Dilma busca tecnologia nos EUA (ESP 24/06)
PAULO SOTERO
Correspondente
WASHINGTON A ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, iniciou ontem entendimentos que podem resultar em acordos de cooperação entre o Brasil e os Estados Unidos em tecnologia limpa de queima de carvão e desenvolvimento de biomassa e biodiesel. As conversas continuarão durante a visita de uma missão técnica do Departamento de Energia americano ao Brasil, nas próximas semanas. Se elas frutificarem, os acordos serão assinados durante a visita que o secretário de Energia dos EUA, Spencer Abraham, fará em dezembro ao País.
Na área do biodiesel, a ministra informou que o Brasil tem especial interesse em explorar e estimular acordos que levem a um aproveitamento do grande potencial que o País tem para produzir óleo de mamona. O biodiesel americano vem da soja. Dilma explicou que o governo Lula dará preferência ao desenvolvimento do biodiesel de mamona porque a planta adapta-se especialmente bem às regiões semi-áridas do Nordeste e pode ser produzido num modelo de pequenas propriedades rurais, tendo uma dimensão social importante.
A ministra reuniu-se também com a Federal Energy Regulatory Commission, para conhecer mais de perto como é feita a regulamentação do setor nos EUA. Ela observou que o marco regulatório americano não serve como modelo para o Brasil pois os sistemas são diferentes: "Nos EUA, a maior parte da energia é térmica e sua produção e distribuição se dá de forma descentralizada, regionalmente, enquanto no Brasil existe um sistema nacional, 95% da energia é hidrelétrica e não há um mercado spot".
A ministra discutiu o novo modelo que o governo está desenvolvendo para o setor num almoço com representantes da Duke Energy, que classificou de "continuação dos contatos que já tínhamos iniciado no Brasil". Na conversa, ela explicou alguns detalhes no novo modelo, que não contempla a privatização total prevista pelo governo Fernando Henrique Cardoso. A mudança do modelo apresenta problemas para os investidores que fizeram aplicações sob regras que agora serão alteradas. A Duke tem interesse no tema porque investiu US$ 1 bilhão na privatização da Usina CESP-Paranapanema.
"Elétrica é problema bancário", diz Dilma (Valor 26/06)
FERNANDO CANZIAN
DE WASHINGTON
A ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, disse ontem em Washington que as dívidas das empresas do setor elétrico dos EUA com bancos oficiais e privados no Brasil serão tratadas "da mesma maneira que os americanos tratam a questão: como um problema bancário".
A ministra fez a afirmação ao comentar a divida não-paga de US$ 750 milhões da AES com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Questionada depois se o mesmo valeria para as outras companhias, respondeu: "De uma forma geral, sim"".
Rousseff afirmou ainda que as empresas estrangeiras da área de petróleo que reclamam dos impostos para explorar óleo no Brasil não terão diferenciação em relação às outras atividades, mesmo após a eventual aprovação da reforma tributária.
""Para nós, essa continuará sendo uma atividade de risco como outra qualquer", disse.
Rousseff disse que a questão do modelo regulatório no Brasil está a ponto de ser resolvida -com concessões para investimentos associadas a contratos de compra de energia- e que o governo continuará privilegiando a geração a partir de hidrelétricas.
Segundo ela, outras fontes de energia, como termelétricas, serão apenas complementares. ""Não vamos jogar fora o que está aí, mas vamos interromper a aventura em que se transformou a tentativa de mudar a matriz elétrica brasileira de hidráulica para térmica", afirmou.
Hoje, 95% da energia produzida no Brasil é gerada em hidrelétricas. Nos Estados Unidos, por exemplo, as termelétricas respondem por quase 60% da geração. Segundo a ministra, a energia gerada em termelétricas é até 40% mais cara.
Rousseff deu a entender que espera os maiores investimentos na área de empresas de capital nacional altamente dependentes de energia para suas operações.
A ministra brasileira participou de reuniões ontem no Departamento de Energia dos EUA, onde apresentou e discutiu parcerias na área de biodiesel.
Segundo Rousseff, o governo Lula quer montar um programa de plantação e extração de óleo combustível a partir da mamona. A idéia é concentrar boa parte da produção no semi-árido nordestino e aliar o programa a assentamentos de famílias sem-terra.
Os EUA já viabilizaram o biodiesel a partir da soja. O produto é utilizado misturado ao óleo diesel fóssil e aditivado. A mamona, segundo a ministra, tem a vantagem de precisar de pouca água para ter uma produção contínua.
"A idéia é produzir em pequenas propriedade e transformar o produto em usinas cooperativadas no semi-árido", disse.
Segundo Rousseff, a Petrobras está desenvolvendo o óleo a partir da mamona e deverá fazer um grande projeto-piloto no Rio Grande do Norte para aferir custos. O óleo também poderá ser utilizado na geração de energia elétrica.