VERDADES NO ESCURO I
Mídia apagada enrasca-se no apagão
Alberto Dines
Todos os grupos jornalísticos, sem exceção, entusiasmaram-se com as privatizações. Mais do que isso: os capitalizados e prósperos aderiram de corpo e alma candidatando-se, eles próprios, às fatias do bolo das telecomunicações. Mesmo a Folha de S.Paulo, que em associação com a Odebrecht, a AirTouch e o Unibanco só saiu da competição quando perdeu a primeira rodada. Os poucos opinionistas contrários preferiram o silêncio. Ou esconderam-se atrás de desculpas esfarrapadas: sou de oposição mas a favor das privatizações.
Com este portentoso sinal verde, verdadeiro farol de apoio daqueles que falam em nome da sociedade, o governo foi em frente. Portanto, se há culpados nesta crise energética eles são, no mínimo dois. Os privatistas dentro do governo e os privatistas fora dele.
Quando começaram as privatizações das rodovias federais, este Observatório advertiu para uma alteração fundamental nas regras do jogo: a partir daquele momento caberia à imprensa, e não apenas aos representantes do povo, fiscalizar os serviços e o funcionamento das concessionárias. Quando essas privatizações completaram um ano foi feita a cobrança, sem grandes resultados.
A grande verdade é que a imprensa brasileira só sabe cobrir a máquina estatal governos e empresas públicas. Não tem cancha, ânimo e autonomia para cobrir o mundo dos negócios da qual também faz parte. Denunciar um órgão oficial ou uma estatal é relativamente fácil porque a burocracia pública não esbarra nas altas esferas em que vivem os executivos. Mais complicado é mostrar que uma operadora de telefonia privada está descumprindo suas metas ou enganando o consumidor. Uma estatal é obrigada a distribuir eqüitativamente suas verbas publicitárias. Pega mal privilegiar este ou aquele veículo pode parecer perseguição política. Já uma concessionária privada está liberada para punir os veículos inconformados com a qualidade do seus serviços. Aqui, a empresa jornalística adota o mesmo comportamento daqueles cujas atividades deve cobrir: esquece seus compromissos institucionais e age como empresa privada que só pensa no faturamento. (Observatório da Imprensa 16/5)