Achamos prudente que os compradores da COPEL fiquem atentos às pesquisas de opinião sobre as próximas eleições. Podem comprar e ter que devolver.
Governo do Paraná cede a pressões e adia leilão
Investidores ameaçavam não participar se data fosse mantida
RENÉE PEREIRA
O Governo do Estado do Paraná resistiu até os últimos momentos, mas acabou cedendo às pressões dos investidores que ameaçavam não participar do leilão de privatização da Companhia Paranaense de Energia (Copel) se não houvesse adiamento do evento. Segundo nota do governo, o novo cronograma será divulgado assim que as autoridades tenham condições legais para fazê-lo.
A prorrogação do leilão ocorreu porque nenhum grupo fez o depósito de garantia até o horário previsto pela CBLC. Estavam habilitadas para disputar a compra da Copel a belga Tractebel, a companhia de investimentos GP e as companhias Vale do Rio Doce e Votorantim Energia, reunidas no consórcio Maromba. A justificativa das empresas é que o tempo era curto para avaliar os números da Copel. O novo prazo, porém, não foi considerado o ideal.
Segundo o diretor da Votorantim Energia, José Said de Brito, o adiamento da entrega das garantias, cogitado para 6 de novembro, não proporcionaria tempo suficiente para estudos e gestões necessárias para que o grupo continue a competir pela Copel. "Seriam necessários mais 15 dias", disse.
Já o presidente da Companhia Vale do Rio Doce, Roger Agnelli, afirmou categoricamente que se o preço mínimo atual for mantido – R$ 5,06 bilhões -, a mineradora não vai participar do leilão de privatização da Copel. O executivo disse que a parte de geração da companhia está com um preço próximo ao que a Vale estaria disposta a pagar.
O mesmo não ocorre com a área de distribuição, a qual a mineradora não tem interesse, e estaria sendo cotada a um preço superior aos que os parceiros da Vale estariam dispostos a pagar. "Pela avaliação dos compradores, a soma do preço de geração e distribuição ficou muito abaixo do preço mínimo fixado pelo governo paranaense."
A Tractebel, uma das favoritas à aquisição do controle da Estatal, afirmou apenas que continua formalmente interessada na empresa."Por enquanto nada mudou. Estamos pré-qualificados para o leilão", afirmou a porta-voz da empresa, Katja Damman. A Tractebel foi uma das candidatas a pressionar o governo para o adiamento do leilão, mas sempre admitiu as qualidades da companhia paranaense. A compra da Copel seria uma forma de consolidação de sua posição na Região Sul do País, já que tem o controle da Gerasul.
Inicialmente, cerca de 15 empresas, nacionais e estrangeiras, manifestaram interesse pela compra da Copel. Mas aos poucos foram desistindo da disputa.
Algumas alegaram falta de clareza na regulamentação do setor elétrico brasileiro, que passa por remodelação. Outras justificaram investimentos em outras partes do mundo, como Estados Unidos e Canadá.
Liminares – Além do desinteresse das pré-qualificadas, uma "enxurrada" de ações foram impetradas na Justiça para barrar a venda da Estatal. A oposição demonstrou que está bem "armada". Pelo menos, oito pedidos viraram liminares contra a privatização. O governo do Estado também montou grande estrutura para reverter os resultados, com advogados em Curitiba, Porto Alegre, Rio e Brasília.
Até o final da noite de ontem, cinco liminares haviam sido cassadas pelo Estado. A maioria das ações questiona a transparência no processo de privatização e o preço mínimo estipulado em pouco mais de R$ 5,06 bilhões.
Pela lei que autorizou a venda da Copel, obrigatoriamente o governo deverá aplicar 70% destes recursos na capitalização da Paraná Previdência, fundo criado para garantir o pagamento dos funcionários inativos do Estado. O restante deverá ser aplicado em atividades sociais, notadamente saúde, educação, segurança, agricultura, transportes e geração de empregos.
(Colaboraram Eugênio Melloni, Alaor Barbosa, Evando Fadel e João Caminoto)
Lula diz que reverá duas privatizações
GUILHERME BARROS
EDITOR DO PAINEL S.A.
PLÍNIO FRAGA
DA REPORTAGEM LOCAL
Em jantar com 25 dos maiores empresários brasileiros, o pré-candidato do PT à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva apresentou um plano antiapagão, no qual propõe parceria com a iniciativa privada para o setor elétrico, afirma que respeitará processos de privatização já acabados e anuncia que, se vencer, reverá a venda de Furnas e da Copel (Companhia Paranaense de Energia), caso realizadas até a eleição de 2002.
O jantar foi organizado pelo Iedi (Instituto de Estudos do Desenvolvimento Industrial) anteontem em São Paulo, no edifício World Trade Center. Estiveram presentes empresários como Paulo Cunha (Ultra), Eugênio Staub (Gradiente), Josué Gomes da Silva (Coteminas), Paulo Francini (Coldex), e José Roberto Moraes (filho de José Ermírio de Moraes, Votorantim), entre outros.
O encontro começou com Lula tentando explicar aos empresários sua declaração de que é preciso primeiro acabar com a fome para depois exportar. Afirmou que a frase foi tirada do contexto e que o país tem potencial para abastecer o mercado interno e exportar o excedente. Auxiliado pelo economista e professor da Fundação Getúlio Vargas Guido Mantega, disse que o Brasil tem de superar o "gargalo externo" para ajudar no combate à fome.
Defendeu uma política de substituição de importações e programas de estímulo à competitividade da indústria nacional. Mantega fez uma análise otimista do cenário econômico até a eleição, com melhoria nas contas externas, maior superávit comercial e taxas de juros mais baixas.
Energia
Coube ao físico Luiz Pinguelli Rosa expor o pré-programa petista para o setor de energia. Fez um diagnóstico da atual crise, que seria oriunda de "má-administração e inoperância estatal". Apresentou a proposta do partido de manter como estatais as empresas elétricas existentes, "por gerar energia barata".
Afirmou que o PT defende geradores independentes de energia no suprimento das necessidades de grandes consumidores. Essa relação seria regulada exclusivamente pelo mercado. O governo estabeleceria regras apenas para empresas que prestassem serviços ao cidadão comum, com cronograma de investimentos e tarifas controladas.
Seriam criados estímulos a projetos de fontes alternativas de energia e de produção de equipamentos para termelétricas, por exemplo. "As empresas privatizadas são um fato consumado, mas terão de internalizar os investimentos. Isso ocorrerá de uma forma entrosada com a política econômica", afirmou Pinguelli.
Lula defendeu a liberação de tarifas para o setor a partir de 2003. Comprometeu-se também a evitar aumentos nas tarifas.
Aos empresários, Lula fez uma análise do quadro político. Afirmou que ainda não se disse publicamente candidato, porque quer ter certeza de que terá condições políticas e econômicas de disputar a eleição com reais chances de vitória. "Para perder, já concorri e não quero mais", declarou, segundo participantes do jantar.
Ao final da apresentação, o presidente do Iedi, Ivoncy Ioschpe, disse que o instituto iria discutir internamente o documento para depois se pronunciar sobre ele. O PT espera que os empresários dêem contribuições ao texto, que será incorporado ao programa a ser defendido por Lula.
A Folha apurou que os empresários se dividiram em relação ao projeto apresentado. Para eles, não ficou claro como se daria a parceria com a iniciativa privada no setor elétrico.
Lula estava acompanhado também do consultor Antoninho Marmo Trevisan e da secretária de Energia do Rio Grande do Sul, Dilma Rossef.