A Diretoria do ILUMINA esteve presente na ABI, no dia 27 de julho, num emocionante encontro com o jornalista Barbosa Lima Sobrinho, quando teve a honra de contar com sua assinatura como Presidente do Conselho Consultivo do ILUMINA A responsabilidade do Instituto ganhou laços históricos e torna-se muito maior a partir desse apoio..
JB 25/7/99 Barbosa Lima Sobrinho
A pátria dos intermediários
O governo está muito empenhado em privatizar Furnas o mais rápido possível. No entanto, encontra algumas dificuldades técnicas e operacionais, além do fato de que essa venda representará passar a empresa de um monopólio público para um monopólio particular, com capitais provavelmente estrangeiros, o que não ocorre em nenhum dos países civilizados, ou se quiserem, independentes. E por que essa pressa, uma vez que Furnas é lucrativa, com cerca de R$ 470 milhões de lucro anual, para um faturamento de R$ 4,3 bilhões?
Já ouvi explicações do governo que, em relação ao faturamento, esse lucro é baixo. Razões que não convencem, sobretudo se sabemos que seu lucro deverá alcançar 50% do faturamento pois seu parque gerador é todo hidroelétrico e já está contabilmente depreciado, o que, segundo o Sr. Joaquim Francisco de Carvalho (O Globo, 20-7-99), "permitirá baixíssimos custos de geração". Mas esse aspecto parece não interessar ao atual governo e aí surge uma indagação estranha: por que esse tão ávido interesse em vender Furnas lucrativa, enquanto estão ocorrendo enormes sangrias financeiras dentro do próprio governo? Apenas como exemplo, ninguém pode duvidar que com a dívida externa o Brasil perde um valor muito maior do que aquele que poderia arrecadar com a venda dessa estatal.
Dias atrás, em conversa com Celso Furtado, disse-me ele que o Brasil paga um dos juros mais altos do mundo com sua dívida externa, cujo montante passou de 120 a 250 bilhões de dólares, apenas nos últimos cinco anos. Acrescento dois números: em 1994 pagamos 8,14 bilhões de dólares só de juros da dívida externa; a previsão para este ano de 99 é que esse valor alcance 18 bilhões. E Celso Furtado completou dizendo que essa distorção dá-se em razão da pouca ou nenhuma fiscalização nas negociações de rolagem da dívida, como também pela passividade da opinião pública e da mídia sobre o assunto.
Realmentente a tese é preocupante, sobretudo quando se sabe que todos esses organismos internacionais (FMI, Bird, BID, etc) devem ter todas as nossas informações internas necessárias, obtidas nos segundos e terceiros escalões do governo, provavelmente na calada da noite, para dessa forma tirarem sempre o máximo proveito do pobre devedor. É um campo fértil para a corrupção dos intermediários do devedor, no qual um simples dígito, por menor que seja, pode representar comissões enriquecedoras, com grandes prejuízos para todo o país. No caso do Brasil, por que seria diferente? A opinião pública é passiva e por esse ralo escoam bilhões, valores da escala muito maires do que todas as receitas que poderiam vir das privatizações, inclusive de Furnas.
Não se pode compreender como essas negociações de rolagem de dívida externa não chegam ao noticiário, muito menos o que o governo faz, se é que faz, para ter algum controle sobre elas. Acredito que o Tribunal de Contas da União e o próprio Congresso sejam obrigados a darem sua aprovação. Mas a opinião pública não participa, não tem acesso aos números e muito menos a explicações de uma alta e sempre provável elevação de juros. Uma preocupação, essa sim, que deveria ser prioritária para um governo eficaz, o que não é o nosso caso, em que, em apenas cinco anos, assiste-se indiferentemente à duplicação da nossa dívida externa.
Também não se pode deixar de levar em conta que está surgindo um movimento internacional, inclusive com a participação de credores, de que a dívida externa de países muito pobres venha a ser perdoada, pelo menos em grande parte. Esse movimento só pode significar que a insaciabilidade dos credores foi longe demais e enfiaram nos devedores volumes tais de empréstimos que acabaram por se tornar impagáveis. A excessiva sede com que foram ao pote estragou-lhes a fonte e possivelemnte terão que arcar com prejuízos originados da ganância tanto deles como de seus cúmplices, os intermediários dos países devedores.
Não se pode subestimar o poder dos credores diante dos devedores. E para estes últimos, como no caso do Brasil, só teremos a perder, sempre e cada vez mais, se não se consegue ter fiscalizações atuantes e, acima de tudo, uma opinião pública interessada, pressionando o governo, como observa Celso Furtado.
Através desse quadro, podemos desconfiar dessa estranha pressa em privatizar Furnas, imaginando, aí também, os intermediários rondando pelo cenário, ávidos para ter logo nas mãos a parte que lhes deve caber, provavelmente acertada na calada da noite. E a nós cabe-nos apenas pagar todas as contas e adiar para as próximas gerações o sonho de uma nação realmente independente. Teremos que nos resignar em ser apenas a pátria dos intermediários?
Barbosa Lima Sobrinho