Fazemos nosso o texto de Clóvis Rossi. Sem mais comentários Distribuidoras querem aumentar o consumo (Estado de São Paulo – 21/02) Empresas procuram formas para recuperar prejuízos durante o racionamento REN …

Fazemos nosso o texto de Clóvis Rossi. Sem mais comentários


Distribuidoras querem aumentar o consumo (Estado de São Paulo – 21/02)

Empresas procuram formas para recuperar prejuízos durante o racionamento

RENÉE PEREIRA

O fim do racionamento, a partir de 1.º de março, deverá ser o ponto de partida das distribuidoras na batalha pela recuperação de seus mercados, retraídos com a escassez de energia. Mesmo com a desaprovação do governo, as concessionárias vão incentivar a retomada de consumo para equilibrar suas contas. O objetivo é evitar que os resquícios do racionamento provoquem novamente perdas de lucratividade, como as de 2001 – historicamente, após um plano de economia de energia, o consumo tende a ficar, pelo menos, 7% menor que o período anterior. "Queremos apenas retormar os patamares registrados antes do racionamento", afirma Fernanco Quartim, do Grupo Rede, controlador de oito distribuidoras.


A notícia de incentivo à retomada do consumo, porém, já causou mal-estar entre governo e distribuidoras. Mas as concessionárias não voltaram atrás.


Pelo contrário, algumas empresas, como Cemig, por exemplo, até já iniciaram projetos de ampliação do mercado. Os mecanismos para a retomada do consumo, porém, continuam mantidos sob sigilo para anúncio somente após o fim do racionamento. Uma das formas de incentivo pode ser a parceria com empresas comercializadoras de eletroeletrônicos, facilitando no financiamento e oferencendo descontos nas compras.


Na avaliação de Fernando Quartim, do Grupo Rede, qualquer empresa tem o direito de promover seu produto da forma que lhe for mais conveniente. "Isso não quer dizer que vá estimular o desperdício de energia." O assistente da presidência da Bandeirante Energia, Roberto Mario Di Nardo, tem a mesma opinião. Segundo ele, a intenção é buscar o aumento do consumo racional de energia, proporcionando mais conforto aos clientes. "Apenas com o religamento de todos os aparelhos, desconectados durante o racionamento, é possível conseguir aumentar o uso da energia."


Di Nardo afirma, no entanto, que a empresa somente deverá finalizar uma campanha de incentivo ao consumo após avaliar o comportamento dos clientes no pós-racionamento. A Eletropaulo também deverá aguardar para tomar algumas medidas. Mas, o diretor vice-presidente da empresa, Luiz Hernades, afirma que não há intenção de lançar campanhas de incentivo ao consumo. "Estamos preparando uma pesquisa para avaliar os hábitos do consumidor; isso será importante para redimensionar a compra e venda de energia e a decisão de novos investimentos."


Na Companhia Força e Luz Cataguazes Leopoldina, o plano também não está definido, mas a previsão é que haja crescimento de 10% no consumo deste ano em relação a 2001. A empresa já tem programas de venda de eletroeletrônicos eficientes para seus funcionários, o que poderá ser estendindo tamém para os clientes, afirma o assessor de relações com investidores, Carlos Aurélio Pimentel. "Queremos vender energia, mas dentro da racionalidade."


Algumas empresas, porém, preferem aderir medidas menos alarmistas, como o incremento ao combate das perdas provocadas pelos famosos "gatos". É o caso da Espírito Santo Centrais Elétricas (Escelsa), que pretende recuperar parte da queda do consumo com uma maior rigidez de fiscalização da rede de distribuição. De acordo com a empresa, as ligações clandestinas aumentaram 1% com o racionamento.


Enquanto boa parte das distribuidoras lutam para conseguir elevar o consumo de energia, a Cerj ainda está reticente quanto à situação do Brasil. Segundo o vice-presidente da empresa, Mario Rocha, o fim do racionamento acabou com uma fase crítica do País, mas os problemas não estão solucionados. "Não tem como vender o que não temos."


Crítico rebate "batatada" de FHC (Folha de São Paulo 20/2)

DA SUCURSAL DO RIO

O físico Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe/UFRJ (Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro), disse que o presidente Fernando Henrique Cardoso está "afirmando uma bobagem completa" ao dizer que "está tudo bem e que o racionamento acabou".


Pinguelli respondeu à crítica indireta feita na terça-feira por FHC, que chamou de "batatadas" as opiniões de acadêmicos sobre a crise energética. "Quem deu batatada foi FHC, ao desautorizar um reajuste da Petrobras e no dia seguinte voltar atrás. Ele deu batatadas elétricas e agora petrolíferas."


Para o diretor da Coppe, ao criticar a academia, o presidente mostra que "é adepto do pensamento único". "FHC é um convertido, é um cristão novo, um ex-membro da esquerda convertido ao neoliberalismo."


Um dos coordenadores da campanha do petista Luiz Inácio Lula da Silva na área de energia e crítico da política energética do governo, Pinguelli disse que a "universidade é um lugar típico de crítica, que é a base de toda a ciência". A Coppe divulgou nota oficial repudiando a declaração de FHC.


Outro crítico da gestão energética, Maurício Tolmasquim, também professor da Coppe, lamentou que FHC tenha tentado "ridicularizar" a academia. "A história mostra que as nossas críticas eram verdadeiras."


Tanto Tolmasquim quanto Pinguelli recordam previsões feitas por ambos que mais tarde se confirmaram. É o caso do próprio racionamento, previsto por Pinguelli em outubro de 2000, quando enviou uma carta a FHC na qual alertava para o risco de falta de água nos reservatórios.


Desde 1995, afirma Tolmasquim, o governo está sendo alertado para a depreciação do sistema elétrico, sem fazer nada.


Os dois especialistas, porém, afirmam que o governo acertou ao acabar com o racionamento, pois o nível atual das barragens sinaliza que neste ano não haverá problemas. Apesar disso, dizem eles, a crise não está afastada.

CLÓVIS ROSSI

Batatadas

SÃO PAULO – O presidente Fernando Henrique Cardoso armou nova rede nacional de TV, anteontem, para, no fundo, festejar um fracasso.


Anunciar o fim do racionamento como se fosse um triunfo do tal de povo brasileiro é de fato a "batatada" que o presidente identificou nos críticos do fim do racionamento.


O racionamento foi um formidável fracasso da política energética do governo (ou um triunfo da ausência dela). Festejar o seu fim, sem ao menos reconhecer os inconvenientes, não é exatamente uma maneira transparente de informar o público.


O fracasso está sendo medido até em números -e em números gordos. Ao jornal "O Globo", Ildo Sauer, da área de pós-graduação em energia da USP (Universidade de São Paulo), calculou em US$ 10 bilhões a perda econômica derivada do racionamento, levando em conta a retração da produção industrial e, principalmente, o que deixou de ser investido pelos empresários em 2001.

A avaliação pode até ser exagerada, mas os cálculos do organismo oficial de estatísticas (o IBGE) apontam claramente numa direção ao menos parecida. No primeiro semestre de 2001, período em que os efeitos do racionamento foram menores, a produção industrial brasileira cresceu 5,2%. No segundo semestre, já em pleno "apagão" parcial, em vez de crescimento, houve retração (1,9%).


É claro que seria ingenuidade esperar que o presidente (qualquer presidente, aliás) fosse à TV para um mea culpa. Mas o triunfalismo exagerado permite até usar a velha piada segundo a qual o fracasso subiu à cabeça.


Afinal, a situação está longe de ter sido resolvida, como disse, também a "O Globo", Pio Gavazzi, diretor do Departamento de Infra-Estrutura da Fiesp. Para ele, são Pedro deu uma mão na conjuntura, mas "o problema estrutural permanece".


Tudo somado, não é muito difícil apontar quem, entre FHC e os críticos, cometeu as maiores "batatadas" nessa questão.





Geradores devem permanecer em operação (Estado de São Paulo 20/2)

Empresas pretendem usar equipamentos para economizar nas contas de luz

NILSON BRANDÃO JUNIOR

RIO – As distribuidoras de energia vão perder parte do fornecimento, mesmo com o fim do racionamento. Além da economia residual que os consumidores manterão, grandes indústrias que investiram muito na compra de geradores estão decidindo usar os equipamentos para substituir a eletricidade nos horários de pico, durante os quais as tarifas são mais caras. As concessionárias de energia já programam promoções para reconquistar estes clientes.

Nesta semana, a Latasa, maior fabricante de latas de alumínio do País, começou a deslocar os oito geradores comprados por US$ 5 milhões para apenas duas unidades, em Santa Cruz (RJ) e Recife (PE). O presidente da companhia, José Carlos Martins, não se arrepende do investimento feito no ano passado e diz que a aquisição já levava em conta a alternativa do retorno com a utilização nos horários de ponta. Além disso, os equipamentos servirão como uma espécie de seguro contra eventuais cortes ou novos problemas de energia.

Para combater o uso do gerador na hora de pico, a Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) acaba de desenvolver um produto especial, justamente para os clientes que possuem geradores, oferecendo tarifas mais baratas nestes horários, com reduções de até 40%. Segundo o gerente de vendas da CPFL, Márcio Sant’Anna, a equipe de mercado da distribuidora detectou a oportunidade. A energia ofertada tem origem na sobra dos contratos iniciais com as geradoras, já que a demanda este ano será inferior ao previsto, por conta do racionamento e da redução nos hábitos de consumo.


