Entrevista de Joaquim de Carvalho (do conselho consultivo do ILUMINA) ao jornal Monitor Mercantil
Consultor vê ‘aberração’ na importação de eletricidade dos países vizinhosO senhor vê algum risco a médio prazo ou algum inconveniente em o Brasil se tornar importador de energia dos países vizinhos? Não parece estranho que um País com tantos recursos naturais precise recorrer a estes expedientes? Quando a situação começou a complicar-se ?
Uma das mais importantes vantagens relativas de que o Barsil dispõe, sobre países de economia comparável a nossa, é precisamente o fato de poder gerar internamente toda a eletricidade nessessária ao bom desempenho da economia e a seu desenvolvimento. Essa vantagem é tanto maior porque podemos fazer isso apenas com aproveitamento do potencial hidroelétrico, que é renovável, além de ambientalmente muito menos agressivo do que as fontes térmicas. As administrações que se sucedem desde os anos 80, seja na esfera federal, seja nas estaduais, parecem não ter tido consciência da inestimável riqueza representada pelo potencial hidroelétrico, tudo fazendo para anulá-la, seja por simples despreparo específico sobre a questão energética, seja por se curvarem a pressões alheias aos interesses brasileiros. Um dos erros mais graves foi o abandono do planejamento do setor elétrico. Daí a aberração de termos chegado a ponto de importar eletricidade de países vizinhos para contornar situações de emergência. Enquanto isso, por falta de lanejamento de longo prazo, exploramos apenas 25% do potencial hidroelétrico aproveitável. E o pior é que as eradoras hidroelétricas estão sendo entregues a grupos estrangeiros, o que nos obrigará a pagar em dólares pela eletricidade gerada em usinas construídas com dinheiro público, que funcionam a custos baixíssimos, graças à água que corre em nossos rios. Os atuais mandatários estão traindo o povo que os elegeu !
O senhor acha adequadas ou suficientes as medidas tomadas pelo Governo para encontrar substitutos ao uso do óleo combustível na geração de energia elétrica? Ou qual seria a saída?
O governo deposita muitas esperanças no programa das termoelétricas a gás natural. A meu ver, esse programa foi planejado sob pressão das empreiteiras interessadas em construir gasodutos, e dos grupos que controlam as reservas de gás da Bolívia, que ficaram em posição estrategicamente muito forte para estabelecer à vontade os preços de venda para as termoelétricas brasileiras. As reais necessidades do desenvolvimento brasileiro ficaram em segundo plano, se é que foram consideradas. Daí os graves pecados originais, começando pelo desperdício de caráter termodinà¢mico: considerando-se as temperaturas de operação de uma turbina a gás, a segunda lei da termodinà¢mica (Princípio de Carnot) limita em cerca de 60% a eficiência teórica da conversão do calor da combustão do gás, em trabalho, tranferido à turbina. Na prática entretanto, por força das inevitáveis perdas mecà¢nicas intrínsecas do conjunto turbo-gerador, a ficiência atinge, no máximo, 45%, e assim mesmo só em ciclos combinados, racionalmente ajustados sistemas em co-geração. Isto significa que os restantes 55% do gás transportado no gasoduto perdem-se na atmosfera, sob a forma de calor.
Qual seria a melhor solução para o uso do gás natural ?
Quando estiver superada a euforia mediática das termoelétricas a gás, as pessoas de bom senso perceberão ue o programa ficaria menos irracional e portanto menos oneroso se as termoelétricas fossem construídas nas vizinhanças das reservas de gás, transportando-se então a eletricidade gerada por linhas de transmissão que, salvo pequenas extensões, já existem. Então, porque construiu-se o gasoduto ? Quanto aos usos térmicos diretos (residencial ou industrial), teria sido melhor para o Brasil usar o gás das Bacias de Campos e Santos. Para isso, bastaria construir gasodutos menores, de Campos e Santos até as regiões metropolitanas de São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Curitiba. Para o Rio Grande do Sul, aí sim, poder-se-ia construir o gasoduto da Argentina. Ficaria mais barato e a costrução seria bem mais rápida.
E para os pequenos pequenos sistemas energéticos isolados ?
Para estes pode-se pensar nas fontes renováveis (biomassas, energia solar fotovoltáica, energia eólica, energia termosolar), sem esquecer as micro e mini-hidroelétricas.
E a conservação de energia ?
É absolutamente indispensável que se atribua a devida prioridade às iniciativas voltadas para a conservação de energia. Estudos feitos em 1.984 pelo engenheiro americano Howard Geller, então trabalhando na CESP, mostraram que podemos economizar no Brasil cerca de 20% da eletricidade consumida, apenas com providências destinadas a evitar desperdícios e a usar mais racionalmente os equipamentos e isnstalações xistentes. E isso não prejudicaria em nada a produção industrial, muito menos o conforto das residências. Infelizmente, em vez de ouvir os especialistas, o governo só pensa em proporcionar bons negócios para bancos, corretoras de valores, promotores de negócios e outros intermediários.
Qual é o principal entrave, na sua avaliação, à multiplicação de projetos de co-geração no País?
O principal entrave é que, ao contrário do que previa o governo, o capital privado não aparece. Por isso, o programa das termoelétricas, que na propaganda oficial foi usado para alardear o dinamismo da iniciativa privada, acabará, quem diria, sendo feito praticamente só com recursos da Petrobrás, e um pouco da Eletrobrás. Sempre foi assim. A lógica do empresariado privado é a do lucro a curto prazo, sem nenhum risco, o que é compreensível. Daí as pressões de poderosos grupos estrangeiros para comprar o que já foi construído pelo Estado, com dinheiro público. Dessa forma, sem investir praticamente nada, auferem-se lucros gigantescos, que são remetidos aos acionistas, no exterior. E assim, um país riquíssimo como o Brasil, vê seu povo ficar cada vez mais pobre, senão miseravel.
Seria viável o uso de recursos do FGTS na privatização de FURNAS, como foi feito na caso das ações da PETROBRÁS que pertenciam à União ? A empresa poderia financiar sua expansão com recursos próprios ?
Eu diria que, no caso do setor elétrico, é inaplicável o modelo adotado na venda ao público de ações da PETROBRÁS. Aquele modelo consistiu, em última análise, numa troca de ações da PETROBRÁS, pertencentes ao governo, por créditos no FGTS, pertencentes aos assalariados que optaram por participar do rograma.
Para financiar a expansão do sistema elétrico esse modelo não funcionará porque, neste caso, deve-se materializar o dinheiro para construir as obras.
Teoricamente, tal dinheiro seria sacado pelos assalariados, sobre seus créditos no FGTS, e aplicado na compra e ações das empresas a serem privatizadas.
Ocorre que o FGTS não tem dinheiro, pois até hoje o governo não cobriu os saques que, há anos, vem fazendo sobre os recursos do fundo, para rolar suas dívidas com os bancos.
Quanto aos recursos próprios, como sabemos, os parques geradores de FURNAS, CHESF, ELETRONORTE, assim como das estaduais CEMIG, COPEL e CESP Paraná, são essencialmente hidroelétricos e já estão contabilmente amortizados. Por isso, essas empresas são imensamente lucrativas e, se forem bem administradas, podem tranquilamente financiar com recursos próprios a expansão dos parques geradores. Essa possibilidade ficará muito comprometida com as privatizações, pois aí grande parte do lucro, em vez de ser reinvestida na expansão do sistema, será enviada ao exterior, sob a forma de remessa de lucros dos novos donos