Editorial – 05/03/14

Embalada pelos tambores e cuícas, a sociedade brasileira ignora o perigo. Podemos estar à véspera de um novo racionamento de energia elétrica. Especialistas chegam a estimar a probabilidade com precisão invejável. Preferimos não acrescentar mais uma opinião porque, num país de clima tropical, é preciso reconhecer que surpresas podem acontecer.

Muito mais importante do que quantificar a chance de racionamento é salientar que a tarifa brasileira, muito alta para um país de base hidroelétrica, deveria cobrir investimentos que garantissem um baixo risco de racionamento. Dada a importância da energia na vida moderna, não é prudente deixar “o leite derramar” para, só então, ficar atento. A “jarra já se inclina perigosamente” há alguns anos e nós temos insistentemente chamado atenção para essa situação.

É verdade que o Nordeste vem passando por uma longa seca. Não conseguimos entender porque essa evidência ainda não foi capaz de disparar iniciativas do governo para fazer um diagnóstico completo sobre o Rio S. Francisco. Mesmo se tal fenômeno for irreversível, é obrigação do planejamento reconhecer e considerar esse déficit nos seus cálculos. Agir como se valessem os registros históricos é a pior escolha.

Apesar desse ponto fora da curva, considerado o sistema integrado de reservatórios, não há situações hídricas dramáticas. Na realidade, estamos em desequilíbrio estrutural em termos de oferta e demanda e essa situação decorre de cinco equívocos:

  1. Nos últimos oito anos houve uma expansão que privilegiou térmicas de alto custo de operação. Computadas na oferta, não geram na maioria do tempo, sendo substituídas pelas hidráulicas. O esvaziamento de reservatórios é a óbvia consequência.
  2. Atraso de entrada de usinas decorrente de leilões baseados em projetos básicos sem o detalhamento necessário para se minimizar surpresas.
  3. Possíveis enganos nas simulações de operação relativas à eficiência das turbinas hidráulicas. Nosso kWh pode estar gastando mais água do que imaginamos.
  4. Parte da carga, atuando no mercado livre, não se compromete com contratos de longo prazo, preferindo atuar estrategicamente monitorando a situação hidrológica. Não se sabe qual é o impacto dessa forma de contratação na expansão.
  5. Superavaliação de Garantias Físicas decorrente de critérios de operação que se alteram ao longo do tempo. Esse é talvez a questão mais grave, pois interesses comerciais resistirão o rebaixamento de sua capacidade. Problemas do modelo adotado.

O outro grande enigma, a alta tarifa, não será resolvido com intervenções que criam preços irrisórios na geração que têm baixo efeito na tarifa final. Além de atingir a Eletrobras, que passa a não ter recursos próprios, coloca em risco o próprio sistema.

O ILUMINA não tem filiação partidária. Vive da contribuição voluntária de seus sócios. Foi criado em 1996 quando um grupo de técnicos começou a perceber os descaminhos que levariam ao racionamento. Na época, avisamos com antecedência e desde então, além dar sugestões, estamos atentos a novos desvios. Se quisermos recuperar o que já fomos, precisamos ir à base do modelo mercantil. Tal revisão nada tem a ver com o falso dilema estado x privado. É lamentável que a lição de 2001 não tenha sido aprendida.

Se por acaso escaparmos ilesos de mais uma experiência semelhante, agradeçam a São Pedro.

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2 respostas

  1. Trabalho em uma das holdings da Eletrobrás, o que o governo fez com a MP579 foi uma atrocidade com as estatais. A Direção da holding também não ficou atrás, jogou um PDV para cortar custos logo em um momento delicado às vésperas de uma copa do mundo em que a ordem é modernizar proteções antes da copa. Trabalho realizado pelos colaboradores sem experiência que ficaram, rendo com foco o prazo….. a data de entrada é fundamental, já a técnica ……..
    Se o racionamento não vier devido a bondade ou pena de são Pedro, o apagão já não tenho tanta certeza. Avisem a Dilma que provavelmente a causa será descarga atmosférica….. e viva Furnas …. ou melhor, e viva o Brasil.

  2. Muito oportuno esse Editorial do Ilumina.
    Pergunto agora se o Ilumina tomou conhecimento da existência de algum laudo final do ONS sobre o desligamento ocorrido em 11 estados no dia 4 de fevereiro. Parece-me que há algum “constrangimento” do órgão concluir que a causa primária foi um raio, já que a Sra. Presidente “decretou” que isso é impossível. Até onde eu sei a lei da gravidade não corre nenhum risco por enquanto.
    Atenciosamente
    Luiz Pereira

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