o consumo e com isto tentar evitar um possível racionamento, não foi a adoção do “realismo tarifário” utilizado para cobrir rombos provocados pelo modelo inadequado do setor elétrico, e sim a brutal recessão decorrente do ajuste fiscal.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *