Tentativa de reduzir custos comprando energia elétrica mais barata no mercado à vista esbarrou na disparada dos preços – Estado de SP

Comentário: A reportagem mostra vítimas do atual modelo do setor elétrico, sendo que algumas estão sendo expulsas do “paraíso”. O preço “spot” no Brasil apresenta um comportamento totalmente esdrúxulo quando comparado a qualquer mercado de energia elétrica no planeta. Aqui, 1 MWh pode oscilar 5.400% de R$ 15 (US$ 6/MWh) até R$ 822 (US$ 328/MWh). Essa variação não corresponde a mudanças nos ofertantes ou demandantes, como ocorre em outros mercados. O preço varia pela ótica de uma instituição, o ONS, que não participa do mercado e, pasmem, têm uma visão monopolística do sistema.

Pela descrição das empresas vítimas, que agora estão sendo obrigadas a contratar geradores diesel, o clima do mercado se aproximou a de um cassino. Alguns comercializadores ficaram mal acostumados com a prevalência de energia gratuita no spot, arriscam sua credibilidade e a produção física de seus clientes.

Qualquer um que fizesse as contas traduzidas no gráfico saberia que o sistema caminha para um desequilíbrio estrutural. A figura mostra a trajetória da reserva em equivalentes meses de consumo. Desde 2008, cada metro cúbico dos reservatórios foi ficando cada vez mais comprometidos com o atendimento da carga, uma vez que as caras térmicas contratadas pelo governo, exigiram mais deplecionamento (esvaziamento) e não menos, como muitos podem pensar.

Apesar dessa evidência, as autoridades do setor só se deram conta em outubro de 2012, coincidentemente, disparando as térmicas logo após a MP579 que baixou as tarifas na marra. Hoje, muitas delas estão funcionando além do prazo para manutenção. O informativo de 9/11 do ONS mostra que, dos 22.000 MW térmicos instalados, cerca de 5.000 MW estão indisponíveis.


 

 Renee Pereira                                               

 

A disparada do preço da energia no mercado à vista, por causa do baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas, pegou algumas empresas no contrapé. Mal orientadas (ou cientes dos riscos do mercado à vista), elas não aguentaram o custo da eletricidade, hoje em R$ 822 o MWh, ficaram inadimplentes, foram expulsas da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e tiveram a luz cortada. Agora estão tendo de partir para o “plano B” para continuar em operação. Uma das alternativas tem sido alugar geradores movidos a óleo diesel.

 

A ideia de reduzir os custos de produção comprando energia elétrica mais barata parecia um ótimo negócio para melhorar a competitividade da indústria metalúrgica Injet. Em 2012, quando o preço da eletricidade no mercado à vista estava em cerca de R$ 40/ MWh, a empresa decidiu fazer o que vários concorrentes já tinham feito: migrar para o mercado livre, em que o consumidor tem liberdade para comprar a energia de quem quiser.

 

Mas ela errou o momento. Em 2013, quando a companhia estreou no mercado livre, o preço já havia subido para quase R$ 350 o MWh. O custo da energia no mercado à vista, chamado de PLD, varia conforme o nível dos reservatórios e a necessidade de colocar mais térmicas para operar. Neste ano, as usinas do Sudeste e Centro-Oeste não conseguiram recuperar o nível de suas represas por causa da escassez de chuvas, o que manteve o preço no valor máximo.

 

Normalmente, as companhias que migram para o mercado livre fecham contratos de médio e longo prazos para reduzir os riscos de um período de estresse como o atual. O diretor da Injet, Heverton Padilha, conta que, com a alta dos preços no mercado de curto prazo, ficou muito difícil fechar um contrato de longo prazo com quem tinha energia para vender – hoje contratos de um ano a partir de 2015 têm preços acima de R$ 3 mil o MWh. Com isso, a empresa, de Caxias do Sul, ficou exposta ao mercado de curto prazo, comprando energia diariamente ao preço do momento.

 

Não tínhamos como manter o novo patamar de custos e não podíamos voltar ao mercado cativo (atendido pelas distribuidoras). Ficamos nunca situação complicada.” Pelas regras do setor, para voltar a ser atendido pelas distribuidoras, o consumidor livre precisa avisar com cinco anos de antecedência – ou por menos prazo, dependendo da concessionária de energia.

 

Sem condições de arcar com o aumento de custo, a Injet ficou inadimplente e foi desligada da CCEE. O efeito dessa decisão é o corte da energia. Mas, com uma ação judicial, a empresa conseguiu adiar a medida até a semana passada, quando a liminar caiu e o aviso de desligamento da luz chegou. “Para continuar operando, alugamos dois geradores a óleo diesel. Apesar de ser caro, o custo da energia será menor que o mercado spot (à vista)”, diz Padilha.

 

Solução milagrosa. Ele reclama da posição das comercializadoras no processo de migração. “As empresas chegam com uma solução milagrosa e depois deixam a gente na mão.” Segundo o executivo de uma grande comercializadora, que prefere não se identificar, algumas empresas são mais aventureiras e apostam na sorte. Mas tem havido muitos problemas decorrentes de consultorias erradas. Nosso trabalho é aconselhar o consumidor, ter uma visão clara do que pode ocorrer, ver o clima e posicionar o cliente.”

 

Pelos dados da CCEE, 16 empresas foram desligadas até outubro de 2014 por descumprimento das obrigações, sendo a principal a falta de pagamento das faturas mensais. Outras 10 companhias conseguiram liminares para continuar no mercado. A metalúrgica Caliendo, do Rio Grande do Sul, também tem brigado com a Câmara desde o primeiro semestre. No fim do mês passado, a ação perdeu seus efeitos e a empresa ficou sujeita ao corte de energia.

