Mais uma vez citamos Craven Crowell, Presidente da TVA em memorável discurso para investidores em NY ano passado:
"Empresas públicas, que servem ao interesse do povo – não somente o interesse de acionistas – irão prover um padrão pelo qual a performance de todas as empresas de energia serão medidas. Elas ajudarão a definir o "bem público" no que concerne a produção transmissão e distribuição de energia. E, por essa razão apenas elas merecem seu lugar no mercado desregulado do próximo século."
Conselho e gestão de Furnas serão desvinculados
Afirmação de Tápias contraria discurso recente do presidente da empresa
RODNEY VERGILI e FÁBIO ALVES
O ministro do Desenvolvimento, Alcides Tápias, disse esperar que o Conselho de Administração de Furnas Centrais Elétricas esteja desvinculado totalmente da gestão da companhia, que será profissionalizada. O ministro das Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, está com o processo da privatização em análise e não será descartada a possibilidade de participação de investidores estrangeiros, disse Tápias.
As afirmações do ministro do Desenvolvimento contrariam o discurso do presidente de Furnas, Luiz Carlos Santos, que rechaçou a idéia de profissionalizar a gestão de Furnas antes da pulverização. Tápias acrescentou que o modelo adotado para a privatização de Furnas vai levar em conta tudo que o governo espera das empresas com a nova lei das S.A. Ele afirmou que será adotada a pulverização das ações junto a pequenos investidores e que o governo abrirá mão do prêmio de controle.
"Os investidores estrangeiros acreditam que o modelo de pulverização adotado em Furnas acrescenta um elemento de incerteza ao programa de privatização do Brasil", diz David Hurd, analista do Deutsche Bank. Para Rowe Michels, analista do Bear Sterns, a pulverização foi uma solução viável para a venda da empresa do ponto de vista politico. Mas mesmo assim, os investidores estrangeiros não crêem que esse processo vá adiante e, mesmo se for, não se sabe quanto tempo levara para ser concluído. "O adiamento pelo terceira vez da reunião do Conselho Nacional de Desestatização é um reflexo das dificuldades políticas que a venda de Furnas irá encontrar", diz Mario Epelbaum, analista do Morgan Stanley Dean Witter. Para ele, a oposição política pode atrasar a conclusão do processo.
Epelbaum acha que a idéia por trás da pulverização é positiva, tomando-se por base o modelo de venda de estatais elétricas e de telecomunicação britânicas. Já Rowe Michels, do Bear Sterns, considera a pulverização mais interessante para o investidor institucional. "Mas esses investidores estão esperando a definição de detalhes importantes, como a golden share do governo, o acordo de acionistas, a política de pagamento de dividendos etc."
Na opinião de David Hurd, do Deutsche Bank, a venda de Furnas através da pulverização em si não é negativa para a imagem do setor elétrico brasileiro, mas sim a falta de vontade do governo de abrir mão deste setor.
"O setor elétrico é mais difícil de privatizar, politicamente falando, em qualquer país", diz Michels, do Bear Sterns. Segundo ele, o que afeta a imagem é o ambiente regulatório do setor. "Ainda há muita intervenção no setor elétrico por parte do governo brasileiro, mas a situação ainda é melhor do que na Venezuela e em boa parte da Ásia, porém é pior do que no Chile, Argentina, Peru e Colômbia", disse Michels. "O risco de intervenção do governo é o que mais preocupa as empresas interessadas em investir", disse. (AE) Estado de São Paulo 01/08
Governo vê a co-geração como solução imediata para a escassez
Programa dará estímulos à criação de centrais elétricas
EUGÊNIO MELLONI
O Ministério das Minas e Energia, por meio de duas portarias publicadas na semana passada, introduziu a co-geração de energia – a geração de eletricidade associada à obtenção de vapor em plantas industriais e comerciais – entre as alternativas para a ampliação da oferta de eletricidade no curto prazo. As portarias criam o Programa de Geração Distribuída (Gedis), que estabelece estímulos para a instalação de centrais de co-geração entre os grandes consumidores de energia, o que inclui financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Segundo levantamento realizado pela Agência de Desenvolvimento Tietê-Paraná (ADTP), que serviu de base para a decisão do ministro Rodolpho Tourinho, o Programa de Geração Distribuída poderá proporcionar uma expansão da oferta de energia de cerca de 1,5 mil megawatts (MW) até 2002. Trata-se de um terço das necessidades anuais de expansão da oferta de energia.
Pesquisa – "Em uma pesquisa rápida que fizemos na semana passada, detectamos projetos com um potencial para a produção de até 450 MW para início de operação até o final de 2001", disse Carlos Roberto Silvestrin, diretor da ADTP.
As portarias 215 e 212 estabeleceram a garantia de suprimento pela Petrobrás, pelo prazo de 20 anos, para as usinas vinculadas ao sistema elétrico. Serão destinados 3 milhões de metros cúbicos por dia – cerca de 10% da capacidade total de transporte do gasoduto Brasil-Bolívia – para emprego em termoelétricas co-geradoras, dos quais 2 milhões serão destinados para as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, e o restante para o Nordeste.
Além disso, de acordo com o trabalho realizado pela ADTP, foram fixados preços mais baixos para o gás natural a ser destinado às plantas de co-geração – conforme já ocorrera no Programa Prioritário de Termeletricidade com o gás utilizado nas plantas térmicas. Enquanto o gás natural custa US$ 3,68 por milhão de BTUs às empresas que fazem co-geração atualmente – incluindo a margem da distribuidora -, o preço para os projetos do Gedis será de US$ 2,95.
A adoção de medidas de incentivo à co-geração vinham sendo defendidas pela Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) como alternativa mais rápida para o atendimento das necessidades de energia do País. Estado de São Paulo 01/08