Ajuda paulista poderá conter o racionamento
ILUMINA: Essa notícia mostra que a dimensão do racionamento ainda não foi inteiramente assimilada nem pelo govêrno nem pela sociedade.
ROBERTO CORDEIRO
Estado de São Paulo 20/4/2001
BRASÍLIA – O ministro de Minas e Energia, José Jorge, pediu o apoio ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, para que o Estado venha a aderir à campanha de economia e aumento da oferta energia elétrica. Para José Jorge, é importante a participação em duas medidas: a utilização do volume de água da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira e a operação em potência máxima da hidrelétrica Henry Borden.
Esta última medida tem a oposição de ambientalistas já que, para se tornar viável, depende de bombear água poluída, o que poderia trazer problemas para a população de São Paulo. Na tentativa de evitar o racionamento, o ministro está disposto também a colocar uma linha telefônica exclusiva para receber sugestões da sociedade por meio do disque 0800 (ligação grátis).
Hidrovia – O uso do reservatório de Ilha Solteira poderá diminuir a quantidade de água e, como conseqüência, influir na navegação da Hidrovia Tietê-Paraná. Segundo a assessoria do ministro José Jorge, o momento ideal para aproveitar a água armazenada na barragem da hidrelétrica é o mês de setembro. Isso vai permitir um aumento de 3% da capacidade de armazenamento de água dos outros reservatórios. Outra medida para ampliar a oferta de eletricidade é a reavaliação do parque térmico da Petrobrás.
País é o maior reservatório do continenteCom 40 trilhões de metros cúbicos, a Bolívia tem no Brasil o seu grande mercado
LA PAZ – A Bolívia é o maior reservatório de gás de todo o continente, com 40 trilhões de metros cúbicos de reservas provadas, garantiu entusiasmado Carlos Saavedra Bruno, ministro do Desenvolvimento Econômico.
O engenheiro Saavedra, que cursou a escola média em São Paulo, insistiu:
"Somos economias absolutamente complementares", antes de dizer que exportar gás "não é o único negócio que temos com o Brasil". Ele mencionou todo o estímulo do governo boliviano aos projetos de industrialização de gás, com a termoelétrica de Porto Suarez.
"Estarei com o governador Dante de Oliveira", disse Saavedra, "para apresentar nosso projeto de uma auto-estrada ligando Cuiabá a portos no Chile e no Peru, passando pela Bolívia". E completou: "A produção do cerrado poderá sair para o grande mercado do Pacífico".
"Sem esquecer", disse o ministro boliviano, "que também em Porto Suarez há o contrato com a Odebrecht para a instalação do pólo petroquímico", que ficará na fronteira entre Porto Suarez e Corumbá.
Conquista – O entusiasmo de Claudio Mancilla Peña, ministro de Comércio Exterior e Investimentos da Bolívia, com as possibilidades de integração econômica com o Brasil não é menor que o de seu colega do Desenvolvimento Econômico. "Temos, Brasil e Bolívia, a missão histórica de fazer a conquista do Pacífico." "Não queremos falar só de gasoduto, mas também das vantagens brasileiras nessa integração", assegurou o ministro Mancilla, dizendo que a estrada que transportará produtos brasileiros ao Pacífico poderá trazer o enxofre e o potássio bolivianos.
"Está na Bolívia a oportunidade latino-americana de dar uma resposta ao Canadá", afirmou, sem conter a risada, o ministro Mancilla.
As reservas bolivianas, de 40 trilhões de metros cúbicos, são superiores às venezuelanas, aos 25 trilhões de metros cúbicos que a Argentina possui, aos 13 milhões do Peru, aos 8 trilhões brasileiros e aos 4 trilhões chilenos. "A Argentina usa toda sua reserva para consumo interno", apontou Saavedra, completando: "O grande mercado está no Brasil".
"Nossas reservas estão bem distribuídas", garantiu o ministro, dizendo que, apesar do contrato de 30 milhões de metros cúbicos/dia assinado, "a Petrobrás não tem a nossa maior fatia de gás". Saavedra disse que o consórcio Andina/Repsol possui uma reserva de 8 trilhões de pés cúbicos, seguido pela British Gas, que tem 5 trilhões, depois a Total (francesa), que possui 4,6 trilhões, e "apenas em quarto lugar está a Petrobrás", lembrou o ministro, com a posse de 3,7 trilhões de pés cúbicos das reservas de gás bolivianas.
Integração – As perspectivas são muito grandes "no que se refere ao Brasil", reconheceu o ministro do Desenvolvimento Econômico boliviano, perguntando "de quem a British Gas vai comprar para atender a seus compromissos de distribuição no Brasil?", lembrando das licitações vencidas pela companhia inglesa em São Paulo e no Rio Grande do Sul.
Saavedra mencionou também a instalação de um pólo industrial de fertilizantes próximo à fronteira, "onde passa o gasoduto". Esses fertilizantes atenderiam, segundo a visão de Saavedra, ao mercado brasileiro do cerrado. "É a oportunidade de uma verdadeira integração."
O ministro boliviano disse que nos próximos cinco anos "três gasodutos estarão operando, outro de Santa Cruz até São Paulo e um terceiro gasoduto será construído até Porto Alegre".
Apesar de todas essas possibilidades, a integração rodoviária é o que mais entusiasma os ministros bolivianos. Eles gostam de chamar o projeto de construção da estrada Cuiabá-Porto Suarez-Santa Cruz de la Sierra, de "primeiro corredor oceânico" da América Latina.
Saavedra anunciou que irá apresentar ao governador Dante de Oliveira um projeto de "saída conjunta para o Pacífico" de três países: Chile, Bolívia e Brasil. A proposta do ministro boliviano "é formar um empenho comum para buscar financiamento".