A medicina do talibã (Tribuna da Imprensa 19/2)

Roberto Pereira d’Araújo


O Relatório de Progresso nº2, do Comitê de Revitalização do Setor Elétrico, de inocente título burocrático, na realidade esconde um rosário de absurdos que levarão o já combalido setor elétrico perder o que restava de interesse público. Com uma introdução teórica que lembra um livro básico de microeconomia, passa por aspectos fundamentais da realidade brasileira como se fossem questiúnculas já resolvidas pelo academicismo liberal e que, infelizmente, alguns setores retrógrados naturalmente insistem em debater.


A clássica e simplista visão de formação de preços baseada exclusivamente no equilíbrio entre oferta e demanda é evocada para reafirmar que a energia elétrica é como uma mercadoria qualquer. O texto prega que tudo se resolverá ao se implantar um ambiente de "feira-livre", onde os "feirantes" e "fregueses", ao invés de comprar bananas, compram kW.


O texto tenta transmitir a sensação de inevitabilidade dessas reformas, citando a experiência de outros países nessa direção. Não explica, entretanto, por que nos Estados Unidos 90% dos geradores de energia ainda são regidos pelo velho e "ultrapassado" conceito de serviço público, e justamente onde se implantou a "feira" (Califórnia) a população ficou sem energia.


Algumas conseqüências práticas dessa crença atávica e talibanesca nas forças do Deus Mercado aplicada ao setor elétrico já foram sentidas pelo brasileiro. De 1995 a 2001, a tarifa subiu 138% contra uma inflação de 78%, tivemos racionamento, sobretaxa, apagão e o futuro é incerto. Mas parece que isso não é suficiente para evidenciar o "erro médico" e o Relatório nº2, um simples "prontuário" na cama do doente, recomenda a aplicação de doses cavalares do mesmo remédio.


É lógico que um certo disfarce também foi pensado, pois, afinal, não se irá privatizar as empresas geradoras estatais, atendendo a pedidos, alguns inclusive dos "retrógrados". Foram-se os anéis, é verdade. Mas preservam-se os dedos! Está claro que o intocável nas intenções dos formuladores é manter o ambiente propício a grandes negócios, mesmo que o consumidor corra mais riscos.


O mandamento nº 1 desse ideário é a separação da transmissão da geração. Segundo esse "corão", a transmissão deve ser neutra em relação ao produto vendido para poder viabilizar a concorrência entre geradores. De nada adianta argumentar que concorrência em ambiente de óbvio desequilíbrio entre oferta e demanda faz os preços subirem. Portanto, se a real intenção fosse realmente proteger o consumidor, seria necessário garantir uma oferta superior à demanda.


Também não adianta lembrar que quando se analisa a expansão da oferta em um sistema hídrico de grande porte com diversidade hidrológica, projetos de linhas são tão importantes quanto o de usinas, o que faz com que a "neutralidade" do sistema de transmissão, no caso brasileiro, seja muito contestável.


Também não adianta mostrar que esse segmento, isolado da geração e com a tarifa proposta, é incapaz de se expanndir. Também não adianta lembrar que os EUA não separaram esses sistemas mesmo nos estados onde se implantou a concorrência. Lida-se com "talibãs" do mercado! E ainda por cima, surdos!


A proposta de cisão levanta fronteiras fictícias em um sistema com óbvias economias de escala, criando custos extras que não têm respaldo no mundo físico. Tudo isso para preservar a liberdade total para investidores faturarem em cima de um mercado de energia elétrica, que cresce 5% ao ano no mínimo, e cuja única taxa de crescimento negativa em 80 anos foi conseguida pelos sábios do governo FHC.


O mercado de energia elétrica brasileiro consome mais de 300 gW. Essa energia, paga a uma tarifa média de US$ 70/mW, gera uma fortuna de US$ 21 bilhões. O setor residencial, principal vítima dos sábios, paga 41% desse total (US$ 8,6 bilhões), apesar de consumir apenas 26% da energia. São todos consumidores cativos. Nem na Inglaterra, onde a população é infinitamente mais informada, essa categoria foi beneficiada por queda de preços via concorrência. Nem precisa se imiscuir no lixo teórico e regulatório do Relatório nº2 para entender.


De um lado, quase metade do faturamento cativo e indefeso – as galinhas. De outro, a liberdade de preços total (válida agora também no despacho das usinas, pasmem!) – as raposas. O que o Relatório nº2 propõe é fechar a porta do galinheiro. Com as raposas dentro, óbvio!


É preciso reunir forças e resistir ao iminente esquartejamento de Furnas e Chesf, onde, nessa última, a usina de Xingó entra na lista de privatizações como "troco" sem nenhuma justificativa. Essa questão é a última trincheira da sociedade na defesa de um setor essencial para o Brasil.


Roberto Pereira d’Araújo é diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico (Ilumina)


Categoria

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *