A Califórnia entrou nessa lá na década de 70. Tinha como uma boa desculpa a crise do petróleo e, no desespero, legislou obrigando as distribuidoras a contratar as caríssimas “Qualifing Facilities”, energia vinda de eólicas, co-geração, etc. Essas fontes eram tão caras que, já na década de 90,viabilizaram uma queda de preços quando o sistema mercantil foi adotado. Era óbvio que os preços deveriam cair.
Vinte anos se passaram e essas tecnologias melhoraram consideravelmente. Entretanto, permanece a situação brasileira radicalmente diferente daquela da Califórnia. Um programa de incentivo a fontes renováveis no país onde já há um predomínio da fonte renovável mais importante, a hidroeletricidade?
Outras perguntas têm que ser feitas:
1 – Qual é a contribuição efetiva dessas fontes ao sistema interligado? 2 – Qual é o impacto financeiro na Eletrobrás, obrigada a comprar essa energia por 15 anos? 3 – Porque 1/3 para cada fonte? 4- A pergunta de sempre; E a modicidade tarifária?
Podemos estar enganados, mas a impressão que fica é que estamos importando calças “boca de sino” para o nosso vestuário.
Programa de energia alternativa é criticado (Folha de SP – 31/3/2004)
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
E DA REPORTAGEM LOCAL
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou ontem o decreto que regulamenta o Proinfa (Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia), com um investimento previsto de R$ 8,6 bilhões, dos quais 70% serão financiados pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Para as empresas do setor, no entanto, as condições estabelecidas pelo governo ameaçam fazer naufragar os projetos de investimentos em geração de energia eólica.
O Proinfa -criado em 26 de abril de 2002 por meio da lei 10.762- quer gerar 3.300 MW de energia, o equivalente a duas vezes e meia a produção da usina Angra 2. Isso equivale a 3,1% do total da energia produzida hoje no país. O objetivo do governo é assinar os contratos até o final de abril e começar a produção da nova energia em 2006.
A energia do Proinfa será gerada por pequenas centrais hidrelétricas, fontes eólicas e biomassa. Cada fonte irá gerar 1.100 MW.
A ministra Dilma Rousseff (Minas e Energia) afirmou que, ao aumentar a oferta de energia, o Proinfa reduz o risco de racionamento. Entretanto, ela ressalta que esse não é o principal objetivo do projeto. O fundamental, disse ela, é o aumento da produção das fontes alternativas de energia.
O governo estima que o programa vá gerar 150 mil empregos durante a fase de construção e geração de energia. As condições do financiamento serão: TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo) e mais 2% de “spread” básico (diferença entre os juros que o banco paga e o que cobra do consumidor).
Preços menores
Segundo as empresas do setor, os preços que o governo estabeleceu para compra de energia são menores do que o necessário para garantir investimentos.
Paulo Celso Lage, presidente da Eletrowind, que previa investir US$ 150 milhões na construção de seis plantas de geração de energia no Nordeste, disse que o governo anunciou um preço 20% menor em relação ao estipulado em consulta pública em julho (o governo pagará de R$ 180,18 a R$ 204,35, no caso da energia eólica).
“As condições de financiamento oferecidas pelo BNDES são muito boas. Ainda assim, elas não compensam essa queda no preço. Vamos ter que reavaliar os projetos”, explica Ernan Saavedra, executivo do grupo espanhol Iberdrola, que, por meio da Enerbrasil, planejava investir US$ 300 milhões em seis plantas de geração de energia eólica. Ele diz que alguns projetos podem até ser sustentáveis, mas faz a ressalva de que “os que forem viáveis serão com margem bem apertada”.
Os projetos das duas empresas correspondem à instalação de cerca de 415 MW, pouco menos que a metade dos 1.100 MW planejados pelo governo para a geração de energia eólica. A Folha apurou, no entanto, que as demais empresas do setor que também acompanharam a divulgação do projeto avaliam que o preço está baixo demais.
Segundo o Ministério de Minas e Energia, só a ministra poderia responder às empresas, mas ela não atendeu a reportagem até o fechamento desta edição.