A soja brasileira terá um outro ponto de exportação para a Ásia, disse ele, mas os minérios bolivianos e o sal de Potosí também terão "novas oportunidades". Saavedra fez questão de dizer: "Os caminhões vão e voltam com carga".
Novo governo – Impedimentos políticos para projetos de longo prazo como esses não preocupam os ministros bolivianos, apesar de o governo atual de Hugo Banzer terminar em agosto de 2002. A Constituição boliviana exige maioria nas urnas ou um segundo turno no Congresso.
É a nossa "garantia de governabilidade", disse Saavedra, porque as alianças se fazem "antes da posse". O ministro lembrou que o atual presidente foi eleito com o apoio de Jaime Paz Zamora, ex-presidente, e agora "as pesquisas mostram que Zamora está na frente com 22% da preferência popular".
Saavedra fez questão de lembrar que Zamora disse várias vezes que se a Bolívia vendesse toda sua produção para uma parte do Brasil "poderia esquecer o comércio com o resto do mundo". (L.T.)
Gás da Bolívia para o Brasil, via Petrobrás
Estatal brasileira é a maior empresa boliviana, com faturamento de US$ 600 milhões
LEONARDO TREVISAN
Enviado especial
LA PAZ – A preocupação em esconder desapareceu: hoje, a Petrobrás é a maior empresa boliviana, afirmou Décio Odoni, presidente da EBR, a Empresa Boliviana de Refinação, o braço da Petrobrás nesse país.
Odoni, um engenheiro da Petrobrás que já trabalhou na Líbia e em Angola, disse que a EBR atua na exploração, produção, refino, distribuição de derivados de petróleo, gás e energia na Bolívia. A EBR possui 500 empregados diretos e mais de mil indiretos. Em 2000, o faturamento da EBR, informou seu presidente, foi de US$ 600 milhões. Metade desse faturamento "é imposto pago ao governo boliviano, como em qualquer parte do mundo no setor de petróleo", completou Odoni.
A exportação de gás terá um "impacto enorme" na economia boliviana, garantiu o embaixador brasileiro em La Paz, Stélio Marcos Amarante. Segundo os dados do governo, a Bolívia exportou em 2000 cerca de US$ 1,2 bilhão e importou US$ 1,6 bilhão. Em 2004, quando o gasoduto estiver operando em carga plena, a Bolívia exportará em gás para o Brasil US$ 500 milhões. O déficit comercial boliviano "será zerado pelo gasoduto", garantiu o presidente da EBR.
História – A presença da Petrobrás na Bolívia é relativamente recente, lembrou Odoni. A construção do gasoduto Brasil-Bolívia é apenas parte dessa presença. Desde os anos 30, existem projetos para esse gasoduto.
Em 1975, os presidentes Geisel e Banzer assinaram um acordo para sua construção. Apenas em 1984, os contatos foram efetivamente retomados, e no início da década de 90 a Yacimentos Petroliferos Bolivianos iniciou a construção do gasoduto no território boliviano.
Em 1996, diante de dificuldades técnicas, foi assinado contrato com a Petrobrás para a construção da parte boliviana. Porém, explicou Odoni, o acordo relativo à construção do gasoduto continha a exigência de reserva boliviana de gás para sustentar no mínimo 20 anos de exportação.
Como essa reserva não era alcançada pela Bolívia, a Petrobrás entrou também na área de exploração de gás, por meio de contratos de risco. "O fato é que demos muita sorte", disse Odoni. Em 1998, foi descoberta pela Petrobrás a área de exploração de San Alberto, e em 1999 a de San Antonio. Juntas, essas áreas têm reservas de 10,6 trilhões de pés cúbicos de gás.
Nos dois campos de exploração, a Petrobrás investiu US$ 600 milhões. Como esses poços estão no sul da Bolívia, para chegar até a fronteira foi necessário construir um gasoduto de 450 quilômetros dentro do país, que custou aproximadamente US$ 300 milhões.
Termoelétrica – Além disso, a Petrobrás está participando da construção da termoelétrica de Porto Suarez, na fronteira com Corumbá. Essa termoelétrica está incluída no programa prioritário de termoelétricas do governo brasileiro.
Em 1999, o governo boliviano privatizou as refinarias da Yacimientos Petroliferos Fiscales, localizadas uma na cidade de Cochabamba e outra na de Santa Cruz de la Sierra. Juntas, essas refinarias produziam a totalidade do refino boliviano, e eram suficientes para o consumo interno do país, exceto diesel. Um consórcio, formado 70% pela Petrobrás e 30% pela Perez Company, comprou as refinarias e formou a Empresa Boliviana de Refinação.
Em maio do ano passado, o governo boliviano fez uma licitação do setor de distribuição de derivados de petróleo no país, para um contrato de cinco anos. A Empresa Boliviana de Refinação entrou na licitação e adquiriu o direito de ser também distribuidora por meio da nova Empresa Boliviana de Distribuição.
Desde janeiro deste ano o consórcio da EBR já exporta 6 milhões de metros cúbicos de gás para o Brasil. Em três anos, chegará a 30 milhões de metros cúbicos por dia. Como os poços que a empresa descobriu não serão suficientes para esse volume de exportação, a Petrobrás entrou em outro consórcio para completar a quantidade necessária para a exportação desses 30 milhões de metros cúbicos. A Petrobrás passou a ser sócia da Andina e da Total (francesa), donas de outras áreas de exploração, em um consórcio com contrato para vender 21,7 milhões de metros cúbicos de gás para o Brasil.
O presidente da EBR fez questão de informar que 25% desse consórcio pertence aos fundos de pensão da privatizada previdência social na Bolívia. Na prática, disse Odoni, "um quarto da maior parte do gás vendido será do povo boliviano".