 

A Caliendo migrou para o mercado livre em outubro de 2013, quando o preço estava em R$ 270. Naquela época, no entanto, havia expectativa de que as chuvas de verão recuperariam os reservatórios e os preços recuariam. O cenário não se confirmou e o preço subiu. Em janeiro deste ano, a empresa já começava a sentir o peso do custo elevado. Priorizou o pagamento de salários e fornecedores, deixando a conta de luz pendente.

 

A dívida da Caliendo é de R$ 1 milhão. A exemplo da Injet, a empresa também optou pelos geradores a óleo diesel para produzir energia para o funcionamento da fábrica. Até semana passada, ela ainda não tinha recebido aviso de corte da luz.

 

Na ata de reunião da semana passada, a CCEE informa a contratação de um escritório de advocacia para mover ações contra sete empresas que já foram excluídas do mercado e continuam inadimplentes.

 

Como funciona a CCEE. A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) é responsável pela comercialização da eletricidade no mercado brasileiro. Ela faz a contabilização e liquidação financeira das operações no mercado de curto prazo. Também é responsável pelo cálculo do preço da energia no mercado à vista. A CCEE é formada por um conselho com cinco membros, indicados por cada um dos principais segmentos do setor elétrico.

 

 

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3 respostas

  1. Prezado Roberto,
    Concordo que a dinâmica do mercado deve ser vista como um todo e que as variações de preço impactam diretamente aos agentes, afinal, hoje, quem está no curto prazo, é obrigado a adquirir energia a um custo altíssimo.
    Ratifico a necessidade de um melhor entendimento dos agentes ao mercado. Na minha opinião, é inadmissível acatar um risco tão grande que envolve a rentabilidade da empresa…mas sabemos que algumas empresas “pagam para ver” e acabam caindo nesse ciclo sem fim.´

  2. Prezados, boa tarde.

    Qualquer pessoa que esteja minimamente envolvida no Setor Elétrico Brasileiro, ao ler esta notícia, tem a certeza da incoerência dos dados aqui apresentados.
    A notícia retrata a atual situação das vítimas do modelo do setor, entretanto, é preciso salientar que ao ingressar ao Mercado Livre, o agente aceita todas as Regras e Procedimentos da CCEE, sendo que, desde o primeiro momento é claro que o descumprimento de qualquer atividade inicia-se o processo de desligamento e como existe uma defasagem pequena entre as operações, qualquer “tropeço”, dependendo do volume do agente, vira uma “bola de neve sem fim”. As empresas não erraram o momento, não se preparam para entrar no mercado. É diferente.
    Concordo plenamente com a notícia quando diz que empresas foram mal orientadas. Uma gestão eficaz e eficiente é a chave do sucesso desse negócio. Não adianta arriscar em um cenário completamente suscetível a mudança.
    Os preços são variáveis mês a mês de operação exatamente pelo Custo Marginal da Operação, que envolve também a análise hidrológica do sistema.

    É preciso investigar todo o cenário: Embora existam empresas que estão “quebrando e sendo expulsas da CCEE – ressalvo, por descumprimento de suas obrigações, por “n” motivos – empresas que buscaram assessorias especializadas e entender melhor como funciona o mercado, estão com cobertura de 100% de seu lastro de energia em contratos de longo prazo, e, principalmente mantendo a sua economia mensal.

    É claro que comparar 2012 com 2014 é algo completamente “saudosista” de um bom momento do setor elétrico: Energia barata, possibilidade de ganho na sobra de energia e aumento da economia. Mas a coisa evoluiu e foi aí que algumas empresas quebraram…basta consultar o site da CCEE e verificar a variação do PLD:

    (http://www.ccee.org.br/portal/faces/pages_publico/o-que-fazemos/como_ccee_atua/precos/precos_medios?_afrLoop=275088102403083#%40%3F_afrLoop%3D275088102403083%26_adf.ctrl-state%3Dbex369owh_58)

    Mas o que mais me chocou em todo o texto, é a afirmação de que estão sendo ofertados para contratos futuros de longo prazo o preço de R$3.000/MWh. O teto do PLD hoje divulgado através da resolução homologatória 1.667 de 10/12/2013 é de R$822,83. O PLD tem que ser respeitado pelo mercado, como há oferta desse valor? Inclusive o PLD está em discussão para passar para R$ 388,04 teto mas esse é assunto para outro post….

    É preciso checar as fontes, a veracidade dos fatos e principalmente, repassar a informação de maneira imparcial, clara e objetiva. Neste ponto, o texto deixou a desejar.

    1. Cara Karla:
      Grato por sua observação. Com certeza há algum equívoco na informação sobre os R$ 3.000/MWh nos contratos futuros, mas acreditamos que esse erro não invalida a reportagem. Na opinião do ILUMINA faltam muitas informações sobre o que ocorre no mercado livre, já que, por singularidade do sistema brasileiro a garantia é compartilhada por todos. Concordamos totalmente sobre a necessidade de orientação adequada das empresas, mas o nosso instituto entende que há características específicas do nosso mercado que fazem com que essa tarefa se diferencie de ações em outros mercados de energia. Insistimos que instabilidades de preço da ordem de 5.000 % não são comuns em nenhum mercado de energia. Apesar de ser uma minoria, há exemplos de comercializadores que se arriscam oferecendo contratos de dois anos, mas compõem essa oferta a partir de contratos mensais. Basta olhar o perfil do mercado em 2011 onde 25% dos contratos giraram no mensal. Também não são pequenas diferenças, pois o volume também atingiu mais de 20%. Infelizmente a CCEE não divulgou esses mesmo perfil para anos anteriores, pois seria muito interessante entender essa dinâmica do nosso estranho mercado. Há muito a discutir sobre a formação de preços e sobre efeitos de estranhas decisões tomadas em 2012.

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