
TÉRMICA A CARVÃO EM FORTALEZA É ABSURDO
Eng. José Antonio Feijó de Melo
Recife, maio de 2008
Através de duas matérias jornalísticas da Agência Folha, que me foram enviadas pelo Econ. Rubens Vaz da Costa, acabo de tomar conhecimento do iminente início das obras de implantação de uma usina termelétrica a carvão mineral, na cidade de Fortaleza, bem como das primeiras reações que se esboçam por parte da população da Capital cearense para impedir a concretização de tal projeto.
Confesso que já tinha ouvido falar dessa e de outras usinas similares, mas sinceramente não acreditava que esse projeto fosse adiante, pois imaginava que a insanidade reinante em certas áreas do setor elétrico nacional não chegava a tais limites.
É impensável como em pleno século XXI se pretende implantar, praticamente dentro de uma grande cidade, uma usina a carvão que, do ponto de vista do meio ambiente, constitui a pior e mais poluidora fonte primária de energia para produção de eletricidade jamais utilizada pela humanidade. Somente a extrema ganância de certo capitalismo selvagem que infelizmente ainda encontra guarida no Brasil, associada à ingenuidade de alguns técnicos, pode explicar tamanho absurdo.
O carvão mineral é altamente danoso em todas as fases da sua cadeia de produção e a sua utilização somente se justificou e se justifica na falta de alternativas. O carvão mata na mina, seja por meio de grandes acidentes, seja pela destruição dos pulmões dos mineiros. Polui o ambiente no entorno da mina, atingindo cidades e contaminando atmosfera, nascentes e riachos. Polui ao longo do seu transporte e nas áreas de estocagem. E da sua queima resultam grandes quantidades de CO2 e de enxofre, além de vários outros resíduos nocivos, provocando aquecimento global e chuva ácida, entre outros efeitos negativos. E saliente-se que, apesar dos grandes esforços já empreendidos, até hoje não se conseguiu desenvolver tecnologia capaz de eliminar satisfatoriamente tais efeitos.
Assim, somente se o Brasil possuísse carvão mineral de boa qualidade e em abundância se poderia aceitar a sua utilização para produção de energia elétrica, mas restringindo-a a usinas implantadas na “boca da mina”, como se costuma dizer, para eliminar o transporte do carvão e assim reduzir os seus efeitos negativos. Junto a uma grande cidade, jamais. Aliás, o Brasil dispõe de algum carvão em minas localizadas no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Mas, infelizmente, todos sabem que se trata de um carvão de baixa qualidade, que não possibilita um uso mais intensivo. Mesmo assim, já vem sendo utilizado há bastante tempo por algumas usinas térmicas situadas próximas às minas, embora de forma limitada.
Porém. importar carvão do exterior para produzir eletricidade aqui no Brasil seria um despautério. Significaria recuar técnica e historicamente pelo menos um século. Saibam aqueles que ainda não conhecem a evolução do setor elétrico nacional que no Recife, por exemplo, como em várias outras cidades brasileiras, no início do século XX, portanto faz cerca de 100 anos, a produção de energia elétrica começou justamente por meio de uma usina térmica a carvão importado da Inglaterra. Esta usina foi implantada pela empresa de capital estrangeiro que recebera as concessões para explorar na capital pernambucana os serviços de distribuição de energia elétrica e de transporte por bondes elétricos, além de distribuição de gás encanado e de telefones.
Entretanto, já nos anos trinta do século passado, as fornalhas a carvão da referida usina foram substituídas, passando-se a caldeiras queimando derivados de petróleo, situação esta que perdurou até 1955, quando finalmente chegou ao Recife e logo a seguir a todo o Nordeste a energia de origem hidrelétrica (renovável, limpa e barata) produzida pela CHESF no rio São Francisco.
Aqui, evidencia-se a insanidade que hoje representa a pretendida térmica a carvão de Fortaleza. O Brasil possui um imenso potencial hidrelétrico, do qual até hoje somente foram explorados cerca de 30%. Ainda restam à nossa disposição cerca de 70% dessa fonte energética limpa, renovável e barata com que a Mãe Natureza presenteou o nosso País. Pensar que querem trocá-la por uma fonte altamente suja, finita e mais cara, não dá para entender!
Como também não dá para entender por que órgãos de licenciamento ambiental concedem licença para implantação de uma térmica a carvão dentro de uma metrópole, enquanto dificultam por todos os meios a licença para implantação de hidrelétricas, cujo balanço global comparativo entre vantagens e desvantagens para o meio ambiente mostra-se altamente favorável às fontes hidráulicas.
Finalmente, para não ficar sem registro, vale salientar que o empreendedor desse absurdo que seria essa usina a carvão de Fortaleza é o mesmo que já levou para lá o “elefante branco” que hoje é a usina térmica a gás antes denominada Termoceará, agora rebatizada de S. C. Jereissati, de 220 MW, que tanto prejuízo já trouxe para a Petrobrás (segundo se fala, da ordem de um bilhão de reais), antes sócia e hoje proprietária única da usina que pelo menos há sete anos lá se encontra paralisada, incapaz de gerar regularmente um kilowatt-hora sequer, por falta de gás natural.
Portanto, se há conveniência de mais energia elétrica em Fortaleza, não há necessidade de novos investimentos para construção de nenhuma nova usina, muito menos a carvão. Basta fazer chegar gás natural para a usina S. C. Jereissati e para a sua co-irmã Termofortaleza, que tem capacidade de 300MW e pertence ao grupo ENDESA, a qual também permanece paralisada pela falta do combustível. Isto, por si só, dispensaria o investimento e a “sujeira” de uma térmica a carvão.