Gustavo Teixeira (*)
A REBRIP – Rede Brasileira pela Integração dos Povos, com o apoio do Instituto Eqüit, da Fundação Friedrich Ebert Stiftung e do Instituto Clima e Sociedade, lançou recentemente a publicação “BRICS + E O FUTURO SOBERANDO DO SUL GLOBAL”.
O diretor do Ilumina, Gustavo Teixeira, contribuiu com o capítulo “TRANSIÇÃO ENERGÉTICA NO BRICS”, em que discute as vantagens e os desafios dos países do BRICS, com destaque para o papel das empresas estatais no atual contexto de mudanças climáticas.
Abaixo são apresentados os principais pontos abordados no texto. Leia a publicação completa em: https://rebrip.org/wp-content/uploads/2025/05/Dossie-BRICS_versao-PDF.pdf
Transição Energética no BRICS
O texto destaca que a transição depende não apenas de avanços tecnológicos, mas também de forte atuação estatal por meio de planejamento energético e políticas industriais voltadas ao desenvolvimento de tecnologias limpas. Nesse contexto, investimentos em inovação, infraestrutura, pesquisa e manufatura são considerados essenciais.
Para os países do BRICS, a transição energética deve estar associada a uma estratégia de desenvolvimento econômico inclusivo, capaz de gerar empregos qualificados, reduzir desigualdades e promover capacitação profissional. O conceito de “transição justa” pressupõe mecanismos de proteção social e medidas compensatórias para minimizar os impactos econômicos sobre populações vulneráveis e setores produtivos afetados pelas mudanças estruturais.
O BRICS na Geopolítica Energética
O BRICS ocupa posição estratégica no sistema energético mundial, reunindo grandes produtores e consumidores de energia. O grupo possui influência significativa tanto nos mercados de combustíveis fósseis quanto na expansão das energias limpas.
Apesar dos avanços em energias renováveis, muitos países do bloco ainda mantêm forte dependência de combustíveis fósseis, especialmente carvão, petróleo e gás natural. Ao mesmo tempo, o BRICS concentra importantes reservas energéticas e desempenha papel relevante no comércio internacional desses recursos.
O texto ressalta que o grupo também lidera segmentos importantes da energia limpa. China e Brasil destacam-se na geração hidrelétrica, enquanto China, Rússia e Índia possuem relevância crescente na energia nuclear. Essas capacidades posicionam o BRICS como ator central na transição energética global e na definição das futuras rotas tecnológicas para a descarbonização.
Desafios para o Setor Energético do BRICS
Os principais desafios identificados envolvem a necessidade de reduzir emissões sem comprometer a segurança energética e o desenvolvimento econômico.
No setor de petróleo e gás, existe o risco de desvalorização de ativos fósseis à medida que avançam as políticas de descarbonização. Governos e empresas precisam equilibrar a exploração de recursos energéticos tradicionais com os compromissos climáticos de longo prazo.
No setor elétrico, os desafios incluem:
- Ampliação da eletrificação da economia;
- Integração de fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica;
- Expansão e modernização das redes de transmissão;
- Aumento da resiliência da infraestrutura diante de eventos climáticos extremos;
- Proteção dos consumidores contra volatilidade de preços.
O texto também enfatiza a crescente importância da energia nuclear e dos sistemas de armazenamento para garantir estabilidade ao sistema elétrico.
Outro desafio estratégico refere-se à dependência de minerais críticos utilizados em tecnologias limpas. Os países do BRICS devem evitar uma inserção internacional baseada apenas na exportação de recursos naturais, buscando agregar valor por meio de industrialização, inovação e desenvolvimento tecnológico. A cooperação científica e tecnológica entre os membros é apontada como instrumento fundamental para alcançar esse objetivo.
O Papel das Empresas Estatais de Energia na Transição Energética do BRICS
As empresas estatais de energia são apresentadas como agentes estratégicos da transição energética devido à sua capacidade de investimento, planejamento de longo prazo e alinhamento com objetivos de políticas públicas.
Essas empresas controlam parcela significativa da produção mundial de petróleo, além de grande parte da capacidade instalada de geração hidrelétrica e nuclear. Embora sejam importantes emissoras de carbono, também possuem potencial para liderar investimentos em energias limpas e infraestrutura sustentável.
O texto argumenta que os governos devem utilizar sua influência acionária para direcionar essas empresas para objetivos de descarbonização, expansão das energias renováveis, eficiência energética e inovação tecnológica.
Entre as prioridades destacadas estão:
- Ampliação dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento;
- Desenvolvimento de tecnologias de captura e armazenamento de carbono;
- Expansão de biocombustíveis, hidrogênio sustentável e combustíveis de baixa emissão;
- Planejamento para descomissionamento de usinas e minas de carvão;
- Fortalecimento da cooperação entre empresas estatais dos países do BRICS.
A proposta é que as empresas estatais atuem sob uma lógica de “empreendedorismo público”, gerando valor econômico, social e ambiental no longo prazo e contribuindo para uma transição energética justa e sustentável.
O texto sustenta que o BRICS possui condições únicas para influenciar a transição energética global devido ao seu peso econômico, energético e industrial. Entretanto, o sucesso desse processo dependerá da capacidade dos países do bloco de coordenar políticas energéticas e industriais, ampliar investimentos em inovação e infraestrutura, promover cooperação tecnológica e garantir que a transição ocorra de forma socialmente justa, ambientalmente sustentável e economicamente inclusiva.
(*) Doutor em Economia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Superintendente Executivo na Diretoria Financeira da Empresa Gestora de Ativos (EMGEA), Diretor do Ilumina – Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico – e Pesquisador do Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE/UFF).
Uma resposta
Excelente artigo
Destaco os comentários sobre o papel das estatais, com vistas a políticas de longo prazo.
Parabéns Gustavo!
Sempre te achei invulgar
Grande abraço
Olga.