Embalada pelos tambores e cuícas, a sociedade brasileira ignora o perigo. Podemos estar à véspera de um novo racionamento de energia elétrica. Especialistas chegam a estimar a probabilidade com precisão invejável. Preferimos não acrescentar mais uma opinião porque, num país de clima tropical, é preciso reconhecer que surpresas podem acontecer.
Muito mais importante do que quantificar a chance de racionamento é salientar que a tarifa brasileira, muito alta para um país de base hidroelétrica, deveria cobrir investimentos que garantissem um baixo risco de racionamento. Dada a importância da energia na vida moderna, não é prudente deixar “o leite derramar” para, só então, ficar atento. A “jarra já se inclina perigosamente” há alguns anos e nós temos insistentemente chamado atenção para essa situação.
É verdade que o Nordeste vem passando por uma longa seca. Não conseguimos entender porque essa evidência ainda não foi capaz de disparar iniciativas do governo para fazer um diagnóstico completo sobre o Rio S. Francisco. Mesmo se tal fenômeno for irreversível, é obrigação do planejamento reconhecer e considerar esse déficit nos seus cálculos. Agir como se valessem os registros históricos é a pior escolha.
Apesar desse ponto fora da curva, considerado o sistema integrado de reservatórios, não há situações hídricas dramáticas. Na realidade, estamos em desequilíbrio estrutural em termos de oferta e demanda e essa situação decorre de cinco equívocos:
- Nos últimos oito anos houve uma expansão que privilegiou térmicas de alto custo de operação. Computadas na oferta, não geram na maioria do tempo, sendo substituídas pelas hidráulicas. O esvaziamento de reservatórios é a óbvia consequência.
- Atraso de entrada de usinas decorrente de leilões baseados em projetos básicos sem o detalhamento necessário para se minimizar surpresas.
- Possíveis enganos nas simulações de operação relativas à eficiência das turbinas hidráulicas. Nosso kWh pode estar gastando mais água do que imaginamos.
- Parte da carga, atuando no mercado livre, não se compromete com contratos de longo prazo, preferindo atuar estrategicamente monitorando a situação hidrológica. Não se sabe qual é o impacto dessa forma de contratação na expansão.
- Superavaliação de Garantias Físicas decorrente de critérios de operação que se alteram ao longo do tempo. Esse é talvez a questão mais grave, pois interesses comerciais resistirão o rebaixamento de sua capacidade. Problemas do modelo adotado.
O outro grande enigma, a alta tarifa, não será resolvido com intervenções que criam preços irrisórios na geração que têm baixo efeito na tarifa final. Além de atingir a Eletrobras, que passa a não ter recursos próprios, coloca em risco o próprio sistema.
O ILUMINA não tem filiação partidária. Vive da contribuição voluntária de seus sócios. Foi criado em 1996 quando um grupo de técnicos começou a perceber os descaminhos que levariam ao racionamento. Na época, avisamos com antecedência e desde então, além dar sugestões, estamos atentos a novos desvios. Se quisermos recuperar o que já fomos, precisamos ir à base do modelo mercantil. Tal revisão nada tem a ver com o falso dilema estado x privado. É lamentável que a lição de 2001 não tenha sido aprendida.
Se por acaso escaparmos ilesos de mais uma experiência semelhante, agradeçam a São Pedro.
2 respostas
Trabalho em uma das holdings da Eletrobrás, o que o governo fez com a MP579 foi uma atrocidade com as estatais. A Direção da holding também não ficou atrás, jogou um PDV para cortar custos logo em um momento delicado às vésperas de uma copa do mundo em que a ordem é modernizar proteções antes da copa. Trabalho realizado pelos colaboradores sem experiência que ficaram, rendo com foco o prazo….. a data de entrada é fundamental, já a técnica ……..
Se o racionamento não vier devido a bondade ou pena de são Pedro, o apagão já não tenho tanta certeza. Avisem a Dilma que provavelmente a causa será descarga atmosférica….. e viva Furnas …. ou melhor, e viva o Brasil.
Muito oportuno esse Editorial do Ilumina.
Pergunto agora se o Ilumina tomou conhecimento da existência de algum laudo final do ONS sobre o desligamento ocorrido em 11 estados no dia 4 de fevereiro. Parece-me que há algum “constrangimento” do órgão concluir que a causa primária foi um raio, já que a Sra. Presidente “decretou” que isso é impossível. Até onde eu sei a lei da gravidade não corre nenhum risco por enquanto.
Atenciosamente
Luiz Pereira