PLD alto retoma problema da inadimplência em 2008

 



Comentário: Como já se esperava, a baixa dos níveis de água causa a alta de preços e a inadimplência aparece. Como é que essa situação dos “sem lastro” pode surgir da noite para o dia? Foram pegos de surpresa? Se o preço não subisse estava tudo bem?

 Claro que não! Lendo a reportagem fica claro que, trocando em miúdos, alguns agentes “vendem” chuva, não energia de usinas. O mais impressionante é a naturalidade com que se comenta tal situação.



 

Agentes do mercado livre apontam riscos, mas minimizam previsões catastróficas. Jornal da Energia – 15/01/13

 

Por Natália Bezutti

 

A ocorrência de chuvas abaixo dos níveis normais para o período no país, e com os reservatórios abaixo a média, principalmente no subsistema Sudeste/Centro-Oeste, trouxeram impactos diretos para o aumento do Preço da Liquidação das Diferenças (PLD) – que atingiu R$554,82/MWh (71% do PLD máximo para 2013) – e retomou o temor do mercado quanto à volta da inadimplência.

 

A preocupação relembra o episódio de janeiro de 2008 quando o PLD atingiu R$569,59 por MWh e quando algumas comercializadoras que haviam vendido energia sem lastro de compra correspondente acabaram não cobrindo suas posições com a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), gerando uma enorme inadimplência.

 

Em números parciais, a inadimplência atingiu 8% nesse período, mas representou R$96 milhões em valores absolutos. Isso porque, as empresas em situação inadimplente utilizaram o argumento da falta de chuvas, e conseguiram a isenção do pagamento do PLD por meio de liminares judiciais. Assim, esses casos permanecem pendentes de solução, e não entram na contabilização da Câmara.

 

“Eu vejo que possa existir, recentemente como ocorreu com a Nova Geração (NGER), mas a gente acredita que empresas que estão há mais tempo no mercado talvez tenham tomado suas precauções”, explicou Luís Gameiro, diretor da Trade Energy

 

O diretor comercial da Bolt Energias, Rodolfo Salazar, também declara que a possibilidade de aumento da inadimplência não é descartada, principalmente para as empresas com menor caixa, ou que não estejam bem posicionadas no mercado em termos de preço. No entanto, essa não seria a maior preocupação para o momento.

 

“Acho que ainda não está sendo a maior preocupação do setor nesse momento. Todo mundo olha de forma apreensiva para isso e com cautela, porque impacta resultado de todo mundo, mas a principal preocupação é acertar qual vai ser a trajetória de preço, é tentar acerta qual vai ser o tamanho do degrau”, explicou Salazar.

 

Segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), na última quarta-feira (9/1) os reservatórios do sistema Sudeste/Centro-Oeste estavam com 28,31% de sua capacidade, enquanto que no Nordeste a capacidade registrada era de 29,91% e de 39,99% no sistema Norte. Já a capacidade de reserva da região Sul apresentou o melhor resultado, com 45,33%.

 

E é esse bom resultado da região Sul que faz com que um grande agente do setor acredite na queda do PLD. “Acho que a previsão para a semana que vem, com as chuvas que estão caindo no Sul, podem derrubar o preço. Não apostaria em alta pra essa próxima semana. Meu chute seria algo em torno de R$500 por MWh”.

 

Apesar disso, o diretor da Safira Energia, Mikio Kawai ressalta que o subsistema Sul, em termos líquidos no Brasil corresponde a apenas 5% dos reservatórios. Enquanto isso, os reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste, com as situações mais críticas, são responsáveis por 70% da capacidade de produção hidrelétrica no País.

 

“Existe essa possibilidade de alta do preço, porque a usina termelétrica de fronteira, a óleo combustível, está na casa de R$600 por MWh.Mas é tudo uma questão de previsão, porque a previsão de chuva não tem se configurado”, explicou Kawai.

 

Salazar, da Bolt Energias, revela que o mercado esperava um PLD alto para a semana em função das previsões que estavam sendo feitas, mas com a atual precipitação, a máxima do preço pode não acontecer, e ficar para a semana seguinte.

 

De olho no histórico das operações na CCEE, o presidente da Associação Brasileira dos Investidores em Autoprodução de Energia (Abiape), Mário Menel, diz não ter dúvidas sobre uma curva crescente de inadimplência, com o aumento do PLD. “Não tenho dúvida disso, é sintomático. Isso realmente tem acontecido, e os mecanismos (de garantia) estão sendo trabalhados, mas é um movimento que enquanto não resolver a gente sempre vai ter dificuldade, é só olhar o histórico. Agora não vai ser diferente”, declarou.

 

Já o especialista José Amorim analisa os riscos do PLD alto como uma situação inerente do mercado, e aponta que muita coisa evoluiu desde o ano de 2008. “Fazer prognósticos catastróficos está na moda. Eu acho que o mercado vem se profissionalizando, com os agentes se preocupando muito com a qualidade dos contratos e das contratadas. Acho que aprendemos com o estresse passado e temos uma condição presente mais saudável e muito mais madura de arcabouço de mercado que tínhamos em 2008”.

 

No dia 3 de janeiro, a diretoria da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou, em reunião de diretoria, a primeira fase de mudança nas regras de garantias financeiras para o mercado livre de energia, que prevê, entre outras mudanças, a ratificação prévia dos contratos pela CCEE, o que significa que ela terá a incumbência de checar a condição dos agentes. A expectativa é de que a resolução seja publicada nos próximos dias.

 

Apesar da maior segurança com as novas regras, um agente do setor, discorda sobre a sua eficiência neste momento. “A magnitude da inadimplência, no entanto, que pode englobar não só comercializadoras – como foi em janeiro de 2008 -, mas também muitos consumidores mal orientados e usinas em atraso. E isso pode surpreender a todos nós”, declarou.

 

Para Mikio Kawai, o novo sistema de garantias fará com que o lost share do mercado seja reduzido, tirando a obrigação do rateio da inadimplência entre os agentes que não tenham participado do contrato. O diretor também acredita no monitoramento preventivo da CCEE sobre as garantias financeiras do contrato. “O risco de inadimplência continua no ar, mas eu não vou ter que pagar por um negócio que eu nunca fiz”.

 

Luís Gameiro, da Trade Energy, também configura a situação com a evolução do aprendizado, recordando que depois da instabilidade do mercado livre de cinco anos atrás, houve a regularização das chuvas fazendo com que o preço spot caísse. No período de racionamento de 2001, com a redução da carga em 20%, acabou sobrando energia, sendo, na sua opinião, um grande incentivo para alavancar o mercado livre de energia convencional e o consumidor especial de fonte incentivada. “Cada crise nos ensina alguma coisa”, comentou.

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